Opinião: O Perigo do Tubarão Fora de Água

Filomeno Pina

Por Filomeno Pina | filompina@hotmail.com

Cuidado com o tubarão, porque já mordeu o anzol, está furioso, ainda pode matar antes de ser completamente dominado, a sua força de reacção por desespero de causa. Engoliu uma isca irresistível que terá contribuído para a sua captura. Reactivada a ganância por carne fresca, vemos um animal político que faz questão de mostrar o corpo, desafiando a sua sorte, tanto nos rios da Guiné-Bissau, como nos mares profundos longe de Casa. Ele sabe nadar, mas em terra firme, costuma adoptar a marcha na vertical, uma postura rara no tubarão, aqui assumida normalmente na arte do engano, disfarça bem, quando quer mandar recados aos seus rivais e inimigos no terreno.

Hoje sabemos que na família de tubarões, o maior deles todos se encontra “preso” fora de portas com chave na mão e não tem coragem de entrar na sua própria Casa.

Enquanto que um crocodilo atento e em guarda (seu inimigo de estimação), também está “preso”, mas dentro de Casa, em estado de prontidão da defesa dos rios da Guiné-Bissau, embora sem autorização para sair, viajar para onde quiser ou passear livremente. No fundo da questão constatamos que há falta de autonomia que impede sua liberdade de movimentação, para além dos rios do território nacional.

Ultimamente a sorte maldita calhou nas duas faces da mesma moeda, os dois receberam o troco separados, para acertar contas antigas que ficaram por resolver. Contas do diabo que veio para cobranças difíceis, com a mão estendida que nunca se encolhe vazia. Já ouvimos muitas histórias assustadoras acerca de cobranças do género. Mas aqui parece que alguém foi enganado, seduzido, e cumpriu à risca uma mentira fatal. Estando hoje arrependido, quer provar a sua “inocência”, justificando o que parece injustificável. No fundo querendo desmontar a arquitectura dum crime montado num alicerce falso, numa estrutura vingativa, gananciosa e intencionalmente montada para matar ou que acabou por matar. Um brinquedo perigoso que foi manipulado com muita falta de consciência, de maturidade e de sensatez, acabou mal dando no que deu, as mortes. No entanto vamos aguardar com serenidade, ver para crer, onde tudo isto vai chegar, só.

Ambos hoje são inimigos um do outro, que por ironia do destino parece que “cá se fazem, cá se pagam”, hoje estão precisando de luz “verde” especial, para se movimentarem livremente, mas tudo à volta de cada um parece permanecer vermelho, em sinal de proibição de sair à rua ou proibição de entrada em Casa.

Assistimos a um jogo de titãs com regras dificílimas, sabendo que não há hipótese de coabitarem os dois galos na mesma capoeira, com um final feliz.

Alguns precisam de “autorização” para sair de Casa, outros para entrar nela, parecendo tratar-se de uma autorização dada pela “mãezinha” aos meninos, mas não é, trata-se de um risco de vida a evitar, uma situação paradoxal e irónica ao mesmo tempo, onde não faz sentido falarmos de medo, mas de perigo evidente para quem pisar este “risco” sem medir as consequências.

Ambos estão “presos” sem dúvida numa prisão invisível, todos sabemos destas ameaças (dentro e fora do País) que incorrem por cima de cada um, para chegarem a este ponto de situação.

Aqui está um bom exemplo de quem tem a chave da sua própria casa e não pode entrar, e também o seu inverso, quem já esteja dentro de casa, mas também não pode sair para a rua livremente, sem autorização. Por agora nenhum destes lobos-do-mar se atrevem a desafiar a sua sorte, os perigos são muitos, com ou sem “guarda-costas”, o perigo é real, e todos sabemos os porquês.

Em tempos, quando os tubarões e crocodilos foram “amigos” na caça grossa, tudo parecia normal, numa Guiné-Bissau “equilibrada”, no bom caminho, afinal era tudo mentira e logo se viu que “havia outra”, os podres saíram debaixo do tapete vermelho, viram-se as desgraças cometidas no silêncio das trevas para ninguém comentar.

Hoje continuam nas caçadas separadas, mas centrados um no outro, são inimigos com espingardas apontadas num duelo frente a frente, onde paira a miopia que não permite tiro acertado, falhando o alvo por enquanto, porque a distância é intercontinental, só se ouvem ameaças de parte a parte, mas se cruzarem um dia “pádja kana lamta-lá, máz” (não há relva que resista ao calque dos dois a lutar).

Também notamos neste destino medonho, que tem promovido angústias, pesadelos, paranóia, desconfiança, mania de perseguição, reacções de agressividade excessiva, sempre que ambos anunciam suas ideias com microfones diante da boca. Dizem muitas asneiras, ouvimos poesia triste, de reaccionários na versão da canção do bandido, com letras de terror, espalhando nos ouvidos do Povo as suas próprias frustrações.

Mas o nosso Povo não vai em cantigas do bandido, conhece bem cada um dos seus filhos, pelos nomes, contributo e não só, sabemos nós que sim, não havendo dúvida que a vitória será certa.

Nós por cá preferíamos ouvi-los cantando desafinados como sempre e para o resto da vida, sem mudar sequer o estilo de vida, enfim, que deixassem o Povo em Paz e sossego que tanto merece, seria o melhor para todos!

Porque desta vez estão “presos” nos olhares atentos dos pescadores furtivos, e presos no ferro do anzol, embora resistam na infeliz tentativa de se desprenderem do anzol, continuam sendo vistos como o “tigre” dos mares, sabem lutar bem e provocam medo na maior parte dos pescadores “profissionais” da política. Ninguém se atreve a ter liberdade de expressão total, todos ou quase, reagem sob influência desta onda de energia negativa emanada das guerras entre tubarões e crocodilos, são nódoas de sangue ainda na memória, que naturalmente justificam o medo que se vive entre cidadãos Guineenses, este carimbo que vem das lutas passadas e dum luto psicológico, ainda hoje mal resolvidos.

Perguntas do Zé-povinho estão na rua, os porquês de tanto receio se apenas mais um “peixe” que andou fora das águas nacionais há vários meses, agora tenta descer os rios rasos do País para recolher ao “viveiro”, mas qual é o problema?

Pelos vistos este peixe assusta muita gente, visto que, querendo entrar nas águas nacionais, repito, e qual é o problema, porque tudo tem solução, vamos indo e vamos vendo, para diante é o caminho.

Sabemos que o mar está cheio de perigos, também de inimigos separados por interesses materiais distintos, todos andam à caça um do outro para um ajuste de contas, talvez à catanada, paulada, à esferográfica pela competência ou até com arma de fogo, infelizmente. Esperamos que haja bom senso, sensatez, solidariedade e compaixão entre cidadãos, vamos estando atentos porque o pior pode vir a acontecer, esperemos que não, se Deus quiser.

Mas o Zé-povinho persiste e propõe diálogo entre as partes, com cedências em matérias que exigem consenso nos projectos de desenvolvimento sustentado num futuro que já é hoje, assentes numa mudança de mentalidade e no respeito pela democracia no aparelho de Estado.

Desde “tubarões a crocodilos”, todos eles são radicais e perigosos. Porque na verdade não se adaptam em terras de Justiça e de Democracia, por isso mordem quem não lhes agrada. Cada vez que acontece temos resultados de abuso de direito cometidos no meio social, mortes por crime de sangue, óbitos que nos habituaram a ouvir dizer ou a vermos acontecerem ciclicamente no País e a permanecerem impunes.

Ambos os tigres do mar que já não dormem sossegados há imenso tempo, o sono fugiu-lhes por incompatibilidade com o meio ambiente vivido, onde cada um se encontra inserido, tudo por incapacidade de racionalizar a natureza deste desespero de cada um, perante a nova realidade do País e provocada pelos mesmos de sempre, visto que todos têm contas a prestar/ajustar com o Povo e alguns deles até com a Justiça Guineense.

Lembramos que um ladrão que rouba ladrão, ao contrário do que se pensa, não merece perdão, deve ser julgado e, se condenado, fazer companhia ao outro ladrão na prisão, e nunca em liberdade, só.

Nem tudo é visto como um acto de coragem (matchumdady), mas aqui enfrentar a Justiça é um acto de muita coragem.

Esperemos que uma vasta equipa de corruptos que decapitaram o nosso País em vários governos, venha a prestar contas com o Tribunal. Embora duvide que este acto Institucional traga algum resultado material e financeiro para o País, tendo em conta que as transferências deste “bolo-gigante”, desaparecido ao longo de décadas, esteja em fatias, distribuídas ou espalhadas nos quatro cantos do mundo.

A não ser que a Guiné-Bissau peça ajuda à – INTERPOL – para uma investigação Bancária a nível internacional, com o único objectivo de recolher os montantes desviados e devolvê-los ao Povo legítimo, todo esse dinheiro que ainda seja possível descobrir o seu paradeiro seja trazido de volta para Casa, só.

Hoje, no País, o ambiente político está a aquecer progressivamente, num panorama de lutas partidárias pela sobrevivência dos líderes habituais da praça, com congressos e candidaturas presidenciais. Paralelamente, há outras guerras ocultas, subterrâneas, e mais perigosas, porque vemos homens mergulhados na tentativa de soltar e proteger o tubarão maior do anzol que se encontra atravessado no seu caminho.

Há cerca montada à medida destes adversários que ao chegarem à superfície, não admira que estejam preparados para causar enormes estragos à “dentada”, para se safarem do inimigo.

Matam se for preciso, sem nada a perder, por isso, são capazes de matar para sobreviverem sem inimigos à vista, sem adversários políticos ou críticos, matam sem complexos de consciência ou medo, não o fazendo nunca directamente, mas por encomenda, pois facilmente vão eliminando as provas neste reino do estado de impunidade que se vive no País.

Retirar da água um tubarão desta natureza política não é tarefa fácil, todo o cuidado é pouco, porque um tubarão ao sentir-se encurralado, vai perceber que perdeu as defesas perante um crocodilo atento, forte, violento e mais rápido nos rios do que nos mares, estando sempre em vantagem se lutar na lama ou nas águas do rio, no território nacional.

Se o confronto entre os dois for no rio, o tubarão perderá a luta, e uma vez no banco dos réus, com existência de acusações graves de crimes de sangue nos tribunais do País, haverá outros confrontos em Sede própria, e talvez por aqui, venham esclarecimentos que o Povo quer ver, preto no branco.

Tudo isto faz saltar a tampa deste tacho cheio de tubarões em fúria, fartos de águas internacionais, daí o perigo de cometerem estragos materiais imprevisíveis ao evitarem ser capturados e impedidos de controlar o poder no País, uma vez que são candidatos a “rei” dos mares e rios da Guiné-Bissau, um sonho legítimo de virem a ser “chefe-mas-pouco”, esta ambição que pode acabar mal, dado os conflitos existentes e mal resolvidos até hoje no País. Mas cada cabeça sua sentença, porque candidatar ou entrar no País é um Direito natural que qualquer cidadão Guineense tem no uso da sua liberdade pessoal, desde que não haja um impedimento Jurídico.

Há vontade popular de travar qualquer reacção que ponha em causa a tranquilidade do País. Este anzol-do-Povo atravessa a garganta de quem morder a isca, atraído mais uma vez pela carne “mal passada”, apetitosa, pronta para adormecer o “adão” à boca da urna, e talvez ficar preso num nó cego do lençol que pode ainda vir a ser a mortalha, guardando eternamente qualquer “peixe”, independentemente do tamanho, sexo ou apelido, e sendo ou não reconhecido na praça de Bissau.

Hoje, não há dúvidas depois do que vimos acontecer ao nosso Guerreiro lendário do PAIGC (assassinado enquanto Chefe de Estado da República da Guiné-Bissau) que alguém, seja ele quem for, possa escapar a semelhante execução de morte no mesmo terreno, pois que qualquer “visado” será sempre um alvo frágil e fácil, desaparecerá num flash como um pingo de sangue na areia, sem tempo sequer para oferecer resistência, disto ninguém tem dúvidas, penso.

Quem mandou matar – Nino Vieira – por exemplo, deve/m imaginar que também ele/s próprio/s, não terá/ão quem o/s defenda na hora “acertada”, penso.

Nesta “guerrearia” entre tubarões e crocodilos, aquele que se soltar do anzol ou vencer o adversário, será que seguir em frente ou retrocederá para evitar nova guerra?

Será que desiste de lutar para ser “eleito” o rei dos rios e mares da Guiné-Bissau ou será que recua desta corrida política e resolve enfrentar primeiro os Tribunais, sem colete à prova de justiça!?

É bom lembrar que neste processo nunca haverá um único culpado, por isso, haverá sempre mais do que um, e ainda mais um, sucessivamente até chegarmos ainda mais longe do que possamos imaginar. Costuma-se dizer que “quem procura, encontra”…

Da última vez, foi por um triz que alguém escapou da morte, a sorte divina evitou a sua captura fatal e pôde escapar para viver em liberdade, mas longe da sua Terra.

Parecendo este acontecimento uma superstição, foi o que testemunhamos nos ecrãs da TV, quando vimos um animal morto numa poça de sangue e estendido no território do seu dono, em sinal de ter lutado em defesa do amigo, o cão fiel oferecendo a própria vida tomando a morte do seu dono. Lembrando um ritual espírita onde sacrificam o animal como forma de pagar promessas, o que parece ter evitado esta morte quase certa do dono (coincidência ou não, pouco importa), oferecendo seu próprio sangue derramado no chão da casa, em troca da vida do seu amigo. Guardado até ao último segundo, dando em troca a sua própria vida, foi travado por balas disparadas que o calou para sempre, numa coincidência que mais parece uma superstição se interpretada segundo usos e costumes da Terra, será?

Sorte e sinais foram deixados por este animal que talvez não se repita mais neste quadro, este cão de cerimónia espírita, já partiu, resta  saber se haverá outro substituto com esta mesma determinação, penso que não.

Agora só com gatos pode “caçar”, e porque dizem que este tem sete vidas, o problema é verdadeiramente este número 7, serem sete vezes vida, antes de morrer!?

Pode dar-se o facto de nunca saber qual das vidas guarda só para o dono, ao contrário do cão, que tinha só uma vida e não hesitou em lançar-se ao barulho nesse dia, e sem contrapartidas materiais, morreu.

Ainda me lembro de muitas histórias infantis de Nha Mamkemko, uma grande senhora já falecida, era amiga dos meus pais, quando visitava a família, enchia o ambiente infantil em casa com histórias lindíssimas que só ela sabia inventar, contadas como mel a pingar, palavra por palavra, nos nossos olhos, ouvidos e boca.

Mas hoje, sabemos que um cão, infelizmente foi morto a tiro de verdade, sem fantasia ou figura de estilo, tombou realmente sem fazer nada de mal perante a fúria dos homens armados, e perguntamos, haverá mais mortes para fechar este ciclo de caça entre tubarões e crocodilos desavindos, e até quando?

Esta sobrevivência fora da água para qualquer um deles é completamente difícil acontecer sem haver merdas, talvez não seja impossível, mas tem os seus custos elevados. Enquanto que na água podem flutuar ou passear por águas profundas, em terra, são todos reconhecidos com a aparência inofensiva do costume, mas perigosos ao mesmo tempo, consoante a farda camaleónica que envergam, assim mudam de ideias, atitudes, demonstrando pouca convicção, para traçar uma convivência pacifica e democrática no País.

Estamos cansados de identificar sepulturas sem nome, sem número ou de constatar desaparecidos sem deixar rasto, queremos simplesmente viver em PAZ e HARMONIA numa sociedade cada vez mais justa, cuidando uns dos outros, só.

Como sempre camaradas, mais um artigo de reflexão que aqui vos deixo, sou o seu único responsável, com o propósito de sempre, pensar humildemente a Guiné-Bissau de todos nós…

Djarama. Filomeno Pina

**Nota do Editor: as opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade de cada autor e não reflectem necessariamente a linha editorial da GBissau.com.