Entrevista: Flora Gomes, Quatro décadas de cinema

Entrevista Flora Gomes, realizador cinematográfico guineense

O mais famoso cineasta da Guiné-Bissau, com cerca de 40 anos de carreira, continua cheio de projetos e histórias para contar. Lamenta apenas a ausência de uma política nacional de apoio financeiro e de incentivo à produção cinematográfica, o que penaliza os realizadores do seu país.

Cineasta guineense, Flora Gomes

Cineasta guineense, Flora Gomes

África21: Como é que um jovem das zonas libertadas em guerra acabou se dedicando ao cinema?

Flora Gomes: O meu envolvimento na luta pela independência foi obra do acaso. Vivia com uma tia materna, uma abastada proprietária rural em Cadique, no sul do país, o berço da guerra anticolonial. Na tentative de ir juntar-me ao filho dela, na vizinha Guiné-Conacri, fui parar ao setor de Quitáfine, um dos santuários da guerrilha na primeira metade dos anos 60. Ficava próximo de Cassacá, onde estava reunido o histórico I Congresso do PAIGC, em que esse meu primo participava. Por decisão de Amílcar Cabral as crianças que se encontravam nessas áreas foram transferidas para a Guiné-Conacri, onde foi aberto um local para as acolher, a chamada Escola Piloto, destinada a formar os futuros quadros. Eu estava nesse primeiro grupo de crianças que foram para Conacri.

 

África21: E de Conacri foi estudar cinema em Cuba?

Flora Gomes: Sim, mas antes frequentei a Escola Piloto, em Ratoma, na capital da Guiné-Conacri. Um dos nossos professores, o cabo-verdiano Olívio Pires, marcou-me em particular. Elogiava a minha capacidade para contar histórias, mas nessa altura o cinema não fazia parte dos meus planos. A bolsa de estudo em Cuba surgiu em 1966, depois da conferência Tricontinental, em Havana, em que o PAIGC participou, e onde Amílcar Cabral apresentou a sua tese sobre o papel da cultura na luta de libertação. Encontrou-se com Fidel Castro e a partir daí os cubanos passaram a apoiar o movimento de libertação da Guiné e de Cabo Verde. Antes, Cabral já se tinha avistado, em Conacri, com Che Guevara, que efetuava uma digressão pelo continente africano, e apresentou um relatório bastante favorável ao PAIGC. E foi depois disto tudo que segui para Havana, com uma vintena de outros jovens, para prosseguir os estudos.

 

África21: Como foi a formação em Cuba? Quem foram as suas referências em matéria de realização cinematográfica?

Flora Gomes: Fomos para um dos melhores liceus de Havana, e nessa altura as minhas preferências não iam para o cinema. Gostava era de correr e de fazer ginástica. Optei finalmente pelo cinema, por influência do meu colega Sana Na Hada, e também do Zé Bolama e da Fina Crato, que seguiram cinema, mas que infelizmente já morreram.

O Sana era um dos melhores alunos e é hoje um dos pilares da arte cinematográfica na Guiné-Bissau. No início não tínhamos ideia nenhuma daquilo. Colocaram-nos um rolo e um aparelho fotográfico na mão e disseram-nos para captar imagens.

Eu que nunca tinha tocado antes numa máquina fotográfica. Passei lá cinco anos. Fiquei com ótima impressão de Santiago Alvarez, um dos mestres do documentário cubano, que chegou a proferir uma palestra no nosso instituto, aprecio bastante o trabalho do realizador brasileiro

Glauber Rocha, que também deu uma conferência em Cuba. Quem passou igualmente por Cuba quando lá estava foi outro especialista de documentários, o francês Chris Marker, um grande cineasta, com muito dom para a montagem.

 

África21: Além de Cuba, passaram uma temporada no Senegal?

Flora Gomes: Depois de Havana, estivemos um ano em estágio em Dacar, sob a tutela do professor Paulin Vieyra, um historiador senegalês de origem beninense, e um dos pioneiros do cinema africano. Aprendi com ele a importância e a força da imagem. Os filmes de Sembene Ousmane, outro cineasta senegalês, foram uma revelação e permitiram-me concluir que os africanos também tinham coisas para contar. A época em que estivemos em Dacar coincidiu praticamente com o começo da televisão nesse país, e filmámos várias vezes Leopold Senghor, o primeiro Presidente senegalês e adquirimos experiência. No final, quiseram mesmo que ficássemos lá.

As dificuldades por que passámos deveram-se, em parte, à nossa maneira de estar na vida

África21: E depois veio a independência, a ida para Bissau, e os primeiros passos do cinema nacional.

Flora Gomes: Partimos praticamente do zero. Havia salas de cinema, mas só projetavam filmes importados do Ocidente. Não havia quaisquer estruturas de produção, nem mecanismos de financiamento. Nós éramos os primeiros quadros nesta área, mas pelos vistos a visão que certos responsáveis tinham da nossa profissão não permitiu valorizar a nossa formação e o nosso potencial. Resumindo, profissionais menos qualificados do que nós tinham uma situação mais desafogada.

A dada altura, a nossa situação material melhorou ligeiramente, depois da vinda do Chris Marker a Bissau, a convite do angolano Mário de Andrade, que nos finais da década de 70 dirigiu o Ministério da Informação e Cultura, com a tutela do Cinema.

Depois de visionar todos os nossos documentários, Chris Marker elaborou um relatório, onde dizia que tínhamos formação e capacidade para trabalhar em qualquer parte do mundo, avaliação que contrastava com as dúvidas que algumas pessoas no país tinham sobre o nosso real valor. Tanto eu como o Sana chegámos a pensar em deixar o cinema. No meu caso, o que me levou a não desistir foi uma conversa com o ex-ministro Manuel Santos “Manecas”, em que me encorajou a continuar, como uma forma de homenagear a memória de Amílcar Cabral. Essas dificuldades por que passámos deveram-se, em parte, à nossa maneira de estar na vida. Não faço filmes para aplaudir pessoas. Como costumo dizer, este tipo de filmes não permite abrir contas bancárias.

Com o Mário de Andrade havia muita dinâmica, Como viveu em França e a mulher (Sara Maldoror) era cineasta, tinha muitos contactos nesses meios e convidou alguns especialistas para virem a Bissau. Um deles é Anita Fernandez, ótima montadora, com quem ainda hoje mantenho relações. Nessa altura ainda tínhamos a ilusão de poder edificar um cinema nacional.

A rica história da nossa luta de libertação não pode ser contada pelos estrangeiros, por mais interessados que estejam em nós

África21: Por isso é que disse uma vez que fazer filmes em África é para os loucos.

Flora Gomes: Fazer cinema, arte em geral, em África, é muito difícil e complicado. As pessoas não imaginam o que é buscar financiamento para filmes. Faltam estruturas de apoio a todos os níveis, mesmo em países onde existe alguma tradição. O Senegal e a Argélia, que foram referências anos atrás, hoje enfrentam muitos problemas. O Burquina Faso e Marrocos são algumas raras exceções. A produção cinematográfica também está em ascensão na África do Sul e na Nigéria. A Guiné-Bissau teve um period áureo nos anos 90, até depois do meu filme Pó di Sangui, que esteve em competição em Cannes. Cheguei a ter convites para adaptar romances e para dar aulas nos Estados Unidos. O nosso cinema até já tinha começado a cativar alguns cineastas estrangeiros a virem filmar aqui, mas os progressos não tiveram continuidade. Há vários meses que pedimos apoio às nossas autoridades para fazer um documentário sobre o 40.º aniversário da proclamação do Estado e da morte de Amílcar Cabral, que seria exibido em setembro. Falta pouco mais de um mês e ainda não recebi nada. Mas a rica história da nossa luta de libertação não pode ser contada pelos estrangeiros, por mais interessados que estejam em nós. Como alguém já disse, sera que o leão deve pedir autorização ao caçador para contar a sua história?

 

África21: Então qual é a saída para esta situação?

Flora Gomes: Temos de apostar na produção nacional. É preciso um fundo, não para o Flora, mas aberto a concurso, gerido com transparência e prestação de contas. Tem de haver também uma política específica para o setor. E falando com toda a modéstia, temos de pôr na administração da cultura pessoas com sensibilidade e conhecimento desta matéria. Não podemos continuar só a abrir e a encerrar carnavais.

 

África21: Começou por fazer reportagens e documentários. Como deu o salto para as longas- metragens de ficção?

Flora Gomes: Leila Tengrut, uma cineasta libanesa, esposa de um diplomata sueco em Bissau, alertou–me para um concurso na Suécia, financiado pela ASDI, a agência sueca de cooperação. Participei com um resumo do argumento do

meu primeiro filme de ficção, Mortu Nega e fui premiado. Contudo, para a conceção do cenário e elaboração do diálogo contei com a preciosa colaboração e criatividade do francês David Lang e de Manecas Ramboutt Barcelos, um intelectual guineense que faleceu no ano passado em Angola. A tal ponto que na altura da realização, algumas sequências do filme, que foram elogiadas, nem sequer figuravam no argumento original.O mesmo se passou com a minha Terceira película, Pó de Sangui, onde certas cenas foram introduzidas na hora.

 

Flora Gomes a filmar A República das Crianças em Maputo, Maio de 2010

Flora Gomes a filmar A República das Crianças em Maputo, Maio de 2010

COM MUITAS HISTÓRIAS AINDA POR CONTAR

Primeiro guineense a ver um filme seu, Pô di Sangui, rodado na Tunísia, inscrito na competição do Festival de Cannes, em 1996, o que de resto lhe valeu uma medalha de Cavaleiro das Artes e Letras francesa.

Filme "Mortu Nega" de Flora Gomes

Filme “Mortu Nega” de Flora Gomes

Tem cinco longa-metragens, a segunda das quais, Olhos Azuis de Yonta (1992) foi selecionada para Un Certain Regard, a secção paralela de Cannes, e premiada em Milão, Cartago, Uagadugu e Wurtzburgo. Estreou-se com Mortu Nega (1988), que qualifica de uma homenagem ao heroico povo da Guiné-Bissau.

A quarta película é Nha Fala (2002), um drama musical, que decorre em Cabo Verde, exibido e premiado em Veneza e em mais quarto festivais. O seu mais recente trabalho é República di Mininus, bem acolhido pela crítica, e que o realizador espera que possa tornar-se num marco importante nas suas quatro décadas de carreira, apesar de não beneficiar de qualquer promoção, por falta de meios.

Filme "Po di Sangui" de Flora Gomes

Filme “Po di Sangui” de Flora Gomes

Flora Gomes é ainda autor de vários documentários, entre os quais A Máscara, sobre o carnaval na Guiné, e Pegada de Todos os Tempos. Realizou Duas Faces da Guerra, com a portuguesa Diana Andringa, e Regresso de Cabral, uma obra coletiva sobre a transladação dos restos mortais do herói nacional morto em Conacri, feita nomeadamente com Sana Na Hada, seu colega de estudos e de trabalho, e de cujo percurso comum muito se orgulha. Agora prepara Lady Dia, um policial, onde aborda problemas da sociedade em toda a sua complexidade, e ultima o guião de um documentário relativo ao 40.º aniversário da morte de Cabral e da independência da Guiné-Bissau.

 

[In edição de SETEMBRO de 2013 da Revista África 21, Nº 78]

3 Responses to Entrevista: Flora Gomes, Quatro décadas de cinema

  1. milanca diz:

    eu adoro vc flora gomes sou teu fã, espero que consiga um bom apoio para continuar com seu trabalho…

  2. Adriano diz:

    sinto muito orgulho ao constatar uma vez mais que na minha Terra (Guine Bissau) ha’ Homens e mulheres com perffil historico de profunda humanidade,respeito,corragem e sobretud dignidade. Estas palavras parecem pertencer a outra especie humana. Flora Gomes e’ “Po’di Bissilon” capaz di carregar e fazer sobrevivir apensamento e “Obra” dos Gandes da da nossa Historia.
    Obrigado Camarada Flora Gomes
    Adriano IE’

  3. Arquimurtala diz:

    concordo com a flora.
    deve ter investimentos para cuncurso, de curta ou de longa metragem.

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