Opinião: A “Guinendade” como Ideologia Nacional

Fernando Teixeira

Por Fernando Teixeira

Temos que construir um Estado Novo na nossa terra, baseado na liberdade do nosso povo, na democracia, no trabalho para o progresso. Temos que construir a Consciência Nacional do nosso povo (…)  Amílcar Cabral

 

I

A Guiné não pode existir sem os Guineenses e nem os Guineenses sem a Guiné. Só este simples pressuposto é real, “certo” e “justo” em todas as nossas análises, escritos e conversas. Mas a sua “justeza” só se consubstancia na visão inconteste de que, como só há uma Guiné, também só pode haver um único “povo da Guiné”, independentemente das suas tribos, raças, ou misturas étnicas. A realização deste desígnio pressupõe, a longo prazo, um suicídio étnico, tribal e religioso em última instância, para por fim se construir a Nação. Quem afirma o contrário não é Patriota nem Nacionalista.

A “Guinendade” é o conceito “permanente”, “invisível”, “secular”, se quisermos, que esteve na base da gestação da nossa Nação e é anterior a “Luta” e “Independência”. É essa “Guinendade”, que conheceu a sua gestação nas míticas Geba e Cacheu desses tempos, já se teria tornado a “Ideologia Guineense”, com o seu conjunto de valores e crenças, que consolidados numa união de povos, seriam o imperativo da razão da nossa existência como Nação. E essa ideologia estaria sempre presente nos espíritos, independentemente da forma que o Estado Guineense contemporâneo viesse a assumir.

Mas infelizmente a “Guinendade” como “valor intrínseco” e imorredoiro para a cimentação da Nação foi combatida, pelos colonialistas Portugueses, e não só, como um nacionalismo retrógrado, de vistas curtas que não entendia que o “mundo português era formado diferentes nações debaixo da mesma bandeira”. E só nesse universo a Guiné poderia ter um futuro (pela sua pequenez nunca poderia ser uma nação independente). Para a nossa desgraça, muitos bons patriotas, isolados do mundo, sem uma liderança forte, acreditaram neste canto da Sereia. Então a “Guinendade” pura, livre, rebelde, amante do seu povo e da sua terra, dormiu durante muitos anos nos corações de Guineenses.

E os acontecimentos tomaram outros rumos. E anos mais tarde, o Estado que vai ser implantado depois da Libertação Nacional, fruto de uma ideologia dita “mais progressista” combateu de novo, sem piedade a Guinendade. Advogava erradamente o seu “suicídio” ou esquecimento numa fusão de doutrinas revolucionárias e mudança de mentalidades. E nessa nova concepção do mundo, a “Guinendade”, (nacionalismo “estreito”, segundo a visão dominante) não tinha lugar.

Mas como as forças da natureza a Guinendade, base da Nação Guineense é imorredoiro. Mas é necessário precisar que a construção de uma Nação não é um objectivo “finito” – mas é o objectivo primordial, o mais importante -, mas é um processo contínuo que não tem (e nem pode ter) um fim. Nesse sentido (e só nesse) a Nação não é um “fim em si”, é uma ponte, um caminho, a ser percorrido por nós, nossos filhos, netos e bisnetos, como o percorreram, no seu tempo, nossos bisavôs, avós e pais. Transforma-se e enriquece-se cada dia com as pegadas, boas e mas, grandes e pequenas, humildes ou orgulhosas, que cada um dos seus cidadãos vai deixando no solo pátrio.

II

Pois um conjunto de tribos vivendo num espaço geográfico não “faz” necessariamente “um povo”. E como “o tempo das tribos em África já passou” (tinha já passado há cinquenta anos atrás), segundo Amílcar Cabral, então ninguém com uma sólida formação, moderno, urbano e acima de tudo patriota, necessita de tribos “como tal”. Só necessitamos de povo, “como tal”. De outra forma, de que Pátria falamos? De Guiné/Estado-Nação falamos? Pois tudo o que escrevi até hoje no fundo pode ser resumido a isto. Aceito que resto até possa ser considerado “acessório” num certo entendimento. Pois aqui que reside a essência Guineense. E daqui é que temos de partir para criar este espírito por que tanto anseio nos Guineenses.

E ela que procuro quando vou esconjurar a alma dos nossos antepassados, de todas as etnias, indo esconjurar a minha própria alma e nessa simbiose procurar todos os filhos da terra para a reunião final. Pois para mim há um continuum permanente entre o passado e o presente que nenhum acontecimento político pode compartimentar. E é neste continuum que vive e viverá este espírito que é algo que no dia-a-dia da nossa existência parece que esta em nós, enquanto indivíduos, mas na verdade esta na superstrutura e não pertence a categorias individuais. É este espírito que é a trave mestra da Nação que quero construir.

Mas isso só seria possível se houvesse uma sedimentação do tecido nacional por um estado poderoso, que nunca será este, totalmente minado por espúrios e vis interesses partidários, de grupos e pessoais. Hoje temos um simulacro de Estado Nacional com os seus instrumentos de representação como um Presidente da Republica, uma Assembleia Nacional e um Governo. E na verdade para que serviria este imenso aparelho amorfo sobre o corpo da “nação que não existe”? Se não para apenas pagar salários de elementos desse mesmo corpo e repartir entre meia dúzia de apaniguados as ajudas estrangeiras e algumas receitas que o aparelho consegue abocanhar? Esquecendo que o Estado é apenas um instrumento para a realização do povo e não um fim em si. Não é o instrumento para a realização de si mesmo. De outro modo o Governo só serve para gerir a miséria e mais nada além dissso. Não é capaz de criar a riqueza nem melhorar ávida das pessoas.

Mas se a Nação é um caminho e não um fim, a “Consciência Nacional” – no nosso caso a nossa Guinendade – é um “objectivo” finito na mente dos povos. Pois só quando um povo tem “consciência de si” enquanto povo, ele o “é” de facto. Por isso a Consciência Nacional, para mim, é um “fim em si” que deve ser estimulado e interiorizado no nosso povo de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

De facto, a Consciência Nacional sob pode desenvolver e tornar-se parte de nós próprios com a destruição progressiva das amaras tribais. E sendo realista, sei que a Nação só pode ser construída em cima dos “cadáveres em decomposição” das tribos que hoje fazem parte do nosso mosaico nacional. E quando o curso da natureza humana é orientado por um Governo lúcido e clarividente, amparado num Estado forte os conflitos sócias se atenuam e o desenvolvimento natural e nacionalista das tribos é mais rápido e harmonioso

Na verdade, todas as Nações, neste mundo actual em que vivemos, que pretendem alcançar o desenvolvimento e o bem-estar dos seus cidadãos, têm de fomentar a educação, urbanizar-se e modernizar-se. E isso só pode ser sustentado e sustentável se alicerçado num estado forte e centralizado, fruto de Unidade Nacional dos seus cidadãos que tem que ser conseguido a todo o custo. Não menos importante, deve substituir ou suprimir as formas tradicionais de organização social, como as tribos, etnias, classes ou seitas diversas, por formas economicamente racionais, baseadas funcionalidade e na eficiência.

O tempo muito curto da nossa existência como País independente não permitiu a criação de um verdadeiroEstado/Nação alicerçado numa Cultura Comum, consubstanciada em língua e valores identitáriospartilhados por todos nós. Valores que são as pedras angulares para a formação de uma Nação. Esses valores geralmente estão na consciência colectiva de um povo, antes de se transformarem em símbolos máximos de identificação como a Bandeira, o Hino e o próprio Nome do País.

Devíamos ter sido em primeiro lugar uma “Entidade Cultural” unívoca, dada pelas tradições, as línguas nativas, crioula e portuguesa. Pela miscigenação e prática educacional já nos inícios do século passado. Portanto, antes de ser um Estado/Nação, a Guiné, devia reconhecer-se numa Cultura Comum, que iria buscar a sua legitimação no sentido de pertença a uma comunidade, com um conjunto de “crenças, valores e aspirações comuns.

O valor “Cultura Comum”no nosso caso, devia anteceder (histórico e socialmente) ao valor “Nação”. Só assim a Consciência Nacional poderia ter um chão adubado por onde medrar e florescer. Pois a Nação só surge quando indivíduos, da mesma origem, com os mesmos interesses económicos, morais, culturais com um passado comum de tradições (este, mais importante que os outros) unem-se em torno de ideais “crenças, valores e aspirações comuns.

A Guiné, portanto, devia primeiro ser uma “KulturNation”, se quisermos, por oposição a “StaatsNation”. E oEstado-Nação Guineense como o conhecemos agora seria mais coeso e objectivamente mais bem estruturado e definido. Esta minha tese procura uma legitimação essencial, a posteriori, no pressuposto de Cabral que entendia a Luta de Libertação como “apenas” e “só” um dos caminhos para a Construção da Nação. E consequentemente a Libertação Nacional é necessariamente (aqui entendido no seu sentido Kantiano) um “acto de cultura”.

Mas só seriamos uma “KulturNation”, se paralelamente a “ideia da Libertação Nacional” (anterior a Luta de Libertação), fosse desenvolvida a “ideia da Guinendade”. Pois a Nação só existe e se desenvolve em função da maturidade da Consciência Nacional do seu Povo. E o que é a Consciência Nacional Guineense senão a nossa Guinendade? – Isto serve para definir de uma vez para sempre este conceito (cujo o Pai espiritual foi Honório Pereira Barreto), ainda ambíguo, para muita gente.

E essa “KulturNation” teria como ideologia e fautor da sua existência, a “ideia” da “Guinendade”. Que não é, nem mais nem menos, do que esse já referido conjunto de “crenças, valores e aspirações comuns”.

A quem pense simplesmente que o “Estado é a expressão da Nação politicamente organizada”: não no nosso caso. Porque para nós Guineenses, a fórmula “no início havia o Povo, que depois criou o “Estado”, não se aplica. Aqui, no início houve a “Ideia de Nação” (a “Guinendade”), que depois amamentou a “Ideia do Estado”que por sua vez vai “criar” o Povo. E é esse Povo criado destas premissas que vai construir a Nação.

A quem pense que nós, então que cidadãos Guineenses, no tocante a realização da Nação, temos um dilema entre a nossa “identidade crioula” e a “tribal” em contraponto à “Nacional”. A mim não me “interessa” nem aidentidade crioula nem a tribal no geral. Apenas me interessa verdadeiramente a “Identidade Nacional”. AIdentidade Nacional como síntese das outras, produto da antítese delas. Essa antítese é o próprio desaparecimento gradual das outras duas.

Entendo, dialecticamente, que a “Identidade Crioula” e a “Identidade Tribal” são uma Unidade de Contrários, que da sua resolução (da contradição), germinara a Identidade Nacional futura. A identidade crioula desempenhou o seu papel de demiurgo na gestação da “Ideia da Nação”, agora deve “retirar-se”, do processo da formação da Nação em si, parindo, do seu ventre prenhe pela Identidade Tribal esse filho comum que é a Identidade Nacional. Portanto, resumidamente, só deve existir/coexistir, durante um tempo indefinido, duas identidades no espaço sociológico da Nação: a Identidade Local (apenas tribal) e a Nacional (crioula e tribal numa só). Pois todo o ser crioulo Guineense é uma mistura cultural e de sangue. Sangue tribal na alma crioula.

E como a Independência não se “da”, mas “toma-se”, o Estado “proclama-se” sobre direitos inalienáveis. ANacionalidade “funda-se” em cima de uma comunidade de indivíduos unidos por uma ideologia, cultura e um território comum a que chamam Pátria. A Nação não se “cria”, “forja-se” sobre cadáveres de heróis (assim foi com todas as nações do mundo).

III

Só com todos os seus filhos pode existir a Guiné pois ela não é um território apenas, ela é um conceito secular, um acreditar permanente num futuro melhor, uma nação em criação, um povo em gestação. A Pátria é feita também de valores não mensuráveis, invisíveis mas permanentes. A Pátria é feita também da Guinendade.

Cientificamente esta provado que todos os povos são formados por vários núcleos raciais ou tribais. E seguiremos o caminho de todos os povos do mundo, que partiram sempre de vários tribos para criarem as suas nacionalidades ou raças. E nenhum poder no céu ou na terra pode impedir isso. É só uma questão de tempo e a natureza seguirá o seu caminho, indiferente às nossas guerras, ideologias, partidos e convicções. Pois a natureza não tem partidos nem ideologias e isso tem sido demonstrado abundantemente pela história e pela realidade diferentes povos por este mundo fora. Por isso o racismo nunca poderia triunfar; a natureza é contra ela. O tribalismo nunca há-de triunfar, a natureza é contra ela. E quando a natureza é contra nós, nenhuma ideologia nossa, nenhuma teoria, por mais acabada e admirável que seja, nunca triunfará.

Ser Guineense – não é ser de uma tribo qualquer, por acidente de nascimento, ou por mistura sanguínea – é pertencer a uma comunidade de indivíduos com a mesma língua (o crioulo) com a mesma cultura, hábitos e credos com uma ideologia clara que define que esta pátria é nossa em comum porque somos “sangue do mesmo sangue”, “carne da mesma carne” frutos de um povo único que não olha as origens tribais e étnicos para construir uma nação diferente dos outros nossos vizinhos. Baseado numa cultura comum com raízes numa mundivisão secular – que vem do tempo anterior ao colonialismo, mas que foi amalgamada por esta influência – que nos faz estar, em alguns aspectos, mais próximo dos nossos concidadãos dos PALOP do que os da CEDEAO.

Portanto ser Guineense não é ser balanta ou papelbeafada ou nalu ou as suas variantes como nhomincabalanta mané,fula furo ou gebancólo, mas precisamente o seu contrário. E o seu “contrário”, independentemente do nosso acreditar, deve ser “realizado” por um poderoso Estado, que como já também disse antes, será o “instrumento” para a “realização” do povo. E esta realização não tem intrinsecamente a haver apenas com o bem-estar social, desenvolvimento económico, competente gestão da coisa pública, extinção da corrupção e do narcotráfico e criação de oportunidades credíveis e palpáveis aos jovens para que parem de fugir do país. Tem mais a ver com a criação do povo de que falo permanentemente, por mais estranho que isto vos pareça a primeira vista.

Num País organizado, economicamente viável e socialmente desenvolvido, o orgulho de ser Guineense falara mais alto do que a ufania de pertença a uma tribo, qualquer que seja ela (num tempo recente estivemos no início desse processo). Os cidadão têm que amar mais ao seu país do que a sua tribo ou religião.

O nosso Estado Nacional futuro tem que ser mais forte do que as suas partes constituintes, que são as tribos e as suas fusões. E estes devem se “suicidar” progressivamente enquanto entidades singulares, no altar da Nação comum. E com o seu sacrifício fortalecerem o Povo e a Nação Guineense. E lembrem-se do que disse Cabral: “A verdade é o seguinte: é que o tempo de tribos em África já passou.” Por isso o tribalismo hoje em dia é duplamente pernicioso, pois alem de todo o mal associado a ele, ainda acrescentou-se um discurso antinacional. Ela é contra a formação do Estado Nação em África e na Guiné em particular. É o maior oponente a modernidade, ao desenvolvimento e melhoria de vida do povo. Ela é inimiga do Estado Nação nos seus fundamentos e poderes constituídos.

O verdadeiro Guineense, aquele que um dia chamarei, sem demagogias ou falsos nacionalismos de “Puro Guineense”, é o fruto da mistura sanguínea e cultural de Balanta com Manjaco, de Fula com Beafada, de Papel com Criston, de Mandinga com Mancanhe, etc., etc.

Ele será o genótipo desta união de tribos; Dele surgira o biótipo Guineense, esse tal “Puro Guineense” que não saberá se é Felupe, Bijagó, Papel, Mandinga, Mancanha, Nalu, Manjaco ou qualquer outra tribo. É ele que um dia será o herdeiro desta Pátria.

Será ele o resultado da Revolução Guineense.

É por ele que eu trabalho. E esse trabalho é preparar a sua vinda.

Bissau, 21 de Fevereiro de 2013

**Nota do Editor: as opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade de cada autor e não reflectem necessariamente a linha editorial da GBissau.com

2 Responses to Opinião: A “Guinendade” como Ideologia Nacional

  1. Aureliano Manuel Gomes diz:

    Parabéns Guinendade é um pouco do que estas a fazer, chamar as pessoas a razão!

  2. Bardadi Son Bardadi diz:

    Estamos perante uma reflexão importante, isenta de influências ou interesses políticos-económicos. Concordo que a nossa Guineendade como conceito está num processo de formação, independentemente que Fulano ou Sicrano o queiram ou não, é uma questão de tempo. O nosso Atchutchi retratou isso com a metáfora do Con malcriado e a Montanha que nunca muda.
    Por fim, manifesto a minha gratidão ao Fernando Jorge pelo seu contributo, num momento em que um punhado de menos de cinco guineenses detêm o monopólio de emitir suas opiniões e comentários.
    Mantenhas, Bardadi Son Bardadi

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