Homenagem: Prof. Fafali Koudawo, Reitor da Universidade Colinas de Boé da Guiné-Bissau

Acabo de saber do falecimento do colega e amigo Prof. Doutor Fafali Koudawo. Conhecemo-nos por volta de 2002 ou 2003 em Bissau. Desde daí mesmo que não falássemos com frequência, íamos sabendo um do outro. Academicamente, Fafali estava entre os melhores cientistas políticos com que eu me fui cruzando no mundo. A primeira vez que o conheci, eu era uma estudante de mestrado meia perdida sobre como estudar África.

Por Elisabete Azevedo-Harman, Chatham House

Cheguei a Bissau para ‘trabalho de campo’ e sabia a teoria, mas não sabia como fazer a tal ‘ investigação’. Ele, já professor, recebeu-me com o mesmo respeito e paciência como se eu fosse uma conceituada professora doutorada.

Recordo que primeiro falámos num gabinete. Formais. Aproximava-se a hora de almoço e ele convidou-me para almoçar. Com um sorriso de teste, perguntou-me se eu queria almoçar onde almoçam os investigadores europeus ou onde o povo almoça. Lá fomos a uma tasca no meio de um dos bairros pobres. Acho que esta minha escolha foi um teste que passei com sucesso.

Fafali Koudawo, ex-diretor da iniciativa Voz de Paz e INTERPEACE

Fafali Koudawo, ex-diretor da iniciativa Voz de Paz e INTERPEACE

A conversa entre nós ia desde de lições elaboradas de ciência política como a discussões com humor sobre o que se passava à nossa volta. Durante essas semanas em Bissau deu-me conselhos e livros e encontrámo-nos várias vezes. Num dos “encontros-aula” disse-me sempre meio seguro e tímido que íamos à casa dele. Lá fomos. Era uma “casa-escola” improvisada.

Dr. Fafali era do Togo, mas adoptou a Guiné-Bissau como o seu país com muito carinho. A casa dele nessa altura estava cheia de crianças. Percebi a casa mesmo sem mesas e cadeiras era uma escola. As crianças do bairro ali estudavam e ele que podia ser professor em qualquer das melhores universidades do mundo ensinava o ‘A’ e ‘B’ com a mesma dignidade e respeito de estar a dar uma aula em Harvard. Sem vaidade mostrou-me a ‘escola’. Passei ali um dia e o tempo voou.

Depois foram anos e anos de correspondência. Uma das vezes veio à Europa e conversámos. Nos corredores duma universidade europeia era um distinto Professor, mas sempre modesto. A última vez que o vi foi no dia do golpe de estado em Bissau em Abril de 2012. Eu tinha passado a tarde com ele na universidade onde ele era agora o Reitor, Colinas de Boé da Guiné-Bissau.

Com o mesmo entusiasmo da “casa-escola” de há anos atrás, mostrou-me e apresentou-me alunos. Depois fizemos uma sessão de trabalho para escrevermos um livro em conjunto. Discutimos ideias e ideias. Combinámos reunir nos dias seguintes. Quando saí do encontro, estava a passar na rua da casa do primeiro-ministro quando as bazucas rebentaram. O golpe de estado tinha começado. Confusão, medo, pessoas a gritar, soldados e a incerteza.

O Prof. Fafali calculou pelo percurso que eu tinha sido apanhada na confusão. Nesse dia não conseguimos falar. No dia seguinte falámos ao telefone e como sempre aconselhou-me — sem dramatizar — a ficar quieta. Eu queria voltar a ir ter com ele. Ele disse que não. Nestas alturas quanto menos movimento melhor, disse. E no final do telefonema riu-se e disse teremos muitas oportunidades de falar e trabalhar…não tivemos. Morreu hoje.

Perdi um dos académicos por quem tinha mais respeito. A imagem e o entusiasmo dele naquele dia na pobre casa que era também escola improvisada foi sempre a minha imagem dele. O melhor livro sobre a transição política em Cabo Verde e na Guiné-Bissau é da sua autoria.

A Guiné-Bissau hoje ficou mais pobre, mas também a ciência política. Eu queria estar em Bissau para apresentar os meus pêsames à família e aos amigos.

 

  • OUTRAS HOMENAGENS:

Fernando Elísio Freire, Deputado e Líder Parlamentar do MpD: “O Professor Fafali representa sim — porque os enormes não morrem — a esperança de uma África respeitada, científica e amante da liberdade . O livro dele sobre a transição democrática no meu país, Cabo verde, e na Guiné Bissau, Terra da minha mãe, é uma estrela guia dos caminhos da verdade e da honestidade intelectual. Li o livro, com prefácio de Jorge Carlos Almeida Fonseca, hoje Presidente da República de Cabo Verde e concluí: com homens assim, a África tem futuro. Paz à sua alma, Professor”.

 

Aqui partilhamos duas entrevistas da Rádio Gumbé com Prof. Fafali Koudawo:

16 Responses to Homenagem: Prof. Fafali Koudawo, Reitor da Universidade Colinas de Boé da Guiné-Bissau

  1. Dauda André Embaló diz:

    Nunca ca o vi com os meus próprios olhos,masconheço um professor que não gostaria de citar o seu nome que admiro tanto ele ficaria hoje furioso se ouvir a morte do Professor Fafali Kodawo! Peço Deus que lhe de um cantinho no Paraíso…

    • Erasmo J.F. Da Silva diz:

      Nunca conhece o Prof. Fafali, mas sempre acompanhei o trabalho dele e suas intervista nos radio, desejo sua alma paz, e espero que aja homens como ele, e certeza que sua obra ajudara muito

  2. Januário diz:

    É com grande consternação pela perde irrecuperável da alma do nosso querido Professor Dr. Fafali, que Deus lhe recebe … e que a sua alma se descanse em paz!!!

  3. DJENS diz:

    Esta noticia é muito triste para nosso país, inclusivo para nós mais jovens, eu,acho que mais uma perda irrecuperável para nossa pátria, professor, não é esta formação que nos querias ouvir neste momento infelizmente tudo vem de força maior, peço ao senhor que se dá um império no mundo de verdade.
    Professor, descanse em paz.

  4. Samuel TCHUDA diz:

    O Prof. Fafali Koudawo, é um homem incansável. a guiné bissau perdeu,os estudantes da universidade perderam quadro inteligente

  5. A Coiate diz:

    Meus sentimentos a familia Koudawo
    Tenho a possibilidade e a sorte de trabalhar com Fafali. Homem simples e de brilhante gargalhada. Conhecidor de causas e excelente professor. Koudawo gosta de ver os jovens no top e adora as criancas. ensinou-me a respeitar as pessoas e a contar com todas. Fafali foi um amigo que mi ensinou a colocar a Guine Bissau a cima de tudo. Gostava de ver este homem antes de morrer mas o destino nao me permite. Um dia contou-me a historia da sua vida quando era crianca, vasculava nas lixeira para ler os jornais antigos. “A Guine Bissau e’ minha 2 patria”, disse. Fafali e’ um nato cientista de capacidade invejavel. Irmaos da Guine choram comigo este nosso mais velho irmao. Paz esteja a sua alma. A C

  6. Daniel Ibraima Salla diz:

    A melhor homenagem que as novas autoridades podem render a este Panafricanista e distinto academico, e de lhe atribuir a nacionalidade Guineense, a titulo postumo, uma vez que a mesma foi recusada em tempos, por razoes completamente desconhecidas, quando a foi atribuida, na altura, a Libaneses e Mauritanianos.
    Seria um acto de justica e de reconhecimento pela sua contribuicao ao saber e ao desenvolvimento acedemico na patria de Cabral.
    Que a sua alma descanse em paz

  7. Lobos diz:

    Triste notícia
    O desaparecimento físico desta personalidade íntegra dói muito e causa uma perda significativa ao povo guineense e togolês, senão mesmo africano.
    O Dr. Koudawo vai nos deixar muita falta e saudades, porque deu uma grande contribuição para o nosso país encontrar a paz e estabilidade, assim como no desenvolvimento da educação (ensino superior).
    Que a sua alma descanse em paz e que a terra lhe seja leve.
    Adeus Senhor Reitor meu ex professor universitário.

  8. Lénine Semedo diz:

    Perdemos um super inteletual AFRICANO pas a sua alma Mr le Prof…

  9. Michel Cahen diz:

    É uma enorme e muito triste notícia. Eu conheci Fafali em 1991 e tinhamos ficado em contato pelo internet. Muito obrigado, Elizabete, por ter escrito esta homenagem tão sensível O vosso livro em comum poderá avançar mesmo assim?
    Forte abraço,
    Michel Cahen (Bordeaux, França)

  10. Alberto Jaura diz:

    Nao acredito quando vi a notícia do falecimento de fafali aliás o seu descanço. Porque homens desse valor nao morrem fafali é um genio foi grandi professor aprendi muito com ele concelhava-me fazer trabalhos no rigor científico.

  11. balde samba diz:

    perdemos um intelectual, eu conheci o falali em Manida de Boê, estavamos junto na visita que o então vice-primeiro ministro Sr. Fostino Imbali tinha feito aquele sector, fomos ate onde era a casa de cabral com alguns colegas meu.

  12. Cornelia Giesing diz:

    Nunca me esquecerei do meu colega no INEP durante tantos anos de esperança de um futuro melhor.
    Nunca me esquecerei que o Fafali nos ajudou em situação de precariedade, durante a chamada guerra do 7 de junho (1998)! Andou a pé por caminhos que então ninguém ousava emprestar para nos entregar uma radio et meios de subsistência.
    Fafali fica na nossa memória.

  13. Desejado Jose Mendes diz:

    o prof.Dr. fafali nao morreu, porque deixou obras e nos como estudantes da colinas de boe temos uma imensa responsabilidade em termos de continuacao da sua obra que sempre teve em sua mente…

  14. Fabio Elfredo Ferreira Silva diz:

    Para não dizer mais dos que as pessoas dizem. A Guine tem só que orgulhar de tér um filho deste dimensão! Guine Bissau é ma i bardade kuma abó i padida de dus mama tok bu seta ntéra bu fidju ku padido lundju de bó ma ku bim séta sonbrau nó djunta anos tudo nó fala Deus pa i discansa alma de Fafali Koudawo

  15. Severino ERASMO DE LIMA diz:

    O Prof. Fafali não morreu. Ele ficará para sempre entre nós pelo seu carisma e
    pela a obra que deixou.Como brasileiro que sou, mesmo distante geograficamente
    sinto da responsabilidade de todo o mundo dá continuidade da obra deste grande
    cientista.
    Prof. Erasmo Lima

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