Opinião: Amílcar Cabral – O Problema da Descolonização dos Países Africanos

Amílcar Cabral foi basicamente um grande militante político, um grande homem, uma enorme referência numa conjuntura internacional, em que importava libertar os terrenos e dos territórios que estavam ocupados pelo sistema colonial. Era um engenheiro, mas um engenheiro com enorme sensibilidade as causas humanas. Foi capaz de pensar uma mudança significativa para Guiné, tendo em conta as várias vertentes: económicas, culturais, políticas e também deferentes interesseis dos povos em presença.

Por Emílio Tavares Lima, Escritor | miolindo@hotmail.com

Amílcar Cabral teve uma grande capacidade de pensar um projecto para a Guiné e grandes linhas de projecto de independência para os países africanos. Por isso ele continua a ser hoje uma grande referência.

É claro que o problema dos estados africanos não se resolve com uma pessoa, nem com os ideais de uma pessoa, é um problema muito mais complexo e efectivamente nós temos longuíssima tradição de Estados em África, mas esses são bastantes deferentes dos da Ásia ou da Europa. Normalmente, ainda hoje os Estados africanos estão muito fraccionados por identidades que é aquilo que designamos Identidades Étnicas. Não há na tradição africana uma religião universal que integrasse bem essas identidades e, por isso, ainda continuamos a ter alguns problemas interessantes. Por outro lado, o continente africano tem sido fraccionado por uma série de interesses internacionais, o que não tem ajudado nem facilitado a unidade dos diferentes grupos existentes nos países africanos.

A Guiné-Bissau é talvez o caso mais protótipo, uma vez que tem mais de vinte (20) grandes identidades com línguas e tradições próprias, o que torna muito difícil uma integração de todo o Estado guineense.

Não tenho dúvidas que se Amílcar Cabral fosse vivo, teria ajudado a construir novas ideologias mas comunitárias e mais integrantes. Pois, o espírito dele e a sua capacidade de liderança, certamente seriam extremamente úteis à Guiné, e seria um exemplo para outros países africanos.

Sabemos todos que a história da humanidade é muito diversa e o século XIX foi ainda de muita escravatura. À escala global, o continente africano foi um objecto importante desse movimento, desse comércio de pessoas designado de escravatura. O século XX foi já bastante deferente…teoricamente não havia escravatura, mas na prática sabemos que a exploração do continente por outros países, foi bastante grande.

Amílcar Cabral, ao centro, rodeado de guerrilheiras do PAIGC... Esta foto faz parte do Arquivo Amílcar Cabral, da Fundação Mário Soares

Amílcar Cabral, ao centro, rodeado de guerrilheiras do PAIGC… Esta foto faz parte do Arquivo Amílcar Cabral, da Fundação Mário Soares

O problema da descolonização não é tão novo como pensamos. Quando os Alemães perderam a primeira Grande Guerra, uma das consequências foi perder as colónias, e essas foram entregues a outros países europeus com a condição de as prepararem para crescerem e tornarem independentes. Em 1919 a Europa e o mundo reconhecem que a situação das colónias era transitória de forma a aumentar a capacidade de auto-governo dos próprios países. A seguir a Segunda Grande Guerra, como sabemos, a maior parte das colónias do mundo foi liberta: no sudoeste asiático, no sul da Ásia, na Índia, nos países Árabes, no norte da África. Tudo isso foi descolonizado e sobraram as colónias da África Negra. Por isso, em 1955, na conferência de Bandung, os países do mundo definiram que era fundamental libertar essas colónias. Portanto, a partir de fim dos anos 50 e início da década de 60 todas as colónias negras foram libertas, excepto as colónias portuguesas que estavam subordinadas a uma ideologia ainda muito imperial do Estado Novo em Portugal, mas todos os grandes países do mundo apoiaram essa libertação. Quem deu o apoio às lutas de libertação foram os grandes países como os EUA, a China, a Rússia, a Inglaterra. É claro que havia também nesses países interesses importantes que queriam continuar a exploração. Mas, globalmente o mundo já não aceitava as colónias; agora isso não retira nem a honra, nem a gloria dos lutadores para a independência. Mas de qualquer maneira as condições internacionais do mundo em 1960/70 eram claramente para a independência.

O que eu gostava que acontecesse é que os países africanos e nomeadamente a Guiné-Bissau fossem capazes, mesmo sem grandes líderes, de ter uma ampla participação e de perceber que os fenómenos políticos implicam a construção de novas identidades que envolve uma grande capacidade tolerância, de integração e de produção de riqueza, porque se não, não há recursos para se distribuir, e as vezes pensamos “ai se Amílcar Cabral ainda fosse vivo”, mas já morreu! Todos os nossos antepassados já morreram. Agora Cabe a nós, esta geração mais nova é altamente responsável por isso. Penso que podemos buscar alto testemunho e energia à memória deste grande militante político, que permite reconstruir o projecto da Guiné-Bissau e fazer dela um grande país, embora pequeno. Aqui, todos somos poucos para percebermos que a construção dos Estados africanos implica muito esforço, porque a cultura e a tradição africanas estão poucos preparados para Estados fortes. Entretanto, se calhar a própria concepção do Estado vai mudando e poderá ser adaptada às concepções que nós, os africanos, temos dele. De qualquer maneira, até lá, seria bom que os governantes Guineenses fossem capazes de perceber que só com grande esforço, tolerância e grande envolvimento podem construir um Estado realmente interessante para que todos vivam em paz, sossego, alegria e com os recursos mínimos para que possamos ter uma vida com qualidade que todos desejamos.

OBS: este artigo de opinião foi elaborado para um trabalho meramente académico e contou com uma colaboração do meu colega da faculdade Edson Ribeiro (Cabo-Verde)

Amílcar Cabral

Amílcar Cabral

POESIA: Amílcar Cabral 

 

padecemos horrivelmente de insónia

pelo desgosto do teu sonho mutilado

quem nos curará a dor fatal

de saudades da nossa terra natal.

 

pátria de realidade insólita

ambulante e sonâmbula

a segregação d’alma do povo

resume-se na dissolução do imperfeito

com a sede da perfeição com que sonhaste.

 

a súbita ausência da sombra

de vontade de acompanhar a modernidade

no fluir da monotonia da noite

alarga-se o canto da mundanidade

dessa mocidade cercada

numa cúpula de vaidade.

 

pátria onde as tuas finas

e iluminadas lágrimas

hão-de regenerar as pétalas

das flores esmiuçadas

nas andanças para lá das epístolas

por ti projetadas.

 

Autor: Emílio Tavares Lima

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