Grande Entrevista: “Guiné-Bissau está de parabéns” – José Ramos-Horta

Bissau (GBissau, 26 de Abril de 2014) – O Representante Especial das Nações Unidas na Guiné-Bissau vai ser substituído no final do seu mandato no final do mês de Junho deste ano.

Quem o disse foi próprio José Ramos-Horta, numa entrevista esta semana com a GBissau. Caberá ao Secretário-geral da ONU e ao Conselho de Segurança da organização a escolha da figura que substituirá o antigo presidente timorense.

Ainda de acordo com o representante da ONU, o mandato do Escritório Integrado das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau (UNIOGBIS) que termina no próximo mês de Maio, será prolongado por mais um ano.

José Ramos Horta, premio Nobel de Paz, foi indigitado ao cargo a 2 de Janeiro de 2013 e nos últimos 15 meses tem-se dedicado à diplomacia e mobilização de apoios financeiros para a Guiné-Bissau, o que culmina agora com a realização das eleições gerais e o fim do período de transição.

Nesta entrevista com a GBissau, Ramos-Horta falou de vários tópicos, nomeadamente os êxitos do recenseamento eleitoral e do processo eleitoral.

O diplomata timorense também falou do seu desejo de ver sagrado um “Pacto de Regime”, mas reconheceu ser da exclusiva competência do futuro primeiro-ministro formar qualquer governo que bem entender.

Eis os aspectos mais importantes desta entrevista com José Ramos-Horta:

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau em visita à Quinará, Fevereiro 2014

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau em visita à Quinará, Fevereiro 2014

GUINÉ-BISSAU ESTÁ DE PARABÉNS

  • Houve uma grande civilidade dos eleitores, partidos e candidatos nas eleições gerais

“O Povo da Guiné-Bissau e os seus líderes, quer o Governo de Transição, incluindo o Presidente Serifo Nhamajo, o primeiro-ministro Rui Barros que estiveram à cabeça desta transição difícil, mas também todos os intervenientes políticos, partidos políticos e os candidatos e a sociedade civil estão de parabéns.

Primeiro, foi o sucesso do recenseamento eleitoral, quase 95% de eleitores registados e uma participação de um pouco mais de 80%. Ambos os números absolutamente recordes na história da Guiné-Bissau comparativamente ao qualquer país do país.

Por outro lado o que é também extremamente importante como decorreu todo o processo da campanha eleitoral pelos partidos, pelos candidatos.

Aliás, verifiquei com os meus próprios olhos. Aliás, quem esteja em Bissau e vá à Praça do Império vê que de um lado esta a sede do PAIGC, sempre com muita azáfama ai, mas logo a seguir ali está a sede da campanha do candidato Independente Nuno Nabiam, para não dizer que logo a seguir está o Palácio Presidencial. Tem ali apenas uma guarda muito ligeira. Não há armas pesadas, enfim pânico, etc. Nunca houve qualquer incidente entre os dois grandes partidos apesar de estarem ai com alguns metros de distância

Eu não conheço nenhum país do mundo onde isto acontece com total civilidade e tranquilidade. Por isso fiquei encantado com o comportamento do povo guineense neste processo ainda não concluído, temos agora algumas semanas pela frente para a conclusão da segunda volta das presidenciais.

Entre nós os timorenses, comentámos sobre a grande civilidade dos guineenses e queriam absorver algumas das lições desta civilidade durante as campanhas eleitorais em Timor Leste, não só, mas também na nossa região da Ásia, nomeadamente nas filipinas, na Tailândia, na indonésia e em tantos outros países da Ásia, na índia, em Paquistão, onde a democracia é muito dinâmica, mas talvez por serem enormes, estamos a falar de milhões, de milhões, de milhões de participantes é mais difícil gerir, mas seja como for, a Guiné-Bissau é um modelo”.

ELEIÇÕES FORAM LIVRES E DEMOCRÁTICAS

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau do dia das eleições gerais, 13 de Abril 2014

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau do dia das eleições gerais, 13 de Abril 2014

“Veja o Presidente da Comissão Nacional de Eleições, ao anunciar o resultado definitivo das legislativas e presidenciais da primeira ronda, disse que não houve uma única reclamação oficial, ao contrário do que aconteceu no passado.

E as reclamações de fraude [nos escrutínios anteriores] contribuíram para a interrupção da eleição para enfraquecer o elenco eleito. Neste caso não houve uma única reclamação, segundo o Presidente da Comissão Nacional de Eleições”.

A IDEIA DO PACTO DE REGIME

“Seria o ideal e não está tudo perdido em relação ao Pacto de Regime, apesar de devia ter sido antes das eleições legislativas e da primeira ronda, mas é preciso fazer agora logo a seguir às eleições. Portanto, eu creio que o partido vencedor sentindo-se mais forte e mais tranquilo após as eleições pode ter essa atitude de vitorioso, vitorioso com um sentido de Estado, de convidar os seus parceiros políticos de subscreverem um pacto após eleições. Eu não tenho problema com isso.

Devo dizer, uma coisa é minha opinião, enquanto o Representante do Secretário-geral, enquanto José Ramos-Horta, do que acredito seria a melhor estratégia política para a Guiné-Bissau para os próximos cinco anos, que seria um governo mais inclusivo possível, outra é a análise e a decisão feita por quem de direito que é o primeiro-ministro eleito. Não falo da minha preferência de um governo mais abrangente da forma a pressionar quem for. É apenas uma ideia colocada para se estudar.

O primeiro-ministro tem toda a legitimidade para decidir que tipo de Governo, que gente, que qualificações, que critérios é que vai compor o próximo Governo. E qualquer governo que for inaugurado em Junho, a comunidade internacional apoiará. Qualquer Presidente que for eleito e inaugurado, a comunidade internacional apoiará. Não nos a cabe a nós decidir se vamos apoiar este governo ou aquele. Não temos preferência. A nossa preferência foi que o regime novo saía das eleições livres e democráticas e estas eleições têm sido talvez as melhores desde sempre”.

O QUE SERIA UM PACTO DE REGIME?

“Eu diria que [um Pacto de Regime] seria em que os partidos, as forças políticas assumem um compromisso, um pacto de nos próximos cinco anos tentarem, primeiro, uma base governativa mais alargada possível. Obviamente não seria apenas com os partidos com assentos no parlamento, o primeiro-ministro pode decidir convidar algum ou outro independente, mas assente numa estratégia consensual cujos pilares fundamentais não têm que ser reinventados. Já foi a base do trabalho do DENARP [DOCUMENTO DE ESTRATÉGIA NACIONAL DE REDUÇÃO DA POBREZA] dos estudos do planeamento estratégicos do país, pilares como a educação e a saúde, a agricultura e a segurança alimentar, pilares como as infra-estruturas e as comunicações, pilares como os recursos humanos e recursos estratégicos e pilares como a modernização e a reforma da administração pública, a reforma e a modernização das Forças Armadas.

Tem que haver consensos à volta disso para que todo o Povo, todas as forças políticas se mobilizam nesta grande estratégia Nacional. Não me parece que o que eu citei, os pilares possam evocar oposição porque não estamos aqui a redescobrir nada.

Há muitos anos que se pensou nessa estratégia. Ora, a questão que se punha e que se põe hoje é quem vai executar essa estratégia — como uma única força política mais votada nas últimas legislativas ou uma combinação das forcas politicas e de personalidades. Isto de novo,enfatizo, é da competência exclusiva do primeiro-ministro eleito”.

RECEIOS, BOATOS E A NECESSIDADE DE UM DIÁLOGO PERMANENTE

“O que verifiquei aqui na Guiné-Bissau e os irmãos guineenses, amigos o relatam também, é o fenómeno dos rumores e dos boatos. E que se a Guiné-Bissau pudesse exportar boatos como um produto industrial, a Guiné-Bissau seria riquíssima. Esses boatos são as vezes inocentes e tão absurdos que qualquer ser humano com uma mínima inteligência não acreditaria, mas há outros provavelmente deliberados para semear o medo e desestabilizar.

Nós estamos a analisar, estudar esses boatos, donde vêem e porquê surgem, é esse o nosso papel. Estamos a tomar medidas e quais são as medidas? São medidas de prevenção que passam essencialmente pelo diálogo. Quando não há diálogo entre os líderes políticos, entre as instituições do Estado, os boatos começam às vezes ganhar a vida própria e cada lado começa a acreditar nos boatos e começam a desconfiar do seu parceiro, do seu adversário, etc., etc.

Então, chegamos a um espiral de tensão e daí que tenho-me reunido com a Sua Excelência, o Presidente Serifo Nhamajo, com o primeiro-ministro, com todos os partidos políticos, nas últimas semanas, nos últimos dias, para ver como devemos promover contactos, dialogo frequente entre os lideres políticos, entre os últimos dois candidatos [à segunda volta das presidenciais], com as chefias militares para que como guineenses conversem e ponham tudo na mesa sobre o que lhes preocupam, as suas ansiedades, os seus receios, as informações que têm para que ninguém se desconfie de ninguém, para que se abracem como guineenses e dêem uma oportunidade ao seu país, ao seu Povo de sair desta crise.

Portanto, o único instrumento que nós temos de pretensão e de defesa contra o aspecto negativo e desestabilizador de boatos que causam a ansiedade é o dialogo franco entre os guineenses”.

 

MENSAGEM AOS POLÍTICOS, GOVERNO, PRESIDENTE E AO POVO DA GUINÉ-BISSAU

“A minha mensagem para este período crítico em que vamos entrar na campanha para a segunda volta é continuarem todo o esforço para manter o prestígio, o bom nome já recuperado da Guiné-Bissau em que os políticos guineenses, os militares quando querem, quando assim desejam, podem comportar-se com exemplaridade.

Este processo da primeira fase das eleições ilustrou o que os guineenses podem fazer quando o querem fazer, com civilidade, sem violência, sem ameaças. Houve alguns incidentes e algumas ameaças que nós ouvimos, mas são coisas de pouca montra.

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau em visita ao Tombali

José Ramos-Horta, Representante Especial da ONU na Guiné-Bissau em visita ao Tombali

Primeiro, portanto, continuem — todos os guineenses e os militares — para com este processo concluir com a máxima transparência e fraternidade.

Em segundo lugar, todos sabem que não haverá um partido único, não haverá um pequeno grupo de pessoas que podem resolver os problemas enormes e os grandes desafios acumulados ao longo das décadas aqui na Guiné-Bissau.

O próximo governo terá que saber governar em clima de total tranquilidade. O próximo Presidente espero que venha a ser um Presidente que procure o diálogo, que procure criar um clima de tranquilidade no país para que o Governo possa governar.

O próximo Governo, o próximo Presidente têm que ser muito dialogantes e entre eles e a instituição militar, entre eles e a Assembleia Nacional e entre eles e o Povo, o diálogo terá que ser permanente.

Nesta família pequena de um milhão e seiscentos mil é possível haver um diálogo permanente em que todos participem. O projecto de reorganização do Estado guineense, da reorganização da administração pública, das reformas que têm que ser feitas, o combate à corrupção e à má gestão têm que ser uma obra de todos, em que todo o Povo é mobilizado pelos seus líderes, mas líderes que estejam unidos nesta visão e neste objectivo”.

UNIOGBIS E O FUTURO DE JOSÉ RAMOS-HORTA

“Certamente o Conselho de Segurança vai prorrogar a UNIOGBIS por mais um ano. Eu termino o meu actual mandato, as minhas responsabilidades no dia 30 de Junho. Tinha sido prorrogado de Fevereiro a Junho [de 2014] e portanto o senhor Secretário-geral vai designar um outro Representante Especial para a Guiné-Bissau. Não é uma questão de eu estar interessado ou não, o meu coração está na Guiné-Bissau e onde eu estiver seja em Timor Leste ou nalgum outro país, exercendo funções para o meu país, ou para a comunidade internacional, continuarei a cooperar com a ONU ou com a CPLP.

Não esqueçamos que o Timor Leste vai assumir a presidência da CPLP a partir de Junho deste ano e a Guiné-Bissau está no topo da agenda de Timor Leste na presidência timorense da CPLP.

Portanto, neste sentido, dando todo o apoio à presidência timorense na CPLP, dando todo o apoio ao Representante Especial do Secretário-geral, ajudarei a mobilizar recursos para a Guiné-Bissau”.

OUVIR AQUI – Grande Entrevista em áudio: “Guiné-Bissau está de parabéns” – José Ramos-Horta

 

6 Responses to Grande Entrevista: “Guiné-Bissau está de parabéns” – José Ramos-Horta

  1. António Pereira diz:

    O que verifiquei aqui na Guiné-Bissau e os irmãos guineenses, amigos o relatam também, é o fenómeno dos rumores e dos boatos. E que se a Guiné-Bissau pudesse exportar boatos como um produto industrial, a Guiné-Bissau seria riquíssima. Esses boatos são as vezes inocentes e tão absurdos que qualquer ser humano com uma mínima inteligência não acreditaria, mas há outros provavelmente deliberados para semear o medo e desestabilizar”
    Subscervo este paraágrafo. Admiro a capacidade do Sr. Ramos Horta, em pouco de estar na Guiné ser um conhecedor da profunda realidade. Dianósticco de todas as causas de instabilidade e desconfianças entre guineenses.Não pode haver melhor verdade que esta.

  2. António Pereira diz:

    Errata:Subscervo=subscrevo
    em pouco=em pouco tempo de esrtar na Guiné
    O parágrafo transcrito, esá entre aspas

  3. Mauricio Amin diz:

    Antes gostaria de agradecer este ilustre homem pelo grande trabalho que vem fazendo no nosso querido Guine- Bissau, (José Ramos horta). espero que(ONU)prolongue o trabalho dele na Guine Bissau por mais 04 anos no minimo, assim ajudaria na reforma das nossa Gloriosa Forças Armadas Revolucionários do povo (FARP) e da política e os políticos, alis, não e pura caso que Ele foi Eleito premio Nobel de Paz.lembrando com estas possível reforma seria algo muito importante para desenvolvimento da Guine Bissau, sem tais reformas impossível sonhar com desenvolvimento sustentável da nossa querida Pátria Amada algo indesejado. Nasce e cresse na GB, sempre o vindo os intelectuais Guineenses na altura, dizendo que: problema da GB, não vai ser resolvido por pessoas estrangeiro (s), mas sim, por nos mesmo Guineenses. A pergunta é, pelo que tudo indica, dá para acreditar que esta afirmação e verdade???

  4. Udé diz:

    José Ramos Horta, um homem incorruptivel, com visão próprio e determinante. Graças a este senhor, pela força de sua influência, o nome da Guiné-Bissau saiu do lamaçal de Narco Estado e justamente. Enfatizou a necessidade de tratar e dar oportunidade a Guiné-Bissau como se cistuma fazer com Estados frágeis que precisam de apoio para se restabelecer. Muita falta este senhor vai fazer. Queira Deus que, esteja ele onde estiver, tenha força e possibilidade de exercer a sua influência para ajudar este país. Que tenha vida longa e muita saúde, pois se dedicou para este país como se fosse o seu. Que Deus lhe abençoe, José Ramos Horta

  5. Abdul Carimo Seidi diz:

    Os guineenses sao muito maduros por isso, Sr Dr Ramos Horta, pode dormir descansado porque o fenomeno “mentiras” ou “boatos” – diplomaticamente falando ja nao incomoda a ninguem. Enquanto alguns vao pondo em causa as suas proprias reputacoes em criar/espalhar falsos rumores, o que preocupa a esmagadora maioria dos guineenses neste momento e como saldar a pesada divida que contraimos com o notavel contributo que o “ex-timorense” agora (mais que) conterraneo nosso tem dado a esta patria. Ja deixou saudades antes de partir. Fique irmao, por favor! Aquele abraco

  6. Bobiry diz:

    Va com Deus Mr R.Horta. Obrigado por tudo, vai e nao volte nunca mais!

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