Opinião: Repensar o nosso papel enquanto cidadão

Por Luís Barbosa Vicente | luis.barbosa.vicente@gmail.com

O importante é pensarmos nos outros e não tanto em nós

Enquanto não entendermos que a honestidade é a melhor diplomacia, jamais seremos capazes de refrear os nossos anseios e enfrentar, com determinação e coragem, os desafios que a vida nos proporciona.

Esta reflexão não só se aplica a nossa vida em particular, como também coletiva e associada à participação cívica e política, livre e desapegada, enquanto povo que perfilha objetivos e interesses comuns.

Daí salientar que tudo o que tem acontecido na Guiné-Bissau não fosse a mera ausência de uma cidadania forte e exigente, talvez deveria ser repensado o nosso papel no quadro do que tem sido a nossa capacidade de analisar e compreender corretamente o exercício do poder.

Hoje, mais do que nunca, impõe-se que a participação cívica e política seja a base sustentável para uma reforma séria e profunda do conceito Estado e Nação Guineense.

Na realidade, manifestamos as nossas angústias e projetamos a nossa confiança no dia de amanhã, ou no que virá a seguir, esquecendo-se que talvez o momento é agora, a participação cívica e política é agora e que tudo deverá ser feito agora e na base de consensos, tendo como pilares a educação (lato sensu), justiça, organização e disciplina. No entanto, só entenderemos a amplitude destes conceitos se tivermos em conta que a educação permite moldar o comportamento dos indivíduos para uma ordem coerente com o bem coletivo, evitando dessa forma quem persegue unicamente os próprios interesses particulares e reprováveis.

Em boa verdade, o País tem vindo a confrontar-se com uma lógica dominante e característico do sistema, o da especialização em “aldrabice”. Esta lógica foi alimentada durante muitos anos, triunfando assim o mal sobre o bem e aniquilando quaisquer expetativas de que a Nação deveria assentar-se sobre os pilares da justiça, da educação e da formação do homem guineense.

Na nossa sociedade é muito mais fácil criticar do que valorizar, denegrir do que engrandecer, e este tem sido o método utilizado desde a luta de independência até à presente data, criando dessa forma espaço para promoção de indivíduos e de situações como as que tem acontecido de alguns anos a esta parte. Cada vez que surgem falhas no processo de afirmação democrática, automaticamente surgirão indivíduos capazes de utilizar esta falha como proveito próprio e de uma forma abominável.

De quem será então a culpa e/ou responsabilidade? Obviamente de todos nós!

Por isso, é preciso compreender que a virtude cívica está intrinsecamente vinculada à educação. Não são qualidades que nascem com o homem, mas são cultivadas nele através de um processo formativo. A educação pode tanto formar homens dotados das virtudes imprescindíveis para ser um bom cidadão quanto pode fazer dele uma pessoa fraca e arrogante. De alguma maneira os homens são o que a educação fez deles, como bem dizia Nicolau Maquiavel.

Alguém acredita que os que têm governado o País nestes últimos 40 anos são produtos do divino? Claro que não! São produtos gerados por nós enquanto sociedade e povo, pois não conseguimos entender que a essência está na formação do individuo enquanto ferramenta de afirmação de uma nação, esta dada pela educação. É urgente mudar, mas deve ser igual para todos, assim como as oportunidades também devem ser iguais para todos.

Torna-se imprescindível e urgente proceder ao exorcismo da guerra, das ideologias e da singularidade, no sentido de libertar os nossos medos e anseios daquilo que deveria caraterizar a qualidade de cidadãos como um todo.

Talvez seja até necessário refundar o Estado e a Nação, mas então que seja feita rapidamente. Essa refundação deverá ser feita sobre o condão da justiça, defendida por cidadãos com responsabilidades e competências necessárias, que defendem a subordinação dos interesses particulares ao bem púbico, que combatem a tirania e que alimentam o desejo de atingir a glória e a honra para si e para a pátria.

Mas para que isso aconteça é urgente fomentar a cultura do homem guineense com o essencial de patriotismo e virtude cívica, pois desenvolvem nele as capacidades de servir a pátria até com a própria vida, se necessário, pois onde há homens de bem impera a democracia e o sentido de pertença.

É sobejamente discutido e reconhecido o falhanço na edificação do Homem Guineense e pouco se tem feito no sentido de corrigir isso. Será que não existem homens e mulheres a altura deste ideal patriótico?

Claro que existem, apenas devem saber ocupar o seu espaço e afirmarem-se naquilo que mais sabem fazer, cada um na sua área e especialidade, nomeadamente, carpinteiro, pedreiro, camponês, serralheiro, médico, economista, engenheiro, gestor, professor, etc., mas todos imbuídos de um único propósito: Guiné-Bissau em primeiro lugar!

 Em suma, é necessário dotar o País com homens e mulheres que façam da vontade do povo a sua força, a carência a sua justiça, para que estes não sejam privados de esperanças.

O importante é pensarmos nos outros e não tanto em nós! LV

09/09/2013

**Nota do Editor: as opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade de cada autor e não reflectem necessariamente a linha editorial da GBissau.com.

3 Responses to Opinião: Repensar o nosso papel enquanto cidadão

  1. duno di si distino diz:

    Se houvesse 50 por cento de Guineenses a pensar como este homem estaríamos já descolados de muitas enigmas

  2. ALUQUE diz:

    Lucidez incrivel!

    Como poderia eu fazer conque 70% dos Guineenses se informasem percebessem do que o Sr Luís Barbos Vicente escreveu aqui.

    Obrigado pelo tempo, reflexão e capacidade que dedicou a causa nacional!

    Obrigado!

  3. Adao Nhaga diz:

    Ola Luis td bem? agradeço imenso por ter feito analise real da situaçâo do pais, e soluçoes possiveis para estabilizaçâo.

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