Opinião: Ernesto Dabó – Um Homem Suave num Concerto Suave

Fernando Teixeira

“ai tina! Ma tina sabi… No badja Tina…”

Ernesto Dabó, 12/07/2013

“si i ca triste i ta dá garaça”

Ernesto Dabó, um dia no Século passado

“Os di bom messa nin ki na muntudo i ta raparado”

Ernesto Dabó, álbum “N`bá Bolama” 1973

 

Quem esteve anteontem no Centro Cultural Francês de Bissau teve a agradável surpresa de assistir mais um concerto entre tantos que ali se passam todas as semanas. E não estaria a falar deste em especial se algo nele não tivesse sido diferente; não na “arrumação” do concerto, quanto as intervenções de diferentes participantes convidados, entre músicos poetas e escritores, nem na performance dos músicos acompanhantes ou da própria estrela da noite enquanto (apenas) músico.

Havia algo de diferente no ar, e o “ar” é muito importante, seja o “ar do tempo” ou o “ar da sua graça” que cada um transmite em certos momentos decisivos. E o “ar do tempo” esteve presente de modo permanente, nos gestos, nas palavras, na música e nas canções. A geração dele sentiu-o em forma de um vislumbre do passado? De algo que passou mas ficou? Que fica e fica numa teimosia igual a daquelas almas que mortas teimam em permanecer entre nós por não terem cumprido ainda o seu destino? Hoje vejo o Ernesto Dabó, desesperadamente tentado voltar para um sítio de onde nunca saiu e nunca sairá, pois ele faz desesperadamente parte da nossa cultura, da nossa mundividência, do nosso crioulo, da nossa guinendade, da nossa natureza de homens que somos e morreremos.

O Ernesto “voltou”, sem nunca ter partido – esqueceu que “si bai ca tem, riba ka ta tem també” – e veio com “N`bá Bolama” quarenta anos depois. Na verdade este concerto deve ser repetido em Bolama, numa muda homenagem a todos que partiram desse velho porto e espalhados pelo mundo recordam esse dia, esse último vislumbre do casario defronte ao mar.

Dr. Ernesto Dabó

Dr. Ernesto Dabó

Do novo disco “lembrança” de E.D. queria falar depois; apenas depois de o escutar várias vezes e o interiorizar em acordes e vozes como é meu hábito. Na verdade só conhecemos um disco depois de o ouvirmos no mínimo cinco vezes. Já ouvi os dois discos de J.C.S. mais de cem vezes, mas continuo a descobrir coisas novas ainda. Mas o Mestre Adriano (Atchutchi) Ferreira é o responsável por estas linhas; ontem, na recepção da Embaixada Francesa perguntou-me se “nada” escrevi sobre o concerto (?), quando disse que “foi um bom concerto”. Nesse instante tive um vislumbre do passado, de um tempo que não voltará, mas lembrei-me também da noite anterior, do instante em que Ernesto Dabó (ED) deu-nos um “ar da sua graça” ao dançar “Tina” de um modo tão desprendido, suave e encantador e senti vergonha de não fixar aquele momento para os pósteros mesmo que em desajeitadas linhas: durante a dança puxa o pé direito para junto do esquerdo num movimento lento e simples mas que mexe com a sala inteira como se nos disse-se: “bó odja? N`sibi badju…” e torna a repetir o gesto, instantes depois, sabendo (como artista consumado que é) que a sala vibrará de novo…

Assim, como o vate Adulai Silá, humildemente, resolvi juntar-me a homenagem ao cantor Ernesto Dabó organizado por pessoas que conhecem o seu valor de homem e de artista. Assim serei parte dessa homenagem e desse concerto, pois um concerto não é feito apenas do primeiro acorde da viola e do último som da bateria, do derradeiro obrigado do artista; é feito das pessoas que o assistiram, das suas críticas depois dele, das suas recordações dele que poderão ter a vida inteira como ainda recordo do concerto de Bembeya Djazz em Bissau há tantos anos passados. Nessa noite, no Estádio Lino Correia, as vozes de colegas de Abubacar Demba Camara cantando “Mori manhinte” (assim o pronunciávamos), “doni-doni”, e “temtemba”, foi uma revelação que ainda escuto quando fecho os olhos… e volto ao passado.

Há concertos que nunca esquecemos como da Miriam Makeba cantando em duo com José Carlos Schwarz no mesmo local e um de Júlio Iglésias que vi em Moscovo. Creio que este de E.D. também não vou esquecer pelo resto da vida. Foi o concerto mais suave que assisti na vida; e mesmo que apenas pela “suavidade” não a esquecerei. A suavidade da voz, da dança, das letras, dos agradecimentos, dos aplausos… mas a maior suavidade foi do artista que suavemente começou para suavemente findar, numa suavidade de gestos que mais do que palavras nos mostraram que “ós di bom messa nin ki na muntudo i ta raparado”.

Depois do concerto, em casa, por um descargo de consciência, procurei por todos os cantos tentando encontrar o velho disco de 45 rotações, orgulho de nosso pai (e depois nosso) que durante anos repetimos até a agulha do velho gira-disco passar a saltar mais do que a deslizar. Púnhamos um lado e o outro, mas de tanto por “N`bá Bolama” a canção “N`na” ficou melhor preservada; e quando já não dava para ouvir “N`Bá Bolama” pois a agulha “saltava” tanto “comendo” as frases de Ernesto, passamos a tocar o outro lado de que gostávamos menos; e assim ficamos a saber porque é que “ós di bom messa nin ki na muntudo e ta raparado” (meu pai nos explicou o que queria dizer essa profunda frase em crioulo; e deu-nos como explicação para esse ditado dizendo que um menino educado quando chega a um sitio todos qualquer, todos entendem que é filho de uma boa família; era a maneira dele nos dizer que devíamos portar bem e ser “educados”). Naquele tempo ainda havia o orgulho de se “ser educado”, de ser filho de “boa família” e Ernesto Dabó cantava com mestria esse orgulho, que tanta falta nos faz hoje.

Anteontem ao ouvi-lo cantar “N`bá Bolama” de novo, quarenta anos depois, na penumbra da sala, contive uma lagrima sentida, e fechei os olhos para de novo ser criança e de novo lutar com as minhas irmãs sobre a primazia de por o meu disco… (cada um de nos tínhamos um disco que chamávamos “nosso” do acervo do nosso meu pai e sempre queríamos por no gira-disco o nosso…). Não queria ficar triste, pois “N`bá Bolama” não é uma canção triste, pelo contrário é alegre, mas fazia-nos chorar quase. O sofrimento do cantor ao voltar aos seus “verdes campos” ao seu recanto natal e encontra-lo a “desaparecer” no esquecimento, tocava cada um de nós. E se anos depois durante anos quis voltar a minha terra não era para ir a Telegra e Quinta Bidjugo, ou para ir ver com os meus próprios olhos tristes, a tristeza dos olhos tristes de “guintes de Bumbero” mas os olhos tristes da minha gente de Bissau, Farim e Buba. E como eu, muitos guineenses queriam ir ao Ofir, a Escadinha, a Suru, a Bruce, a Varela, a Casuma e ao…. Para “chorarem pena”, mas pena do seu rincão natal. “Guintes de Farim” misti tchora Gan Sapo cu Nema, guintes de Buba, porto, guintes de Gabu Engenharia, guintes de Bafata “rua Porto” cu “Leybala” guintes de Bissau “meteorologia”, Bissau Bedjo, marginal, praça, cada um o seu rincão, o sítio onde nasceram. Mas sabemos que em todos os lados do nosso país existem “guintes de bumbero” também. Porque todos choramos “pena” quarenta anos depois…

Mas como não tenho o dom de E.D. para cantar as minhas origens, às dele serviram-me durante muito tempo. Alguém que tenha escutado o Dabó naqueles longínquos anos saberá do que falo, mas “N`na” não era apenas sobre a educação que deve ser dado a um menino, era sobre o próprio amor filial que ele dedicava a sua mãe agradecendo-lhe ter-lhe feito o homem que era; aquele “son abó”, era sobre a singularidade do amor de mãe, o maior do mundo. E aquele “bambaram di padida” significava o apego ao seu rincão natal. Naquele tempo colonial era difícil cantar outras coisas, mas ainda bem (pela primeira vez ainda bem) pois “N`na” e “N`bá Bolama” são as canções fundadoras da música moderna guineense. E digo-o sem esquecer dos famosos “N`Tchmado pa tropa” e “N`pintcha camion”, nem do que veio depois com o Aliu Bari e José Carlos Schwarz.

Capa do CD Lembrança - Ernesto Dabo

Capa do CD Lembrança – Ernesto Dabo

Disse ontem ao António (Tcheka) Soares que Ernesto Dabó, sem saber (ainda hoje), foi um dos percursores do meu nacionalismo, que nasceu da suspeição infantil da minha dignidade intrínseca de Guineense e por conseguinte da minha concepção de Guinenedade. Pois como nada cai do Ceu, dessa voz tamanha, que tocava as nossas almas infantis, nasceu algo em mim. O “N`ba Bolama” não é uma canção nacionalista nem patriótica, mas, mesmo que de um modo difuso, fazia-nos ter orgulho na nossa terra. Um orgulho inexplicável mas real. Um orgulho igual a aquele que quando vim de Farim para vir estudar a quarta classe em Bissau, o meu irmão que já estava no ciclo (tinha onze anos apenas), um dia acordou-me e disse: agora toca-se música crioula na rádio. Eu com nove anos não percebia a importância disso de nenhuma maneira: então pacientemente me explicou que isso quer dizer que agora “eles” respeitam-nos, pois respeitam a nossa cultura. A alegria dele era tanta que cantava sessa música (a primeira música crioula tocada na radio nacional) completa e de cor; e cada vez que a punham na radio, ele corria buscar-me das brincadeiras para vir ouvir “N´tchomado pa tropa”… e assim crescemos querendo desesperadamente ser aquilo já eramos e não sabiamos. E hoje, só hoje, soube que aquela voz também era de Ernesto Dabó numa criação do Aliu Barri, nos primórdios de Cobiana Djas.

Neste concerto o Ernesto Dabó (E.D.); deu-nos um “ar da sua graça” que perdurará na nossa memória, num momento que quero crer, decisivo para ele. Não para a “carreira” de ED, seja ela musical, poética ou aquilo que se pensa na nossa sociedade e o e o que ele entende, mas para o homem, o ser humano com todas os seus sonhos. E a noite foi especial desta maneira; foi uma noite de homenagem singela mas perfeita. Adulai Silá falou-nos dele, sem exageros, que ele não aprecia (uma vez falaram dele na apresentação do seu livro de uma forma tão agigantada que ele ao subir ao palco para agradecer, num lindo gesto de humildade, disse que não sabia que “tudo isso” era ele), mas com palavras tocantes e verdadeiras. Uco Monteiro declamou um poema dele, Justino Delgado  e Eneida Marta cantaram em sua homenagem. A filha do Aliu Bari (Tchuma de seu nome e acabou de lançar o seu primeiro disco) veio encantar-nos em nome do seu pai. O Zé Manel Fortes cantou uma pequena parte apenas do seu “Siko na Banculé” para que todas as honras sejam dadas ao homenageado. Mas aqui queria contar algo: quando ao primeiro toque desta música virei para a pessoa que estava a o meu lado (e que também estava ao meu lado no concerto de Júlio Iglésias há vinte anos atras, M.B.) e lhe disse: este é o “Sikó na bankulé” (conheço esta musica de cor, por a ter ouvido dezenas de vezes, como aliás todas a s músicas do Zé Manel Fortes,) e expliquei-lhe o significado profunda dessa canção na compreensão do que é a Guinendade, o seu surgimento, a sua vivência e seus problemas originais (e quiçá actuais). Mas no momento da explicação, parei para perceber que essa música era filha dilecta de “N´ná”, “N´bá Bolama”, “Tchomado pa tropa” e “Pintcha camion”. Era como se no Zé Manel Fortes é que veio desaguar toda essa imensa criatividade de Ernesto Dabó, Aliu Bari, José Carlos Schwarz, Adriano Ferreira e do esquecido “Duco” Castro Fernandes entre tantos outros… sim, nele, nesse momento, consegui vislumbrar todos eles, cada um espreitando atrás de um acorde, de um som. E ele e Ernesto juntos é um milagre do destino e quem sabe de um destino que ainda não terminou mas que um dia os juntará num disco e num concerto que fechara os quarenta anos no nosso passado para abrimos portas para os próximos quarenta. Num concerto como aquele que Youssou N`dour fez na vitória do Macky Sall…

Termino no início do concerto, naquele momento em que Ernesto Dabó entra por fim no proscénio e sem dizer uma palavra, inclina-se humildemente perante o público e assim permanece, longos instantes, numa homenagem muda e queda a todos nós que viemos lhe ver. Um mudo obrigado, por toda uma vida, para todos os que o amaram acompanharam e acreditaram embora não presentes, embora não vivos já; um obrigado maior do que a sala, do tamanho do mundo todo por onde se espalharam gerações de Guineenses numa diapora forçada; um obrigado a todos os que nunca conheceu ou conhecerá nesta vida mas que porventura o ouviram cantar um dia. Tenho uma irmã que morreu cedo, aos nove anos, mas como todos nós, ouvia Ernesto naquele disco de quarenta e cinco rotações do meu pai, e creio que este obrigado é dirigido a ela também, algures onde se encontra…

Ernesto voltou, quarenta anos depois, sem nunca ter partido. Já chorava, há quarenta anos atras, a sua Bolama; hoje já não lhe restam mais lágrimas apenas mais quarenta anos, mas esses, não para chorar, esses para rir, afinal “si i ca triste i ta dá garaça”. Por isso canta e encanta. Esqueceu as tristezas e brilhou de novo e no requebro do corpo, na modulação da voz, por um instante voltou a ter vinte anos. Vintes que tinha quando um dia, na velha ponte, sozinho contemplava o futuro, que já chegou, suavemente, sem ser sentido nem pressentido…

Fernando Teixeira

14 de Julho de 2013

4 Responses to Opinião: Ernesto Dabó – Um Homem Suave num Concerto Suave

  1. Francelino diz:

    Nossa!!!
    Estou em lagrima ….!!!
    Tenho 36 anos, vivo no exterior faz 10 anos, escutei essas musicas na infância com muita inocência mas me deu um aperto no peito ao ler esse discurso lindo sobre tempo e pessoas que nos concederam a herança riquíssima da música guineense.
    Faz pouco tempo que descobri que nasci no dia da morte do José Carlos Schwarz ( 27.05.77) e isso reforçou o meu patriotismo
    Leio gbissau.com todos os dias e quando vi lançamento do álbum lembranças do E.D. senti que era algo com valor inestimável , senti como se ressucitasse todos do tendo dele que nos os mais novos apenas ouvimos falar e escutamos suas musicas.. E no momento senti muita vontade de ter acesse a esse tesouro, mas aqui no Brasil seria im possivel , alias se alguém souber aonde encontro esse material, por favor me avisar ( frannuno@gmail.com).
    No no iPhone, no meu sony vaio nos momentos íntimos escuto José Carlos, a única música do E.D. do álbum lembranças DJUSSE (linda e intronizante música)
    Quando “n bai bolama” preciso adquirir essas musicas… Para minhas meditações e momentos de lagrimas aqui longe de casa.
    Foi gostoso ler esta mensagem sua sobre o passado da música guineense.
    Obrigado amigo Fernando
    Att.
    Francelino

  2. Ude diz:

    Esta justa homenagem a este grande homem. Tão magnifica quanto o ser homenegeado. Na verdade, desde muito que moro de amores pela música e este estilo singelo da música, só os grandes coneguem proporcionar. Ernesto Dabo sabe cantar e encantar com as suas músicas e a voz que acompanha as suas letras numa sinfonia natural não pode em palavras ser descrevida. Só quem mesmo ouviu as suas músicas para perceber o que o senhor homenageou.Por isso eu peço aos meus irmãos guineenses que comprem o CD, que o dêm de presente aos seus amigos porque concerteza as músicas de Dabo trazem a paz expressa na suavidade de seus ritmos e na mesma suavidade do artista.

    • arnaldo armindo saqui diz:

      eu acho ke isso foi uma justa homenagem a este senhor, ele merece mais que isso pela contribuicao que deu pela musica moderna guinense,mais o ke acho os organizadores de eventos culturais deviam pensar em organizar um concerto dos poucos veterenos que existem para trazer de voltar aquilo ke nos identica como guinense aquele convio dos tempo quando a bolama era capital apesar de nao viver aquele tempo mais pelo relatos ke li temos os nossos avos ke poderam beneficiar disso tanto quanto a nos mais jovem poderemos tambem aprender algo de bom de paz e de respeito e tudo

  3. Eugénio Gravata diz:

    Justa homenagem a uma pessoa que muito respeito e admiro. É mais uma das figuras emblemáticas da Guiné. São estes músicos que dignificam a cultura nacional Guineense e estas homenagens pecam por ser tardias.
    Ao meu amigo Dabó aquele abraço muito apertado. Eugénio Gravata

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