Opinião: Porquê comemorar o 24 de Setembro?

Para um povo que está a viver numa situação (social, económica e política) muito aquém de suas expectativas, é comum a sensação de frustração que o leva a questionar tudo à sua volta e comparar a sua situação com os que têm melhor sorte. E isso torna-se evidente e conveniente quando o que se espera é o mínimo necessário para levar uma vida digna e aprazível.

Por Udé Fati | udefaty@hotmail.com

Desde o dia 24 de Setembro, o glorioso setembro citado pelas vozes melífluas dos nossos predilectos cantantes, em todas as estações radiofónicas do país ouvi com melancolia o balanço dos 40 anos da Guiné-Bissau como Estado. A mágoa sentida é fruto de escassa melhoria da condição social dos guineenses mas, sobretudo, do questionamento desse troféu que fora conseguido no mais grandioso sacrifício que o Homem guineense conseguiu.

Peço desculpa aos que pensam diferente e compreendo porque às vezes a raiva é a mais pura demonstração do carinho da pertença, mas eu vejo motivos para comemorar esta data.

Eu comemorei a data 24 de Setembro, comemorei em particular os 40 anos da Guiné-Bissau;

Comemorei a UNIDADE, LUTA E PROGRESSO que demonstrou o alcance da coesão social conseguida através de um povo, na altura, quase totalmente analfabeta;

Sim comemorei a cor da bandeira, verde de flores de Setembro e de esperança, amarela de Abel Djassi e vermelha de sangue dos nossos heróis e a sua estrela negra que representa a África e nos simboliza no concerto das nações;

Sim comemorei Esta é a Nossa Pátria Amada, o nosso hino, os lindos e sábios versos ali contidos que com honra aprendi a saudar onde quer que o oiço;

Sim comemorei, comemorei: a honra dos nossos gloriosos combatentes que deram a vida, a juventude para a dignidade do nosso povo e o hastear da nossa bandeira; Para que os que derramaram  seu sangue para o erguer da cabeça do seu povo não baixem as suas e vertam lágrimas de arrependimento pela árdua conquista desbaratada.

Comemorei e vou comemorar a afirmação do guineense e o nascimento de um Estado-novo- comemoro a NOSSA INDEPENDÊNCIA.

Esta independência que mais tarde permitiu a possibilidade de mais vozes e correntes de pensamentos e a denúncia dos desvios na caminhada.

Não comemorei o câncer de impunidade que assola qualquer homem civilizado; não comemorei a corrupção legalizada e o perigo social de um mal tido por normal; não comemorei a mutilação dos ideais traçados na luta; não comemorei o assassinato dia após dia das nossas crianças (violação de direito à educação); não comemorei a epidemia de todo um sistema de saúde; não comemorei a escuridão nas ruas de Bissau e o luxo de água engarrafada que todos não podem procurar; não comemorei o fraco poder de compra galopante com que toda a população – subordinado e camponês- está a deparar com ele; não comemorei a ausência de uma liderança afirmativa, positiva e responsável que o povo precisa; não comemorei e nem comemorarei a opaca esperança no futuro com que se depara ao olhar para todos os horizontes à partir desta conjuntura.

O nascer da Guiné-Bissau como país é em si comemoração. Comemoração de ser livre, de lutar para a construção de uma nação justa, independente e próspera. Comemoração porque os nossos pais merecem a satisfacção de têm cumprido os seus deveres (programa menor) com honra e altivez. Cabe a nós cumprirmos com o nosso dever (programa maior), a inépcia do qual não nos dá direito de tirar o mérito dos outros.

Udé Fati

Paz e bem

 

Nota do Editor: Este artigo de opinião não reflecte necessariamente a linha editorial da Gbissau.com

7 Responses to Opinião: Porquê comemorar o 24 de Setembro?

  1. Mamadu sila diz:

    Grande ideologia moral.

  2. Ubas diz:

    Em materia de comemoracao, tudo vale a pena se a mente nao for pequena.

    Orgulho-me de ti Ude. abraceijos

  3. Maurício Amin diz:

    Sem muita coisa a comentar, vendo uma Mulher Guineense chegar onde chegou Udé Fati, para mim e um sinal de que desigualdade entre sexos deve diminuir na GB bastante. Parabéns Querida apesar de não Te conhece, fiquei muto contente de Você ter conseguido resumir os 40 anos da independência numa pagina tão pequeno como este. impressionante a sua sabedoria.

  4. mario imbana diz:

    Despenço os comentários e subescrevo por de debaixo o que ela disse. Afinal temos mulheres intelegente!. Em poucas linhas resumiu em termos gerais o que foi os últimos 40 ans lapidados pelo partido africano da independência da guine e cabo, na perseguições dos seus adversários politicos á guinê torna -se um caos com maior índice da corrupção até ao mais alto nivel. A injustiça prevaleceu e subtração do bem públic, esta mais bem patete e os individuos à solta. Os crimes sem serem julgados isto tudo, foI o governo do P.A.I.G.C. do então, agora veremos ” maybe “será este governo diferente com um jovem no topo e com ideias contrária aos seus antecessores ? Espro que Deus te ajude nesta nobre e dificil caminhada pela frente, é com muita pena fez uma dupla com pessoas com manchas de corrupção.Os 40 anos resumem-se pela mà
    governação e perca de visão
    e sucesivas ciclicais, subversivas da ordem constitucional democrática baseadas nos interesses pessoas, esquecendo objectivo último que é a reconstruction national. Os interesses superiores da nação ficou aquém do expetado. Bom, agora temos um governo saidas das eleição legislativas que o povo da guine confiou uma maioria no parliament e para os próximos 4anos espera-se para ver mais tambem não guardar milagres.
    Tem todos prossupostos assegurados e todas as propostas da lei irão passar porque constitui uma maioria parlamentar.Uma coisa certa na democracia é o regime em que a maioria reconhece os direitos das minorias porque ela aceita que a maioria de hoje possa torna-se em minoria amanhã e ser sujeita a uma lei que representa interessrs diferentes dos seus mas lhe não recuse o exercicio dos seus direitos fundamentais.
    Muito obrigado minha senhora, pela sua intelegência a sua capacidade e visão de ver as coisas numa perspectivas diferentes.
    Bem haja a todos ate uma próxima opportunity!
    Bye!

  5. di bande diz:

    Sr. Mario Imbana! Os comentarios desnecessario; termina por reabrir as feridas saradas; ou que esta no processo cecratisasao. General MANE foi acessinado! Foi no mandato PAIGC ???

  6. joao baptista diz:

    Uma magnífica opinião, que soube fazer uma radiografia daquilo que tem sido o percurso feliz e infeliz da Guine Bissau desde a luta pela independencia aos nossos dias. orgulho-me por ter uma Guineense com sapiência.
    parabens!

  7. famara diz:

    Tiro chapéu para ela e para o que cada um opinou quanto o que ela disse. A humanidade é isso. É isso o que ensinou a luta armada de libertação nacional com a mais simples arma do povo : a língua crioula. Esse milagre que cada um falou para o outro como irmãos que suspiram e correm para o mesmo fim. Os 40 anos têm marcas, algumas delas más e algumas outras boas. Todas essas marcas não são para serem deitadas ao lixo. Ao contrário, elas devem ser esculptadas numa nova Guiné-Bissau sempiterna, onde todos os filhos respirem na mais forte guinendade sem ressentimentos étnico nem da classe. Eu vos adoro a todas e todos. Famara

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