Opinião: A propósito do que se escreve e lê sobre o assassinato de Amílcar Cabral: algumas questões a José Pedro Castanheira

Por: Ricardino Jacinto Dumas Teixeira

 

É agradável perceber que o tema do assassinato de Amílcar Cabral não abandonou o campo das reflexões e de estudos acerca dos verdadeiros assassinos do líder fundador da nacionalidade guineense e cabo-verdiana sob o comando do PAIGC, não obstante as tentativas de “homogeneização” de um “pensamento único” projetado ideologicamente para Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal e para o resto do mundo.

É também agradável perceber que a “nova geração”, sem relações diretas com os protagonistas da colonização e da luta para a descolonização, estão a desenvolver estudos teóricos e empíricos sobre a obra e a vida de Amílcar Cabral em torno do projeto político da “unidade” Guiné e Cabo Verde, que foi o princípio e a força do PAIGC projetado em parceria com apoio da África, da Europa progressista e do Mundo.

Não podemos deixar de registrar a importância que a obra de José Pedro Castanheira “Quem mandou Matar Amílcar Cabral” (1995) teve em África e mantém viva entre nós a memória de Amílcar Cabral demonstrando que o seu pensamento político-social, cultural-econômico continua presente nos meios acadêmicos da África e do mundo.

É importante registrar que muito antes da obra de José Pedro Castanheira, outros autores como Oleg Ignatiev publicou a obra “Amílcar Cabral – Filho da África” (1975), Basil Davidson (1975), entre outros investigadores estrangeiros já haviam debruçado sobre a temática cujas conclusões são sobejamente conhecidos e divulgados em livros.

Recentemente, outras publicações nessa linha de preocupação recuperaram o debate. Convêm referir-se, nesse sentido, ao livro de Julião de Sousa sobre a “Vida e Morte de um Revolucionário Africano entre 1924-1973” (2011) e ao livro de Leopoldo Amado sobre a “Guerra Colonial & Guerra de Libertação Nacional entre 1950-1974” (2011).

As explicações formuladas orientam-se, direta ou indiretamente, para as estratégias e táticas politicas aplicadas pelo General Spínola com a cumplicidade dos elementos guineenses e cabo-verdianos do PAIGC que culminou no assassinato de Amílcar Cabral.

Nos meios políticos e acadêmicos de hoje, observam-se, por certo, divergências de visões e de pensamentos acerca do envolvimento do PAIGC e do regime colonial no assassinato de Cabral. Não me parece que os arquivos coloniais da PIDE e as entrevistas com os dirigentes cabo-verdianos são suficientes para sustentar a tese segundo a qual “não foi a “mão portuguesa” a mais determinante em toda a trama que desembocou no dia 20 de Janeiro de 1973”, ao insinuar-se que foram os dirigentes do PAIGC, mais guineenses do que cabo-verdianos, que assassinaram Amílcar Cabral.

Não obstante, entre próprios dirigentes cabo-verdianos existe uma diversidade de opiniões, de visões e de entendimentos sobre o próprio envolvimento da ala cabo-verdiana do PAIGC. A entrevista sobre assassinato de Amílcar Cabral dado pelo ex-dirigente luso-caboverdiano Luís Cabral, meio irmão de Amílcar Cabral, nascido em Bissau, relativiza categoricamente a tese oficiosa. Na visão de Luís de Almeida Cabral:

“A morte de Amílcar Cabral é um fato nebuloso na medida em que nunca se fez uma análise para situar as responsabilidades que vão além do indivíduo que deu tiro. Faltou uma análise profunda para situar as responsabilidades” (Luís Cabra, Voz do Povo, 13 de junho de 1991, p. 5 e 6).

É uma versão de quem iniciou a sua trajetória de militância política desde o início da fundação do partido [PAIGC] e contava com o apoio do irmão com a indicação para o Comitê Executivo de Luta e participava ativamente nas disputas políticas para controle de cargos chaves de direção no partido, tanto na Guiné-Bissau como em Cabo Verde. Nesta entrevista, conduzida por José Vicente Lopes, por ocasião da primeira visita pós-independência de Luís Cabral a Cabo Verde, Luís Cabral vai mais longe, ao afirmar que:

“depois da morte do Amílcar Cabral, estou entre os indivíduos que lideraram o processo para que Aristides Pereira assumisse as funções de Secretário do PAIGC. Mesmo em Cabo Verde, fui um indivíduo que defendeu que ele devia ser o presidente de Cabo Verde, para que o partido tivesse a mesma força que tinha na Guiné. Isso foi num momento que eu tinha um determinado conceito de Aristides Pereira. Isto porque a imagem que eu tinha dele, não é a mesma que eu tenho hoje. Portanto, que ele se defenda das acusações que lhes são feitas”.

Entrevista conduzida pelo jornalista cabo-verdiano José Vicente Lopes, por ocasião da primeira visita pós-independência de Luís Cabral a Cabo Verde. (Luís Cabral, Voz do Povo, 13 de junho de 1991, p. 5 e 6).

Esse depoimento de Luís Cabral, primeiro presidente da República da Guiné-Bissau pós-independência, está disponível no arquivo da Biblioteca Nacional de Cabo Verde, propositalmente excluído nas publicações sobre a morte de Amílcar Cabral, quer em Cabo Verde, quer na Guiné-Bissau e em Portugal. As questões que eu gostava de colocar a José Pedro Castanheiras são as seguintes: as observações de Luís Cabral não tem importância como fonte documental sobre o assassinato de Amílcar Cabral? Até que ponto o ocultamento de fontes misturado com questões políticas não teriam precipitado as mesmas hipóteses forjadas que vem sendo reforçadas cada vez mais sobre a morte de Cabral? O livro “Cabo Verde – Os Bastidores da Independência, de autoria de José Vicente Lopes, jornalista cabo-verdiano que entrevistou Luís Cabral – coincide com a posição de José Pedro Castanheira. Quais foram as motivações que nortearam esse ocultamento? Será que as análises de guineenses, angolanos e cabo-verdianos disponíveis em arquivos da Fundação Mario Soares sobre Amílcar Cabral (documentos que pertencia a memória do PAIGC) ou disponíveis em outros espaços (Contributo, por exemplo), não são credíveis como contraponto para sua reflexão?

De uma posição recente do primeiro-ministro e dirigente do maior partido político em Cabo Verde (PAICV, no poder), José Maria Neves lança suspeita de envolvimento dos dirigentes cabo-verdianos do PAIGC no assassinato de Amílcar Cabral. Em seu discurso político proferido em Vila Nova, Cabo Verde, se evidencia que o assassinato de Cabral vai além de conflitos de poder entre dirigentes cabo-verdianos e guineenses do PAIGC.

“foram os intriguistas do PAIGC que assassinaram Amílcar Cabral por causa de sede de poder e da falta de respeito pelos valores democráticos. Essa gente que afirma continuadores de Cabral, chefe da sua segurança e dirigente do PAIGC que matou Amílcar Cabral” (NEVES, Expresso das Ilhas 2011).

O referido discurso público, que gerou constrangimento na copula dirigente do PAICV foi proferido durante a campanha eleitoral de 2011 para a presidência da pública em Cabo Verde. Nessa eleição, dois dirigentes do partido [PAICV] saíram candidatos, a saber: Aristides Lima, candidato independente apoiado pela “velha-guarda”, e Inocência Sousa, sustentado pela “nova geração” do PAICV, com apoio do primeiro-ministro. O depoimento do Primeiro-Ministro, José Maria Neves citado acima lança suspeita de envolvimento dos dirigentes cabo-verdianos do PAIGC no assassinato de Amílcar Cabral. Até que ponto o discurso de José Maria Neves não é relevante no processo de cruzamento de dados e informações no embate sobre os verdadeiros mandantes do assassinato de Amílcar Cabral, isto é, sobre a responsabilidade que teriam o chefe de sua segurança pessoal, por exemplo? Porque Aristides Pereira e Comandante Pedro Pires, outros altos dirigentes cabo-verdianos, não foram mortos pelos guineenses em Conacri, à semelhança do que aconteceu apenas com Amílcar Cabral? Todos não eram cabo-verdianos? Será que Amílcar Cabral era o mais odiado pelos guineenses? O fato de Cabral ter sido assassinado em Conacri e não no território guineense véspera da independência teria alguma importância para sua tese? Porque a morte de CABRAL teria que ser exatamente com a cumplicidade do presidente da Guiné, Ahmed Sékou Touré,num contexto político nacional e internacional extremamente desfavorável ao regime colonial?Seria uma forma de retaliação contra Ahmed Sékou Touré por ter apoiado a guerrilha na Guiné, em Angola e Moçambique?

Há que considerar, ainda, o critério para seleção de fontes que serviram de base para construção de “sentenças protocolares” de José Pedro Castanheira, entre outros.

Essa questão – além de colocar em debate a metodologia e a técnica de investigação adotada por Castanheira – ajuda atribuir uma certa credibilidade a escolha do objeto de estudo e a definição de temas, dos interlocutores sobre a morte de Amílcar Cabral baseado no trabalho de campo, análise documental e informações de textos escritos e orais. No percurso de construção do seu argumento, José Pedro Castanheira afirma:

“Fui o primeiro a consultar o arquivo da PIDE-DGS em Portugal, que tinha acabado de ser tornado público e fui o primeiro investigador a mergulhar na vastíssima documentação que a PIDE-DGS foi recolhendo sobre o PAIGC e sobre Amílcar Cabral” (Castanheira, entrevista G.Bissau. com, 2013).

Supõe-se assim que o arquivo colonial é o mais representativo e credível sobre a morte de Amílcar Cabral, bem como a história da luta de libertação de Guiné e Cabo Verde, conduzido pelo PAIGC, mas “narrada” na ótica politica-ideológica do “império derrotado” pelo PAIGC. Não se buscou outras fontes que não podiam ser ignoradas, ainda que se buscassem argumentos “unilaterais” para reforçar a tese. Desta forma, compreendo a explicação dada por Castanheira sobre a dificuldade que teve na coleta de dados juntos aos dirigentes do PAIGC, sobretudo com filhos “rebeldes” da Guiné:

“Altos quadros do PAIGC recusaram colaborar na investigação […] Houve três dificuldades grandes e uma delas ainda se mantém. A primeira, as reticências que encontrei quando tentei falar com dirigentes e responsáveis guineenses do PAIGC. Ao todo falei com mais de meia centenas de pessoas durante a minha investigação. Na Guiné, falei inclusivamente com o então presidente Nino Vieira, mas houve altos quadros do PAIGC guineense que se recusaram a falar comigo e não quiseram colaborar na minha investigação. Essa atitude foi absolutamente oposta por parte das autoridades cabo-verdianas” (Castanheira, entrevista G.Bissau. com, 2013.)

No tratamento das informações para transformá-las em dados que sustenta a tese, chegou-se a conclusão que a recusa dos dirigentes guineenses do PAIGC reforçaria a tese de Castanheira. Por outro lado, não sei se o argumento da indisponibilidade dos guineenses é uma amostra representativa suficiente para generalizar “que foram os guineenses principais responsáveis no assassinato de Amílcar Cabral”. Os testemunhos de caráter biográficos e os documentos disponíveis no Arquivo e Biblioteca Nacional de Cabo Verde não serviram? Os arquivos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Guiné-Bissau não são fontes credíveis? As visões dos combatentes humildes, militantes e simpatizantes históricos do PAIGC não ajudariam preencher a ausência dos quadros guineenses do PAIGC? Suas anotações como repórter na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, no Senegal e na Guiné-Conacri, na época, não revelaram nada de diferente na produção heurística agrupando as informações dos textos orais e escritos, bem como das observações e conversas nesses países? A entrevista concedida por Aristides Pereira ao “seu amigo José Vicente Lopes” – falando posteriormente “dele mesmo”, de sua história de um dirigente “pragmático” do PAIGC, assim como da morte de Amílcar Cabral é mais fidedigna e representativa da “população”? Que significado adquire, pois, nesse contexto, o depoimento de Luís Cabral e o comício de José Maria Neves? Qual é a visão dos guineenses? As publicações de Julião de Sousa e de Leopoldo Amado não são constitutivas do arquivo colonial da PIDE, fonte que serviu de base para sua “sentença protocolar”? Qual foi o seu critério de seleção? Como dizia Luís Cabral, “há muita coisa nebulosa envolvendo a morte de Amílcar Cabral”. Como quer que seja, “vamos continuar a investigar”, diria alguém.

 

 **Nota do Editor: as opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade de cada autor e não reflectem necessariamente a linha editorial da GBissau.com

 

 

3 Responses to Opinião: A propósito do que se escreve e lê sobre o assassinato de Amílcar Cabral: algumas questões a José Pedro Castanheira

  1. Raul Aleixo diz:

    Atencao sr articulista. O primeiro ministro de Cabo Verde, lanca suspeita , de resto sobejamente conhecidas, do envolvimento de dirigents do PAIGC no assassinato de Amilcar Cabral . Nao fala nem em guineenses nem em caboverdianos. O que diz e uma distorsao do que foi dito.

  2. Retornado diz:

    O assassinato de Amílcar foi a derrota política do PAIGC.

    Já o MPLA também saíu derrotado em Angola no campo político, (psico-social).

    Era fácil o colonizador convencer o povo colonizado (sobas, régulos e mulheres grandes) contra os movimentos.

    As armas e a política internacional, principalmente na Guiné é que fez capitular a resistência colonial.

    Salazar nunca modernizou o exército porque sabia que com armas não se vai a lado nenhum.

    Os regulados e sobados compreendiam Salazar e acreditavam na psico dos governadores de distrito em Angola e em Spínola na Guiné.

    O povo sabia muito bem o saco de gatos que eram os movimentos e que no fim sobrava para o povo.

    O povo (angolano, guineense e moçambicano) sentiram na pele o que previam e não puderam evitar.

  3. Armando Guebuza diz:

    Você não leu nem Julião Sousa e muito menos Leopoldo Amado. Está claro que não leu.

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