ONU: Discurso do Presidente da República de Transição, Manuel Serifo Nhamadjo, na 67ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas

**Este discurso nunca chegou de ser proferido**

PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE TRANSIÇÃO DA GUINÉ-BISSAU, MANUEL SERIFO NHAMAJO

Senhor Presidente da Assembleia Geral,

Senhor Secretário Geral,

Senhores Vice-Presidentes, Excelências,                                                                                    Minhas Senhoras e Meus Senhores,

É uma grande honra e um privilégio para mim, dirigir-me, pela primeira vez, a esta Augusta Assembleia, desde que assumi, as funções de Presidente de Transição da Republica da Guiné-Bissau, decorrente de um Pacto de Transição, emanado das forças vivas da nação,designadamente partidos políticos legalizados com ou sem assento parlamentar, e organizações da sociedade civil, em maio ultimo, em consequência da crise política que assolou o Pais no dia 12 de Abril de 2012 .

Permitam-me, antes de mais, endereçar as minhas fraternas felicitações a Sua Excelência Senhor Vuk JEREMIC, Presidente da Assembleia Geral, pela sua eleição a presidência desta 67a (sexagésima sétima) sessão ordinária. Gostaria enfim, de prestar uma homenagem particular ao Secretario Geral das Nações Unidas, Sua Excelência Senhor  Ban KI-MOON, pelos esforços apreciáveis consentidos e que continuamente vem empreendendo para que a ONU, a nossa organização realize, melhor, os objectivos que lhe são cometidos, num mundo cada vez mais marcado por crises de toda a natureza: crise política, económica, social e outras.

Senhor Presidente, Excelências, Minhas Senhoras e Meus Senhores;

Esta 67ª Sessão da nossa Assembleia, decorre num momento em que a humanidade atravessa, um dos seus mais difíceis períodos. Com efeito, a paz, este bem comum, o mais precioso no mundo, nunca esteve tão ameaçadacomohoje. Ela está ameaçada em todos os continentes, nas nossas regiões e sub-regiões,comotambém em cada um dos nossos próprios Países.

Ela é ameaçada por crises político-militares, as enfermidades e catástrofes naturais!Igualmente confronta -se com as ameaças da degradação das condições de vida das populações, o desemprego, a precariedade e em suma, a pobreza.Os focos de tensões nas diferentes paragens da África, particularmente,as crises políticas na Guiné-Bissau e no Mali para só citar as mais recentes,as revoluções que degeneraram em conflitos armados abertos, nomeadamente no Médio Oriente, provocaram e continuam a provocar muitas vítimas.

Por estas razões gostaríamos, de lançar a esta Augusta Assembleia o apelo de solidariedade para com o povo da Guiné-Bissau, seguindo o exemplo edificante da CEDEAO. A promoção do diálogo numa base construtiva, de não confrontação, nao politizada, nao selectiva, cooperativa, justa e equilibrada, com objectividade, respeito pela diversidade cultural, soberania,  integridade territorial e não ingerência nos assuntos internos, tendo em conta as particularidades política, social, religiosa e cultural de cada Pais , é o desafio que se apresenta a comunidade internacional, em primeira linha as Nacoes Unidas, cuja missão fundamental é a luta pela paz à escala planetária. Os nossos países, sofrem de muitas doenças que vitimam um número crescente de vidas humanas, e que tem como consequência o subdesenvolvimento que produz, a injustiça social, a corrupção, a instabilidade política e institucional que não raras vezes degeneram em conflitos, como os do 12 de Abril último no meu País,os quais lamentamos,e que constituem um exemplo paradigmático.

Senhor Presidente, Para responder aos objectivos do milénio para o desenvolvimento e tendo em vista a meta 2015, a Guiné-Bissau como a maioria dos Países do terceiro Mundo, nao poderá responder ao mesmo, devido aos factos acima mencionados, no entanto em relação a redução da pobreza, o Pais dispõe de uma estratégia nacional para o seu combate, cuja implementação esta sendo apoiada pelos nossos parceiros, multi e bilaterais. Sobre o ensino primário universal para todos, neste momento todos os esforços do Pais neste sector estão concentrados para uma cobertura nacional do mesmo.Dispomos de uma política nacional para a igualdade e equidade de género, cujo acento tónico é assegurar a autonomização das mulheres como condição sine qua non para uma participação de todos no processo do desenvolvimento sustentável do Pais.

No âmbito da redução da mortalidade das crianças, assim como da melhoria da saúde materna e o combate a VIH SIDA, a malária e outras doenças graves, programas concretos com resultados satisfatórios estão sendo implementados.

No quadro ambiental o pais assumiu os compromissos  para responder aos resultados da Conferência RIO + 20.

O problema da Educação, da falta de infra-estruturas de base, da energia, e da água potável ameaçam igualmente a estabilidade, a paz, a segurança na Guiné-Bissau, como noutros países frágeis. Sem referir a crise financeira que afecta os nossos Países africanos caracterizados por uma grande dependência das ajudas externas. Reitero aqui um vibrante apelo a comunidade internacional para que reforce o seu papel, na procura urgente de soluções duráveis para o meu País, abstendo-se de atitudes de hostilidades, ostracismo e de incitação à confrontação, que infelizmente, certas organizações, Países, nossos parceiros tradicionais, têm adoptado face à nossa recente crise.

É nossa firme convicção de que para uma coexistênciapacificae harmonia nesta sociedade global, tem que se respeitar a diversidade de opiniões e evitar a tentativa de imposições de valores a outrem.

Senhor Presidente,

Excelências, Minhas Senhoras e Meus Senhores, Com efeito, combatendo em conjunto, a pobreza, cuja causa central radica na corrupção, é que conseguiremos proteger as nossas populações, assegurar a boa governação e o estado de direito democrático. Para tal, impõe-se uma atenção particular a Educação, para combater o flagelo de desemprego que afecta a juventude, e assim promover o desenvolvimento, factor essencial da paz e estabilidade.

Assim ao promovermos a cultura democrática e o Estado de direito, os nossos países evoluirão inexorávelmente na senda da paz e de estabilidade, condição sine qua non, para um desenvolvimento sustentável.

Neste mundo em crise, a Guiné-Bissau, nesta última década, tem sido assolada por convulsões políticas que afectaram grandemente a sua imagem e em consequência, o seu desenvolvimento. Apesar disso, a sua aspiração à democracia e à boa governação, é irreversível, na condição que o combate contra a pobreza, a impunidade, a corrupção, o nepotismo, conflito de interesses e promiscuidade entre negócios particulares e assuntos de Estado seja, erigido em credo do Estado e da classe dirigente.

Por isso preconizamos a luta sem quartel ao tráfico de droga, o branqueamento de capitais e o terrorismo.Nós nos empenhamos árduamente e com firmeza no combate a estes flagelos, mas necessitamos de apoio substancial da comunidade internacional.

Senhor Presidente,

As questões por resolver por vezes há décadas, nomeadamente a exclusão da maioria, a ausência de transparência dos assuntos públicos, continuam a ser fontes de conflitos, susceptíveis de perigar a paz e a segurança no caso da Guiné-Bissau.

Assim,em Maio deste ano,no inicio deste período de transição e apesar do seu limitadíssimo prazo,assumimos a promessa de encetar um processo eleitoral que já  iniciou e que imperativamente tem de ser baseado numa credenciação de cidadãos guineenses, por forma a entregar no final deste período de transição, o poder às forças políticas resultantes dumas eleições que queremos ser livres, justas, transparentes e credíveis.

A este propósito, podemos aqui afirmar que passos seguros estão sendo dados, através do concerto consensual entre os principais intervenientes no processo eleitoral:

– foram criados mecanismos periódicos de seguimento;

– estabeleceu-se o cronograma consensual de actividades a ser levado a cabo no decorrer de todo o processo, o que permite avaliar os avanços obtidos;

– reiniciaram-se,no passado dia 16 de Agosto, os trabalhos de finalização e revisão da cartografia eleitoral nas Regiões de Cacheu, Biombo e no Sector autónomo deBissau, através de esforço financeiro interno;

– encontra-se em fase avançada, o processo de elaboração dos termos de referência para concurso e para a avaliação das empresas candidatas à realização de recenseamento biométrico eleitoral que contemple também a diáspora guineense.

A crise política que atravessa a Guiné Bissau , para a saída da qual, modestamente, estamos a trabalhar com o apreciável apoio dos nossos irmãos africanos, sob a égide da nossa organização sub-regional a CEDEAO, merece a atenção de toda a comunidade internacional, num espírito construtivo e realista, em favor da paz, no interesse supremo do povo da Guiné-Bissau.

Este povo que precisa de uma verdadeira reconciliação, de se reencontrar consigo próprio. É meu dever enquanto Presidente da República de Transição, contribuir para que todos os guineenses continuem a viver juntos e em harmonia, sem distinção de raças, de etnias, de proveniência social ou de convicções ideologicas. No barco da conciliação no meu País, estou e tudo farei para embarcar nele, todos os guineenses sem excepção. Desde a primeira hora, falei da necessidade de inclusão e, podem crer que não pouparei esforços para a união de todos os Guineenses.

É movido por essas convicções que estendi as mãos aos nossos irmãos do PAIGC, para que se juntem a nós nesse esforço gigantesco de reconciliação, para formarmos um bloco, por forma a levarmos avante os compromissos para o período de transição, dos quais cabe realçar o mais relevante, a par da luta contra a impunidade, a conclusão dos inquéritos sobre as mortes do Presidente João Bernardo Vieira, do Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas General Tagme Na Waie, dos deputados e candidato ἁs eleições presidenciais, a auditoria internacional e independente as contas do Estado e a Comissão Nacional de Eleições, cujos termos de referencia já foram elaborados, e o mais expectante para toda a sociedade guineense, que é justamente, a realização das próximas eleições Gerais com base no recenseamento eleitoral biométrico.

Senhor Presidente,

Minhas Senhoras,Meus Senhores,

Prestamos, a partir desta tribuna uma vibrante homenagem e reconhecimento do povo da Guine-Bissau ἁ CEDEAO e em especial ao seu Presidente em Exercício DOUTOR  ALLASSANE  DRAMANE  OUATARA Presidente da República de Côte d´Ivoire, que não tem poupado esforços na procura de soluções viáveis, justas e realistas para as crises na Guiné-Bissau e Mali. Os esforços actualmente empreendidos pelo Governo de Transição, com o apoio da CEDEAO, reclamam,  a assistência multiforme da comunidade internacional.

Senhor Presidente, É nossa firme convicção de que, é necessária a reforma da Organização das Nações Unidas incluindo a reforma do Conselho de Segurança para poder reflectir correctamente as realidades do mundo actual. E igualmente preciso revitalizar os trabalhos da Assembleia Geral sobretudo na área da paz e segurança internacional

Reafirmamos o nosso apoio inequívoco ao principio da restauração do direito inaleanavel do Povo Palestiniano à  autodeterminação e a criação de um Estado Palestiniano viável e independente.

E imperativo o desarmamento nuclear global e a conclusão de uma Convenção compreensiva para esse efeito.

Paraterminar a minha intervenção, gostaria de agradecer a todos os países amigos e algumas organizações internacionais, Regionais e sub-regionais, que a despeito das adversidades, não deixaram de nos prestar o seu apoio multiforme. Penso na União Africana , no BOAD (Banco Oeste Africano de Desenvolvimento),  na UEMOA, no relance do desenvolvimento sócio económico do nosso Pais.

Agradeço igualmente,comoprova de profundo reconhecimento, a Administração Americana pelas boas disposições encetadas para tornar agradável a nossa estada neste grande e lindo Pais.

Muito Obrigado.

3 Responses to ONU: Discurso do Presidente da República de Transição, Manuel Serifo Nhamadjo, na 67ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas

  1. Caros com patriotas mais um motivo para desmotivar a Guine Bissau nao vai tomar parte na reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que este ano terá lugar em Tokyo, Japão nos meados de outubro…a Guiné-Bissau não foi convidada. Meus caros: a verdadeira morte de Amilcar Cabral aconteceu de facto em… Nova Iorque, na semana passada.

    NOTA: A Guiné-Bissau, depois da 67ª Assembleia Geral da ONU, ficou (ainda) mais isolada – política e economicamente.

  2. Carlos Butiam Có diz:

    De facto é uma pena, mas se notarmos bem, poderiamos começar a reconstruir a nossa guiné deixando de lado as confianças nas comunidades internacionais. O caso de quem discursaria na passada Assembleia geral ONU, de facto é um caso alarmante, também a ONU tem a sua quota parte neste complo, porque após ter consumado golpe de estado de 12 de abril, poderia reagir o relatório da mediação de CEDEAO, isto não foi caso… a rzão parte de pressuposte em ONU aplicar a jurisprudência ao famoso caso de Guiné-Bissau.

    Cabral já morreu e, nunca ressicitaria para voltar a morrer em New York, desculpe se eu estiver a ofender o comentário de quem tenha dito que a verdadeira morte de Cabral terá sido nesta Assembleia. Mas temos que pensar e repensar o caso da Guiné, só assim estaremos firmes em responder as espectativas de que todos nós queremos.

  3. Otta Carlitos Indami diz:

    os problemas da Guiné ainda nao foram descobertos ou já foram, mas, há ignorancia em resolvé-los.Todos nos sabemos que há um problema étnico no nosso país,a etnia maioritária sente-se umilhada pela a menoria.E Deus abençuou esta etnia poderosamente que jamais poderá ser derrotada. Os Guineenses devem respeitar e amar um ao outro principalmente respeitar os Balatas. Por outro lado, temos o principal problema, que é o problema Espiritual. Os Guineeses mais se apostam nos muros, balobeiros e jabacosses em vez de apostarem em temer o todo poderoso DEUS VIVO PARA SEMPRE e em seu filho JESUS CRISTO. Estas sao os problemas principais.

Responder a Dundo Sambu Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.