Riqueza dos recursos naturais em Angola não chega à população – Financial Times

Londres (Lusa, 5 de Junho de 2014) – O jornal britânico Financial Times dedica hoje um extenso artigo de análise a Angola, apresentando o país como um exemplo dos casos em que a abundância de recursos naturais não chega à grande maioria da população.

O artigo, assinado pelos jornalistas Andrew England and Javier Blas, começa por refletir a semelhança da vida noturna em Luanda e no Rio de Janeiro para explicar que todos esperam que essa semelhança se revele também nas reservas de petróleo no pré-sal, uma espécie de camada por baixo do fundo do mar.

“Algumas das maiores companhias mundiais de petróleo estão a apostar milhares de milhões de dólares que Angola também tenha reservas similares”, que no caso do Brasil estão já comprovadas e quantificadas, lê-se no artigo, que diz que esta aposta “é crucial para o futuro económico e social de Angola”.

O problema, acrescentam, é que “ainda está por provar que a descoberta de mais reservas ajude a população de 20 milhões”, porque “se a história recente de Angola serve como guia, as expectativas são, no máximo, duvidosas; os petrodólares impulsionaram o crescimento económico mas muita da riqueza continua concentrada num pequeno círculo de plutocratas”.

O artigo cita depois o diretor da ONG Open Society Initiative no país, Elias Isaac, dizendo que “as pessoas sentem que as coisas estão a acontecer, mas não estão a acontecer de uma maneira justa, que beneficie realmente toda a gente”.

Ainda assim, escreve o Financial Times, “Angola enquadra-se na narrativa da ‘África em ascensão'”, fazendo um trocadilho com o nome da conferência organizada na semana passada pelo Fundo Monetário Internacional em Maputo.

“O país beneficiou de algumas das mais rápidas taxas de crescimento da economia no mundo na última década, crescendo 10,1% em média, segundo o FMI, mas também é um exemplo de vítima da maldição dos recursos: em vez de criar prosperidade económica universal, o petróleo tem ajudado a suportar o segundo Presidente há mais tempo em exercício em África e espalhou a corrupção, que mina o desenvolvimento económico”, escreve o jornal britânico.

Citando o filho do Presidente e diretor do Fundo Soberano a defender que Angola é um país recente, com apenas 12 anos de estabilidade e paz, e que as coisas estão a melhorar, o FT acrescenta que o desenvolvimento político não acompanhou o sucesso da economia.

O artigo refere as “abundantes alegações de que a corrupção enriqueceu os membros da elite, incluindo membros da família do Presidente, à custa da população”, e termina escrevendo que o Governo, apesar de estar a travar o poder da Sonangol, como quer o FMI, “ainda continua a usar a empresa estatal para operar projetos em novas cidades em todo o país, argumentando que a experiência de décadas da Sonangol na gestão da construção é valiosa”.

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