Acusação: “Paris está por detrás da confusão que se regista na Guiné-Bissau…”

…Segundo o Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Angola, Eng. Isaac Monteiro

Por Jorge Eurico*

“Paris está por detrás da confusão que se regista na Guiné-Bissau”

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

O ainda cônsul-geral em Luanda, o bissau-guineense Isaac Monteiro, em entrevista ao SA, depois de alguma hesitação, acabaria por acusar a França de estar por detrás da confusão que se instalou no seu país, algo que visaria a eliminação da influência que Angola estaria a cimentar numa zona (África Ocidental) em que Paris sempre se habituou a mandar. Contudo, parece que o petróleo prestes a ser explorado por lá estará na base da «competição», se não for a «conversa» do narcotrá­fico a motivar a grande agitação que se regista por lá nestes últimos dias…

O Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda é um homem com o coração dividido entre a sua terra na­tal e Angola, onde vive desde 1969. Em face da situa­ção de grande agitação que se vive na Guiné-Bissau desde há duas semanas, o SA decidiu entabular uma longa conversa a propósito, entre outros assuntos jul­gados interessantes. Durante a fala, Isaac Monteiro, embora com toda a cautela que a diplomacia obriga, não deixou de tecer críticas ao seu governo, por, na sua óptica, ter permitido que determinados sectores da sociedade bissau-guineense se atirassem contra a Missang, em particular, e até contra quadros civis angolanos que lá têm ajudado a desenvolver o país a vários níveis. Porém, mais inaudito ainda seria a sua afirmação, feita depois de muita hesitação e por in­dução, de que a França estará por detrás do Golpe de Estado perpetrado pelo dito «Comando Militar».

Embora não o tivesse dito explicitamente, deixaria escapar que a intromissão de Paris nos assuntos de Bissau teria a ver com o crescendo da influência que Luanda vinha tendo no país, onde detinha uma missão militar que lá estava para ajudar a reorgani­zar as forças armadas locais, no quadro de um acordo bilateral entre os governos de Angola e da Guiné-Bis­sau, país situado numa zona (África Ocidental) onde a França sempre se habituou a «mandar» a solo.

Mais adiante, disse que, ao contrário do que é já propalado, o seu país não é «narco-estado» algum. Segundo ele, sucede apenas que não dispõe de meios para vigiar as 80 ilhas aonde os traficantes chegam de avione­tas com as suas drogas. Ou seja, a Guiné-Bissau, por enquanto, vê-se impossibilitada de evitar que o país continue a ser uma placa giratória para o tráfico de drogas pesadas.

Semanário Angolense (SA) Asterix, uma figura de banda de­senhada criada em França, em 1959,por Albert Uderzo e René Goscinny, dizia: «Estes romanos são todos loucos». Esta afirma­ção também serve para os gui­neenses?

Isaac Monteiro (IM) Para falar com propriedade, precisava de ter uma ideia do que se passa na cabe­ça dos golpistas. E eu confesso que não tenho. Por isso, posso errar ao dar uma opinião sobre isso, posso ser mal compreendido. É preciso ter cuidado. Hoje estou aqui, amanhã poderei estar lá, como é desejo de todos os guineenses. Sou empre­endedor. Tenho investimentos em Angola e na Guiné-Bissau. Hoje es­tou aqui, amanhã poderei estar na Guiné (Bissau) e não saber o que me espera.

SA – Receia, neste momento, ir à Guiné-Bissau?

IM – Os políticos não têm medo de morrer ou perder a pá­tria e a família. Estou pronto a ir ao meu país a qualquer momento.

SA O que é que se passou, concretamente, numa altura em que se preparava a segunda vol­ta das eleições presidenciais?

IM – Foi um mal-entendido entre os militares e os governan­tes do país. Houve uma invenção falsa que correu nas ruas da Gui­né-Bissau e que os militares não gostaram. Ficaram indignados, diria mesmo revoltado com a tal invenção. Por isso levantaram-se para mostrar que não estão aí para serem postos de parte. Tomaram esta posição para ne­gociar a sua situação social, eco­nómica e reivindicar o direito de melhorar a governação do país. Eles (os militares) estão em con­dições de dizer o que pretendem. Esta é a leitura que faço. Há por trás uma agitação.

SA – Agitação da parte de quem?

IM – Da parte de alguns diri­gentes que falaram sem respon­sabilidade, e isso terá chegado aos ouvidos dos militares. Esta é uma das coisas que levantou o proble­ma que se está a viver na Guiné- Bissau.

SA – Qual era o conteúdo da dita «invenção»?

IM – O que chegou aos ouvidos dos militares é que haveriam de ser substituídos. Um combaten­te que foi para mata aos dezassete anos e hoje, com quarenta, cin­quenta anos como militar, sem possuir aposentação condigna, e ouve este tipo de invenção, fica revoltado, sai à rua para reivin­dicar o que pretende. Todo mun­do condena a Guiné-Bissau, mas ainda não vi um passo concreto com vista a garantir a reforma condigna para os militares. As Nações Unidas, a União Europeia e a CPLP falam, mas não vimos dinheiro nenhum. Prometem dar, mas não o fazem. O único país que tem ajudado a Guiné-Bissau é Angola, sem contar com o apoio da CPLP.

«Angola é o único país que nos tem estado a ajudar de verdade»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – Como explica a existência de sectores políticos e militares que se tenham mostrado contrá­rios à Missang?

IM – Não acredito que os gui­neenses não queiram a Missang. A Guiné-Bissau e Angola são pa­íses irmãos desde há muito. Nós, guineenses, trouxemos armas e militares para aqui no sentido de ajudar a luta dos angolanos contra o colonialismo português. Temos um passado comum. Gostei muito do discurso de Sua Excelência en­genheiro Presidente José Eduardo dos Santos quando disse: «Vamos tirar a missão militar de lá (Guiné- Bissau), mas vamos continuar com a nossa irmandade». Isso é discur­so de um grande líder, palavra de um homem de Nação e do mundo. Isto valeu muito e abriu muitas portas. Mas há quem queira fazer qualquer coisa contra isso. E há agitadores.

SA – Estes agitadores estão identificados?

IM – Alguns já deverão estar identificados pelos revoltosos. Os guineenses precisam de outras condições.

SA – Que tipo de condições?

IM – De todo tipo. A Guiné-Bis­sau é um país pequeno e rico, mas não tem um serviço correcto para dar rendimento. A Guiné-Bissau tem hipótese de pagar qualquer investimento com os recursos na­turais que possui e não o faz. É um país com tantos recursos hídricos, mas sem uma barragem hidroeléc­trica. Em que pé estamos? Depois de tantos anos de independência, não há dirigente nenhum com ca­pacidade e visão para desenvolver o país? Isto é revoltante. Os intelec­tuais na diáspora são a salvação da Guiné-Bissau.

SA – O que é que estes inte­lectuais fazem, a partir de fora, para a Guiné-Bissau?

IM – Não têm hipóteses de fazer nada por ela, por enquanto. Têm que aguardar. Quando tentam fa­zer, esbarram sempre em determi­nados impedimentos.

SA – As notícias que nos vão chegando sobre o que se está a passar na Guiné-Bissau cor­respondem à verdade ou há um certo exagero da Comunicação Social?

IM – Se há coisas que respeito muito, a Comunicação Social é uma delas: nunca mente! É preci­so ter respeito e consideração pela Comunicação Social, embora exis­tam sempre jornalistas sensacio­nalistas que exagerem no calor da emoção de querer estar do outro lado da cortina e fazem a infor­mação para desmoralizar um dos lados.

SA – Definitivamente, pode-se dizer que os problemas que vão tendo lugar na Guiné-Bissau re­sidem na ausência da acomoda­ção dos antigos combatentes e que passados tantos anos ainda estão no activo?

IM – Estes homens ainda não são devidamente tratados. São ho­mens que passaram muitos anos a comer mal, a vestir mal, a dormir mal e continuam a não ter o de­vido tratamento por parte do Go­verno.

SA – Os militares na Guiné-Bis­ sau têm uma certa aversão em sujeitar-se ao Poder Político?

IM – Pelo contrário, eles até respeitam-no muito. É preciso entendê-los. É preciso entender o que os golpistas querem. É preciso conversar com eles.

SA – Como explica a morte de Nino Vieira, Baciro Dabó…?

IM – Citou um nome (Nino Viera), cuja morte doeu-me mui­to. Quase fiquei doente. Na altura disse à Comunicação Social que a morte deste dirigente tinha sido uma barbaridade, mas numa re­volução tudo pode acontecer. Num país que, de facto, quer desen­volver, mas que encontra sempre obstáculos, há momentos em que é preciso tomar uma posição, que é isto o que está a acontecer neste momento. A solução do problema da Guiné-Bissau será encontrada pelos guineenses. Não são pala­vras ameaçadoras vindas de fora que vão trazer a solução para os problemas da Guiné-Bissau. Isso não se faz no país dos outros. De­vem procurar saber o que é que os guineenses precisam. Prometeram fundos para a reforma, mas nunca deram…

SA – Angola também prometeu e não o fez?

IM – O único país que tem apoiado positivamente a Guiné- Bissau, como irmão, é Angola.

SA – A ajuda de Angola não foi vista com bons olhos por parte de alguns países?

IM – Sim, muita gente não se sente bem por Angola estar a apoiar a Guiné-Bissau no desen­volvimento de infra-estruturas. Angola está a ajudar a construir um porto de águas profundas, estradas e caminhos-de-ferro que vão permitir a transacção dos re­cursos naturais existentes na Gui­né-Bissau para outros países. É por isso que Angola é invejada.

SA – Quem é que não vè com bons olhos o apoio de Angola à Guiné-Bissau?

IM – Não quero citar a Nação. Mas se os observadores e analis­tas políticos tiverem a cabeça fria, hão-de lá chegar, hão-de desco­brir aonde estão os agitadores e o mal. Há uma potência que apoia Angola, mas há uma que não está satisfeita porque fazia parte deste processo indirectamente.

SA – Estamos a falar de uma Nação que fala português?

IM – Nem por isso. Não vou citar este país. Deixo para os ob­servadores e analistas políticos mais entendidos.

SA – Como encara a saída da Missang do seu país?

IM – Com muita tristeza e apreensão. A Missang estava a fazer um trabalho excelen­te. Mas os angolanos podem integrar um contingente mili­tar mais heterogéneo. Isto para não criar especulações junto do povo. Nós estimamos e acari­nhamos muito os angolanos; ali­ás, qualquer estrangeiro é bem acarinhado na Guiné-Bissau. A prova disso é que nunca nenhum estrangeiro foi, até ao momento, atingido durante os tumultos, nem com palavras nem com pe­dras.

SA – É verdade que o Primei­ro-Ministro Carlos Gomes Jú­nior quis usar a Missang como sua guarda pretoriana?

IM – Isto não tem fundamen­to. Penso que Carlos Gomes Jú­nior nunca pensou nisso. Todas as instituições, incluindo as em­baixadas de Angola, Portugal e outras, estão a ser protegidas pelas forças militares guineenses.

SA – Disse que os militares guineenses respeitam a Cons­tituição. Como explica a deten­ção do Presidente da República interino e do Primeiro-Minis­tro?

IM – Numa revolução tudo é possível. Isso acontece em todas as partes do mundo, até na Euro­pa. A solução dos problemas da Guiné-Bissau está nos próprios guineenses.

SA – Mas parece que os gui­neenses são um problema para a solução dos problemas que afligem a própria Guiné- Bissau. Ou não será assim?

IM – Há muitos agitadores. A Guiné-Bissau tem muitas tribos. Não se fez o trabalho de unida­de nacional, isto desde a luta de libertação armada para que pu­déssemos estar unidos.

Trinta e oito anos depois da sua independência «Somos um Estado fragilizado»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – A Guiné-Bissau começou mal ou é um Estado falhado?

IM – A Guiné-Bissau é um Estado fra­gilizado e começou mal por causa da trai­ção. Amílcar Cabral foi morto por traição e continua-se a matar os dirigentes por trai­ção. Não foi feito um trabalho para unir os guineenses. Vejamos: Angola é quinze vezes maior que a Guiné-Bissau, mas está a fazer um trabalho de unidade e reconciliação na­cional. Não há diferença entre bailundos e quimbundos. Há harmonia. São todos an­golanos a lutar pelo mesmo fim. Isto é um valor importante. Isto é capacidade de um bom Chefe de Estado.

SA – Há crise de liderança na Guiné- Bissau?

IM – O que está a acontecer na Guiné- Bissau responde à sua pergunta.

SA – A morte de Amílcar Cabral deixou uma peçonha na Guiné-Bissau?

IM – A morte de Amílcar Cabral deixou a nação bissau-guineense dividida, violen­ta e com as tribos cheia de rancor. O traba­lho de sensibilização «Nó djunta mom, no pintcha», que estava a ser feito em 1974/5, não foi terminado.

SA – E isso tem reflexos hoje?

IM – Exactamente! A política de unida­de «Nó djunta mom, no pintcha» falhou. Tentou-se introduzir em todo território gui­neense a língua crioulo para que as tribos pudessem comunicar-se melhor. Acredita que há regiões na Guiné-Bissau em que as pessoas que não sabem comunicar-se em português nem em crioulo. Este trabalho precisa de ser feito por pessoas que não queiram lucros imediatos.

SA – Os problemas da Guiné-Bissau começaram depois da morte de Amílcar Cabral ou começaram na Colina de Boé, ao tempo da guerrilha?

IM – Precisamente, desde logo porque o PAIGC tinha bases na Guiné-Conacry. Sekou Touré deu-nos grandes apoios, mas os problemas, as traições começaram depois de terem prendido Augusto Rafael Barbo­sa, morto Zambuja e desviado a canoa com armamento para um outro porto. Sempre houve traição entre eles. Mas era uma guer­ra conjunta de guineenses e cabo-verdianos para a libertação dos dois países. A Guiné- Bissau sofre desde a luta de libertação.

SA – Por isso é que, depois do «Movi­mento de Rectificação», os cabo-verdia­nos se retiraram da Guiné-Bissau?

IM – Não, nada disso. Os cabo-verdianos não se retiraram da Guiné-Bissau. Cabo Verde tornou-se independente e achou-se que cada país deveria ser governado pelos seus filhos.

SA – Durante a guerrilha, quem mais traía, o cabo-verdia­no ou o guineense?

IM – Não, a traição era ape­nas entre as tribos guineenses. Houve tentativas de tomada de poder por parte de Luís Cabral e de outros cabo-verdianos. Por isso é que Nino Vieira fez a reposição do Estado, afastando Luís Ca­bral do poder. Quem não sabe diz que aquilo foi um golpe de Esta­do. Não, não foi golpe de Estado. Qualquer país deve ser governado pelos seus filhos. Isto acontece em toda parte do mundo. Não pode­mos permitir que os congoleses ve­nham governar Angola. Não po­demos permitir que os angolanos saiam daqui para governar outro país. A Convenção de Genebra é clara sobre isso.

SA – Os cabo-verdianos esta­vam intelectual e politicamente melhor preparados, daí terem usado os guineenses no decurso da guerra de libertação e depois da independência?

IM – Não é bem assim. Cabo Verde foi uma das colónias portu­guesas que teve liceu muito cedo. Os meus pais fizeram o liceu em Cabo Verde. A Guiné-Bissau teve o liceu «Honório Barreto» antes da independência. É verdade que os cabo-verdianos tiveram acesso ao ensino primeiro que os guineenses.

SA – Não respondeu directa­mente à pergunta…

IM – Os cabo verdianos não usaram os guineenses. Aconte­ce que, durante a luta, o gran­de guia imortal Amílcar Cabral enaltecia a tribo balanta por esta ter entregado o maior nú­mero de filhos para a guerrilha. A tribo balanta entregou-se de corpo e alma à luta de liber­tação da Guiné-Bissau. E eles sempre pensaram por isso que mandavam na luta e ainda hoje pensam assim. Amílcar Cabral era guineense, não era cabo-verdiano que foi para Guiné- Bissau, não. Ele é filho de uma guineense. Este era um trabalho que já deveria ter sido feito jun­to da juventude guineense para saber o que se passou, o que se está a passar e o que se poderá passar no futuro.

SA – Mesmo assim não admi­te que a Guiné-Bissau tenha começado mal, enquanto Es­tado?

IM – Eu disse que desde a luta armada que começaram a matar-se entre eles devido à traição. Por isso admito que começou mal. A independência não foi dirigida pelos guineenses. Foi preciso fazer uma reposição à força para que a independência pudesse ser dirigi­da pelos guineenses.

SA – Porque é que, depois da independência, a Guiné-Bissau não não foi dirigida por guineen­ses?

IM – Achou-se, na altura, que se deveria honrar a memória de Amílcar Cabral. Por isso foi-se buscar Luís Cabral, o irmão de Amílcar Cabral, para dirigir o país. Mas como a governação estava ser malfeita, então teve que se afastar Luís Cabral.

SA – Então não é correcto di­zer que Nino Vieira liderou um golpe de Estado contra Luís Cabral?

IM – Não, não é correcto, Nino Vieira fez a reposição do Estado.

SA – Não era possível, na al­tura, recorrer a eleições?

IM – Era tempo de partido único e na Guiné-Bissau reina­va, na altura, a «Lei do Gati­lho». Não havia democracia em África.

SA – A «Lei do Gatilho» conti­nua na Guiné-Bissau…

IM – Mas não só na Guiné- Bissau. A «Lei do Gatilho» está presente em quase todo o conti­nente africano. Acompanhei e acompanho a política africana, por isso sei do que estou a falar.

SA – Podemos dizer que a Guiné-Bissau é, no contexto da CPLP, como um «filho» maior de idade que não consegue an­dar com os seus próprios pés?

IM – Disse bem! A Guiné-Bis­sau não consegue andar com o vejo e acompanho aqui em Ango­la. A Guiné-Bissau é um país rico. Não compreendo. Há guineenses com a mão estendida a toda hora! Isto está ultrapassado. Como é que países estrangeiros entram na Guiné-Bissau tiram recursos, matérias-primas sem pagar taxas alfandegárias? Esta não é uma forma de perder a soberania? Isto é um abuso de confiança!

SA – Estamos a falar de que

IM – Guiné-Conacry, Senegal…

SA – Há muitos interesses na Guiné-Bissau por parte dos paí­ses vizinhos?

IM – Pode crer! Há um país, não o vou citar,que está por de­trás disso tudo. Deixo para os analistas políticos para identi­ficarem onde está o mal e desta forma puderem negociar com ele. Este país deve deixar de incitar a guerra na Guiné-Bissau.

SA – Estamos a falar de países da CEDEAO?

IM – E não só!

SA – Repito: Há muitos interes­ses em jogo na Guiné-Bissau por parte de países estrangeiros?

IM – Há um país que está, como disse não o vou citar, por detrás do que se passa na Guiné- Bissau. É bom que os amigos que se dizem nossos amigos parem de incitar a guerra na Guiné- Bissau.

SA – Estamos a falar de paí­ses africanos?

IM – Estou a falar de países europeus. Tenho acompanhado declarações ameaçadoras contra a Guiné-Bissau. Não queremos ameaças de fora. A Guiné-Bissau é um país soberano como são os ou­tros. Podemos esperar conselhos.

SA – O nome de Angola terá sido usado indevidamente para que o mal-estar que se está a vi­ver agora tivesse lugar?

IM – Pelo contrário. Todos os guineenses querem lá os ango­lanos. Os angolanos são nossos irmãos. E digo isso com proprie­dade, pois sou o presidente da co­munidade guineense em Angola.

SA – Refiro-me à informação que fez os militares se levanta­rem.

IM – Quem veiculou essa in­formação falsa foram os guine­enses. Os angolanos são bem-vindos na Guiné-Bissau.

«É preciso afastar os (mais) velhos dos cargos públicos»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – A Guiné-Bissau está a preci­sar de uma nova geração de milita­res?

IM – Não há dúvidas! Os militares precisam das suas reformas condig­nas. Todos os ministérios da Guiné- Bissau deveriam afastar os velhos, dando lugar para os jovens formados, que não têm emprego.

SA – Mas o que é que faz a diáspo­ra guineense para o seu país?

IM – A diáspora representa a sal­vação da Guiné-Bissau, mas ela é tratada como inimiga. Os melhores quadros guineenses estão espalhados pelo mundo inteiro. Mas não têm oportunidade na Guiné-Bissau. Têm uma ideia de evolução, estão acostu­mados a trabalhar, estão acostuma­dos a viver da meritocracia, mas não têm oportunidade na Guiné-Bissau. Isso dói não só a mim mas a muitos guineenses na diáspora!

SA – A classe política da Guiné- Bissau pode ser comparada à estó­ria do «Velho do Restelo»?

IM – Acho que sim. A classe política quer ter mulheres à sua volta, ganhar o seu dinheiro no final do mês sem trabalhar para o desenvolvimento do país. Ainda não vi a Guiné-Bissau a dar um passo para o desenvolvimen­to, tirando o bom trabalho de inves­timento que Angola tem estado lá a fazer.

SA – As instituições do Estado na Guiné-Bissau estão fragilizadas e não há vontade de fortifica-las?

IM – Vontade há, mas não há en­tendimento entre eles (os políticos). Quando o Presidente e o Primeiro- Ministro não estão em sintonia, as coisas não funcionam.

SA – É o caso presente?

IM – Nem por isso, mas já hou­ve casos do género com presidentes (Nino Vieira e Malam Bacai Sanhá) que já morreram. Trabalhavam com o Primeiro-Ministro de costas viradas. Imagine o seguinte cenário: Há um Presidente com a sua equipa, o seu ga­binete que usurpa as competências do Primeiro-Ministro e este quer cumprir a sua agenda. Pronto, o senhor é um bom entendedor e vai concluir o que é que se passa na Guiné-Bissau. Já disse tudo.

Por falta de embaixada e consulado em Luanda … «Espero que o Governo ganhe juízo»

SA – Não se respeita a Constituição na Guiné-Bissau?

IM – Dificilmente. Repare: fui nomeado como cônsul-geral da Guiné-Bissau há oito anos, mas nunca recebi tostão nenhum do Governo. Gastei o dinheiro da minha empresa que poderia ter investido mais em Angola. E eles lá gastam o dinheiro, a ganhar fama junto de mulheres, ao invés de criarem uma boa imagem e harmonia entre os dois países, Angola e a Guiné-Bissau. É isto que está acon­tecer. Espero que o Governo bissau-guineense ganhe juízo, que se reconcilie e respeite os Direitos Humanos.

SA – Quanto é que o Governo guineense lhe deve?

IM – Boa pergunta! Dois milhões, trezentos e tal mil dó­lares desde Dezembro de 2003 até Janeiro de 2012. Então você trabalha e não recebe? A escravatura já lá foi!

SA – Porquê que mandaram encerrar inopinadamente as portas do Consulado geral da Guiné-Bissau em Lu­anda?

IM – Isto é uma grande vergonha para o Governo guine­ense. Mas fê-lo porque o ministro dos Negócios Estrangei­ros e Comunidade Internacional não tem a sensibilidade de cuidar dos seus compatriotas no estrangeiro. Por isso mandou encerrar as portas do Consulado em Janeiro.

SA – Os bissau-guineenses em Angola estão, neste momento, entregues à sua própria sorte?

IM – Sem dúvida, mas criada pelo ministro dosNe­gócios Estrangeiros e Comunidade Internacional. Ele enviou uma nota ao Ministério das Relações Exteriores a dar conta da cessação das funções do cônsul-geral em Angola. Sei que em Dezembro foi acreditado um embai­xador, Manuel Monteiro dos Santos.

SA – Um cabo-verdiano…

IM – Exactamente, que neste momento não está na Guiné-Bissau, mas sim em São Vicente. Foi nomeado em Dezembro. Esteve durante umas semanas num hotel, mas, entretanto, não há dinheiro para pagar aquilo que o cônsul-geral Isaac Monteiro está a fazer em Angola em prol dos guineenses. Os guineenses em Angola estão revoltados por causa disso.

SA – Neste momento a Guiné-Bissau não tem Em­baixada nem Consulado em Angola?

IM – É verdade. O Consulado-Geral está encerrado e o embaixador nomeado não para aqui.

SA – Podemos dizer que técnica e diplomaticamen­te o relacionamento oficial entre o Executivo ango­lano e o Governo guineense está cortado?

IM – Não, não está cortado. O Mirex, na pessoa do senhor ministro Georgy Chicoty, saberá responder onde está a Embaixada e o embaixador da Guiné- Bissau em Angola.

SA – A Guiné-Bissau é ou um narco-Estado?

IM – Não, não é. Os falsos amigos do continente são quem fazem passar esta ideia para enterrarem a ima­gem da Guiné-Bissau. Eles criam problemas de todaa ordem. E porquê? Porque a Guiné-Bissau tem petróleo que vai começar a ser explorado. Foram descobertos trinta e seis poços de petróleo, dos quais dez já estão prontos a serem explorados. E está confirmado que é do bom petróleo comercial. E agora? Quem vai explo­rar? Aqueles que nos estão ajudar, que nos estão aju­dar a fazer estradas, portos, caminhos-de-ferro, etc.

SA – Está a falar dos angolanos?

IM – Perfeitamente! Quem é que nos está ajudar? É Angola e os angolanos. E há países vizinhos que, man­dados por outros, não gostam disso.

SA – Estamos a falar de países francófonos que são manipulados por França?

IM – Está a ver como o ilustre jornalista conseguiu ser um bom analista e chegou à questão?! Esta é a res­posta!

SA – Mas a questão da droga é um falso problema na Guiné-Bissau?

IM – É o seguinte: a Guiné-Bissau tem cerca de oi­tenta arquipélagos e não temos capacidade para con­trolá-los. Os traficantes de droga desembarcam nestas ilhas com avionetas. Por isso a Guiné-Bissau é sim­plesmente uma plataforma para o tráfico de drogas. A Guiné-Bissau não fabrica droga. Não há barcos que possam patrulhar estas ilhas. Uma vez falei com o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, António Indjai, e ele manifestou-se revoltado. Disse que preci­sava de meios para controlar as nossas ilhas e acabar com o tráfico de drogas. Ele desabafou comigo. E eu disse-lhe: «Mas disseram que deram uma fragata». Ele respondeu: «Não, Portugal deu-nos um barco velho que está aí parado».

SA – Confia em António Indjai?

IM – Confio em todos os homens desde que prati­quem boas acções e abram o seu coração a dizer o que é que pretendem fazer de bom.

Bilhete de Identidade

À pala de um concurso público José Isaac Monteiro Silva, formado em Engenharia Civil, trocou, em 1969, Lisboa por Luanda para dirigir o departamento de medição e orçamento da SICAL. Em função dos resultados, as Construções Nogueira (CONOL) interessaram-se pelo seu trabalho e contratam-no para trabalhar no seu gabinete técnico.

Em 1975, foi convidado por um dirigente angolano para trabalhar no Labora­tório de Engenharia de Angola (LEA). O seu trabalho, a par dos seus colegas, era o de entrar nos bairros para reparar as escolas que reclamavam de obras de res­tauro. Trabalhou sob orientação directa do primeiro Presidente angolano, An­tónio Agostinho Neto, a quem dirigia os seus relatórios técnicos referentes aos trabalhos que desempenhou desde a Ilha de Luanda a Caxito. Foi um dos funda­dores da EMPROE e da ENCIB, tendo trabalhado nesta última empresa até 1979, altura em que, fruto de uma desavença laboral, bateu com a porta, tendo, depois disso, criado a sua própria construtora, com a qual sempre esteve ao serviço de instituições como o BNA e o BPC sobretudo no interior do país.

 

*Publicado no Semanário Angolense, Edição de 21 de Abril de 2012

 

 

 

 

 

6 Responses to Acusação: “Paris está por detrás da confusão que se regista na Guiné-Bissau…”

  1. DINUMIU MALEL diz:

    Sr. ISAC MONTEIRO
    o sr. falou muito mas nada dizeste. tu nao comprende nada da guine-bissau. o problema de tribo que referiste aquidemonstra a sua inocencia do assunto do seu país. o problema do tribo na guine nunca foi problema maior porque esse problema so si começou a ser falada depois que o Kumba YALA chegou o poder mas é uma farsa dos politicos dividir para melhor reinar mas na realidade nunca temos esse problema como referiste tomando-a como se fosse factor do estrangulamento.
    falaste tambem que há regiao que os populares nao sabem falar crioulo, tais a falar de que regiao? ou o sr. queria falar que tu mesmo (ISAC MONTEIRO) é que nao sabe falar crioulo. é normal que vais encontrar algumas pessoas que nao sabem falar crioulo mas o sr. ta a falar da regiao! o sr. so falou besteira nessa sua entrevista. falaste que LUIS CABRAL é cabo-verdiano, e AMILCAR CABARAL ? tu mesmo ISAC MONTEIRO es guineense? falaste tambem do ANTONIO NDJAI como a pessoa que quer parar com o trafico de droga na guine-bissau, faço te saber que hoje o ANTONIO NDJAI é o MAIOR impotador de droga na guine bissau com a sua pista na zona de mansoa passes a saber isso. nao vou alongar mais mas que ficas a sabar que nao percebeste nada do nosso país talvez de cabo-verde ou de angola.

  2. TUDO bem claro e correcto.muito obrigada Dr

  3. Fidju Matchu diz:

    Não vale a pena perder tempo com o ISAC MONTEIRO, porque dá Guiné-Bissau ele é sobejamente ignorante; mas para lambujar para postos ministeriais e desperdícios do erário da Guiné-Bissau ele está na linha de frente. Será que ele sabe onde fica a Guiné-Bissau no mapa? quantas regiões tem? a superficie em Km2? das etnias? Duvido bastante. Se for para quantificar os postos ministeriais para ele ocupar, ai sim ele é um douto.

  4. Munditica diz:

    Quando os intelectuais falam os analfabetos metem sempre a boca e nada dizem a não ser baboseiras, por isso está o país como está, um curral de porcos. Quem sabe constrói e os burros destrõem, sempre foi assim. A ignorância predomina.

  5. Nhantida diz:

    O Issac Monteiro, antes de falar da Guiné-Bissau devia era tratar da sua barba que parece mato-forroba, né?

  6. Nhantida diz:

    O Issac Monteiro, antes de falar da Guiné-Bissau devia era tratar da sua barba que parece mato-forroba, né?

    Se calhar pensa que isto lhe lhe confere o estatuto de intelectual maior, héhéhé. O homem diz que trabalha há oito anos como Consul geral e não recebe, e vive de quê Sr. Issac?

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