Opinião: África Subsariana continua a registar crescimento vigoroso, mas há desafios

Antoinette M. Sayeh, Directora, Departamento de África, FMI

Por Antoinette M. Sayeh, Directora, Departamento de África, FMI

A economia mundial enfrenta muitas incertezas, e as perspectivas de crescimento continuam frágeis. Contudo, o desempenho de África Subsariana ainda é vigoroso, com a expectativa de crescimento económico superior a cinco por cento em 2012 e 2013. Este poder de resistência já estava em evidência em 2008-09, quando a economia mundial sofreu a sua mais grave recessão desde à década de 1930, enquanto os países de baixo rendimento tiveram desempenho muito melhor do que em episódios anteriores de retracção mundial. A ampla margem de manobra da política económica – fruto de uma década de aplicação de políticas prudentes, bem como do alívio generalizado da dívida – possibilitou a muitos países adoptar respostas contracíclicas à crise, ao permitir o alargamento dos défices orçamentais. Isto ajudou a proteger os gastos fundamentais: a maioria dos países conseguiu elevar os gastos com infra-estruturas, saúde e educação. O crescimento vigoroso nos mercados emergentes e a expansão dos parceiros comerciais de muitos países da África Subsariana também contribuíram para moderar o impacto da recessão sofrida pelos países parceiros tradicionais.

Será que África continuará a se mostrar resistente? A economia mundial tem enormes desafios pela frente. A zona euro está sujeita a tensões orçamentais e financeiras, os Estados Unidos enfrentam o risco de um forte aperto orçamental e, mesmo nos países emergentes, como a China, verifica-se um abrandamento do crescimento. Segundo as estimativas do FMI, uma desaceleração global e sustentada de 2 pontos percentuais do PIB produziria uma redução de um ponto percentual por ano no crescimento de África Subsariana. Para além disso, os países subsarianos continuam a enfrentar dificuldades internas. A seca ainda representa um factor de risco para muitos países, com possíveis consequências negativas para os preços dos alimentos. O recente agravamento das tensões em matéria de segurança na África Ocidental também contribui para os riscos económicos. Os riscos em matéria de segurança são críticos, pois não apenas desestabilizam a actividade económica da região afectada como também se alastram para os países vizinhos.

A região será capaz de vencer estes desafios com políticas prudentes

O êxito na gestão da crise de 2008–09 teve um custo. Os níveis de endividamento eram baixos, mas subiram desde então, embora a um ritmo moderado. Os défices também alargaram. Muitos países conservaram alguma margem para aplicar respostas flexíveis aos choques e devem utilizá-la, sempre que possível. Mas é evidente que a margem de manobra diminuiu. E as fontes de financiamento talvez já não sejam tão abundantes. A ajuda financeira ao desenvolvimento está ameaçada pelo aperto orçamental nas economias avançadas. O financiamento de mercado, que está ao alcance de mais e mais economias africanas, também pode sofrer uma interrupção abrupta caso o mundo de facto sofra uma forte retracção.

Por conseguinte, a prudência recomendaria que, caso o crescimento se mantenha, deve-se reconstituir a margem de manobra orçamental, para fazer face a estes novos riscos. Há diversas opções para tal. Por exemplo, muitos países concedem dispendiosos subsídios ao sector energético (equivalentes, em média, a 4 por cento do PIB subsariano). Estes subsídios não apenas têm um custo elevado, pois marginalizam a despesa pública em infra-estruturas, saúde ou educação, mas também são ineficientes, pois asfixiam o crescimento ao criar desincentivos à manutenção e ao investimento na geração de energia, que é fundamental para o crescimento futuro de África. Muitos países também têm condições de mobilizar mais receitas, especialmente no sector de recursos naturais.

Desempenho económico na Guiné-Bissau

A Guiné-Bissau, após ter registado um forte crescimento económico em 2011 (5,3 porcento do PIB), devido a exportações robustas de castanha de caju, enfrenta uma contracção da actividade económica em 2012. Desenvolvimentos externos desfavoráveis nos mercados internacionais da castanha de caju, agravados por uma deterioração nas condições internas na sequência dos acontecimentos políticos de Abril deste ano, afectaram negativamente o desempenho económico e conduziram a uma situação fiscal muito apertada. Daqui para a frente, a normalização das exportações da castanha de caju deveria facilitar a recuperação da actividade económica.

As perspectivas de crescimento de África a longo prazo continuam positivas

É possível que a economia mundial enfrente um período prolongado de incerteza e fragilidade. Mas as perspectivas de crescimento de África a longo prazo continuam positivas. Muitos países estão a desfrutar de um período prolongado de crescimento vigoroso, em alguns casos chegando mesmo a superar o desempenho dos Tigres Asiáticos nas suas duas primeiras décadas. O investimento está em ascensão, elevando o potencial económico futuro. E as novas descobertas de recursos naturais, combinadas com os ainda elevados preços dos produtos de base, geram novas oportunidades de crescimento. A chave é saber tirar proveito destas oportunidades. Estudos recentes do FMI mostram que a transformação económica, em que o rápido crescimento da produtividade agrícola permite a deslocação de recursos humanos para a indústria de transformação em desenvolvimento, é muito mais lenta na África do que foi na Ásia. E, em muitos países africanos, o predomínio das indústrias extractivas, que amiúde geram menos empregos que a indústria de base, significa que o crescimento alcançado foi menos inclusivo do que seria desejável. São estes os principais desafios que precisam ser vencidos. O desenvolvimento das infra-estruturas terá importantes repercussões positivas, também para o sector agrícola; os investimentos em educação e saúde irão desenvolver o capital humano necessário para utilizar em pleno a jovem força de trabalho africana; a aceleração da integração regional criará mercados maiores, com economias de escala para os investidores; e a melhoria do ambiente de negócios atrairá capital e investimento estrangeiro, de modo a reduzir progressivamente a dependência em relação à ajuda. Nenhum destes avanços ocorrerá automaticamente. Mas políticas vigorosas, como as que temos visto com mais assiduidade em todo o continente, continuarão a ser um poderoso motor da transformação.

 

**Nota do Editor: as opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade de cada autor e não reflectem necessariamente a linha editorial da GBissau.com

 

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