Crónica: “O que me contaram, o que vi e o que acho sobre o naufrágio”

Mussá Baldé, Jornalista

Por Mussá Baldé, Jornalista

Que a piroga, uma grande embarcação pertencente a um tal de Lamine, cidadão da Gâmbia, mas residente em Bolama há muitos anos e suposto conhecedor das manhas dos mares da Guiné-Bissau, tem a capacidade para transportar 18 toneladas entre cargas e passageiros. Mas, na sexta-feira fatídica, a piroga teria carregada pelo menos três toneladas a mais, isto é, em vez de trazer de Bolama para Bissau as 75/80 pessoas, conforme previa a lei, terá trazido entre 150 a 200 pessoas.

Oficialmente a capitania dos Portos de Bolama registou 107 passageiros como sendo aqueles que efectivamente compraram o bilhete de passagem, mas os náufragos, sobreviventes, contaram-me que a canoa trazia cerca de 200 pessoas, entre as quais muitas crianças. Muita gente vinha na cobertura da piroga, uma espécie de tejadilho, para tapar o sol e seriam estes, cerca de 50 pessoas, com carga, que terão precipitado a tragédia.

A equipa da Televisão da Guiné-Bissauque se encontrava em Bolama em reportagem de Natal ainda filmou a canoa quando vinha a sair do porto daquela ilha. O repórter de imagem, num gesto de jornalismo sagaz, ainda perguntou aos viajantes quantas pessoas é que iam na piroga. Uns diziam, na brincadeira, somos nove, outros diziam que seriam 30, por aí fora. Eram jovens sobretudo que mal sabiam que aquela viagem era fatídica e para muitos deles a última.

A piroga, contaram-me, até continha as salva-vidas comomanda a lei guineense, mas acontece que os passageiros teriam-se recusado vestir esses equipamentos sob o pretexto de estarem sujos. Foi o que me contaram!

Conta-se que alguém ainda tentou demover o capitão da piroga a diminuir os passageiros, mas, quiçá, na ânsia de ganhar dinheiro, não
deu ouvidos. Também me disseram que a piroga, que já na semana passada já tinha tido um problema de furo por onde entrava água, estava visivelmente com peso a mais.

Contaram-me também que o capitão, ao sair de Bolama, viu logo que a piroga estava a meter água ao que contactou com a capitania dos Portos de Bissau, a Marinha de Guerra Nacional e ainda pessoas singulares. Alguns passageiros ainda contactaram com os seus familiares, por telemóvel, em Bissauavisando-lhes que a piroga estava a meter água. Diz-se que o socorro não terá ido rapidamente porque ficou-se naquela de se saber quem iria pagar o gasóleo que iria ser utilizado nas pirogas que poderiam fazer-se ao mar. Esta informação vale o que vale, pois não pude, apesar de todas as tentativas, confirma-la junto das autoridades.

O triste disto tudo é que várias pessoas, contactadas pelos familiares que vinham na piroga, deslocaram-se até à zona do porto de Bandim, de onde puderam ver o naufrágio sem nada conseguirem fazer para salvar os seus entes queridos.

Quem assistiu ao vivo e a cores ao naufrágio contou-me que foi um espectáculo deprimente e horrível. Que os náufragos gritavam pedindo socorro, ao que os seus familiares, em terra não podiam fazer nada!

Dois elementos da ONG portuguesa AMI que se seguiam ao bordo, contaram aos jornalistas que quando se aperceberam que a piroga ia afundar, saltaram para a água e como sabiam nadar, puseram-se ao mar e mais tarde foram socorridos pela equipa de resgate.

Outros náufragos que estavam a ser assistidos ontem no Simão Mendes disseram-me que a piroga foi ao fundo, tendo se partido ao meio, justamente quando os passageiros que vinham no cimo da cobertura se aperceberam que a canoa estava a meter água e no movimento brusco para verificarem o que se passava cá em baixo, provocaram o pânico e, acto subsequente, a cobertura quebrou e, com força do impacto da queda, a piroga foi abaixo.

Uma rádio deBissau ainda chegou a anunciar a iminência da tragédia a partir dos contactos que foi tendo com os passageiros.

Minutos depois do anúncio da tragédia, o hospital Simão Mendes foi literalmente invadido de gente. Mulheres grandes, com os seus lenços, choravam e gritavam, homens muçulmanos rezavam, dizendo versículos do Corão, pânico, confusão no hospital, a morgue era invadida por familiares que queriam ver com os seus próprios olhos.

Cadáveres, 22 num primeiro momento e mais tarde, 24 pessoas, deitadas, em fila.

Os sobreviventes, 74, envoltos em panos térmicos, eram assistidos pelo pessoal médico, constituído por guineenses, cubanos e elementos da ONG portuguesa “Afectos com Letras”. Ainda vi o anterior e o actual ministro da Saúde, Camilo Simões Pereira e Agostinho Cá, no labor de tentar salvar vidas.

Hoje, sábado, 29 de Dezembro, fui ao Simão Mendes, disseram-me que das 74 pessoas sobreviventes, levadas ao hospital, apenas uma ainda se encontra em cuidados intensivos, as restantes foram tratadas e foram para casa.

O Governo deu ordens para serem iniciadas operações de busca dos corpos. Já não se admitem sobreviventes passadas que estão 24 horas após o acidente. Um barco levou os cadáveres de pessoas que eram de Bolama.

Há muita tristeza, mormente na morgue do Simão Mendes onde várias pessoas ainda aguardam por notícias dos seus entes queridos.
I Pena nha djintis. Na djustanda li. Nha mantenhas de tchur! (é muita pena, minha gente. Fico por aqui. Meus cumprimentos fúnebres).

4 Responses to Crónica: “O que me contaram, o que vi e o que acho sobre o naufrágio”

  1. é muito triste.agora so basta sofrer ja aconteceu naao pode voltar para traz.

  2. Demba Balde diz:

    quero endreçar os meus irmaos de bolama as minhas condolencia que as suas almas descaçe em paz.
    Há muito tempo que as autoridades devem tomar medidas, nao é decretar luto nacional é que vai fazer voltar este dezenas de vidas humanas,
    Qualquer piroga para deslocar deve ser verificado por agente de captanea se está em condiçao para deslocar e dar aval de saida, apartir deste momento a responsabilidade de excesso de carga passa directamente para o responsavel de captanea colocado em Bolam.
    Mas tambe as vezes propruios passageiros nao aceita usar aquele salvavidas , porque sao sujo, por outro lado estes capitaes de pirogas sao indisciplinados, regeita opinioes dos passageiros, tres pessoa da minha que vinham passar festa, afirmaram que este situaçao começou ao sair de Bolama, eles pediram o capitao de piroga para encostar e recusou e disse vamos chegar. Sabemos que os funcionario de piroga todos estao detidos, mas deve ainda deter o responsavel dos portos colocado em Bolama.
    Piroga Nao é Para Viajar, mas, sim para pescas artesenais, barco que é para viagens.
    Eu viajei varias veses, mas queles salvavidas nao e bem tratado para uma pessoa usar, é sujo e tem mao cheiro, se nao usares onde é que esta a segurança deste passageiros.
    na administraçao autridade nunca deve ficar mais de um ano num posto deste, em vez de servir o povo, vai fazer o contrario, devido amizade com populares residente e depois alguns favores ou suborno e onde dignidade deste funcionario.

  3. Nilton Arlete da Costa diz:

    É triste, já aconteceu antes foi triste e infelizmente voltará a acontecer, porque nada vamos fazer para evitar.
    Minhas condolências aos familiares e amigos das pessoas quê perderam a vida nesse acidente quê ninguém tentou evitar.
    Todos nós podemos evitar alguns acidentes, cresci a ouvir quê a tentar ganhar um minuto na vida, podemos perder a vida num minuto, quem fala num minuto fala num dia, numa semana ou mês.
    para finalizar um muito obrigado a Grossas pela forma responsável como mantém informado todos os quê abrem essa página, nesse momento para o bem do nosso país não precisamos de CLAKERUS MAS SIM DE UMA INFORMAÇÃO ISENTA, COERENTE, OBJECTIVA, E RESPONSÁVEL, eu sei quê o Maisá tem em mente tudo isso quando escreve e quando fala.

  4. Mário Henrique diz:

    Meus pesâmes as familias enlutadas e muito obrigado Mussá Baldé pelo o seu artículo.

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