Opinião: 25 de maio, dia de libertação africana – “Je suis Afrique”

Comemora-se o 52º aniversário da União Africana (UA), institucionalizado em julho de 2002, em Durbam, África do Sul, aperfeiçoando o seu projeto inicial proposto pelo antigo líder líbio falecido, saudoso Coronel Muammar al-Gaddafi, que sugeria uma organização federativa dos 53 Estados que na altura representavam o continente, isto é, antes da independência de Sudão de Sul, a mais jovem país do planeta.

Por Nataniel B. J. Sanhá | nataniel005@hotmail.com

A UA veio a permutar alguns ideais do defunto Organização da Unidade Africana (OUA), substituindo assim a sua existência, que foi em 25 de maio de 1963, em Addis Abeba, Etiópia, por mais de três dezenas dos chefes dos Estados africanos já independentes, dentre os quais destacava-se imperador etiópio Hile Selassie e Francis Kwame N’Krumah, presidente da República de Ghana. Este último, considero-o de maior estadista pan-africano entre demais que mais se destacaram, mas, muitas vezes sofre críticas por ter conotado muito as suas posições com a doutrina marxista.

União Africana

União Africana

Uma das mudanças ou inovações incrementadas pela UA em torno dos antigos ideais da OUA foi o lançamento do Conselho de Paz e Segurança (CPS), em 25 de maio de 2004, que pode enviar missões de paz a um país-membro da União e recomendar à Conferência da organização continental o desdobramento de forças de manutenção da paz em caso de genocídio, de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade.

A OUA tinha as suas raízes no pan-africanismo que surgiu nos finais do século XIX, como manifestação de solidariedade entre intelectuais de origem africana espalhados pelo mundo, contra a hegemonia cultural branca. Foi essencialmente a partir da Segunda Guerra Mundial que o pan-africanismo ganhou força, apresentando-se como uma ideologia de defesa dos valores culturais de África e de contestação à ocupação e repartição geopolítica do continente efetuadas pelas potências europeias.

Entretanto, a OUA tinha como objetivos principais a defesa da independência dos países africanos colonizados, a luta contra toda e qualquer manifestação de colonialismo ou neocolonialismo, a promoção da paz e da solidariedade entre os países africanos e a defesa dos interesses políticos, econômicos e sociais dos países-membros e da África em geral. Contudo, a UA apesar de algumas comutações empreendidas em torno dos ideais da organização face aos novos desafios do continente ocasionados pelas novas conjunturas continentais e internacionais, porém não se divorciou tanto dos ideais elementares que nortearam a sua concepção.

Hoje, já lá vão mais de meio século de comemoração de aniversário da UA e da libertação africana ou do continente africano, no preciso momento em que o continente se destaca nos noticiários com enormes e graves problemas, causados pela interferência e manipulação, pelas potências ocidentais, em torno de ordem político e da soberania do continente, factos que demostram, até então, uma forte dependência e colonização da África pelo ocidente. Recentemente, podem-se citar os casos dos grupos islâmicos radicais (Estado Islâmico, Boko Haram, Al-shabaab) e das tripulações clandestinas pela Lampedusa.

Lampedusa, um barco cheio de imigrantes africanos | 7 de Junho de 2014

Lampedusa, um barco cheio de imigrantes africanos | 7 de Junho de 2014

Há muito tempo que o continente africano está sendo vítima das políticas maquiavélicas das potências ocidentais, que impiedosamente o saqueiam e esfoliam, ao seu belo prazer, e sem alguma caução com as consequências acarretadas das suas políticas terroristas.

Subintitulei essa exposição de “je suis Afrique”, referindo ao jornal do cartunista satírico francês Charlie Hebdo, que foi alvo de um atentado terrorista em Paris, em 7 de janeiro de corrente ano, perpetrado pelos irmãos Said e Chérif Kouachi (em nome do Estado Islâmico), vitimando mortalmente 12 pessoas. Ao proposito, houve uma mobilização de todo mundo sensibilizados pelas maiores imprensas internacionais que enfaticamente divulgou esse acontecimento. Mesmo que, nessa mesma data, sob à autoria do grupo extremista islâmico, Boko Haram, ocorria um atentado terrorista em Baga, Nigéria, vitimando mortalmente mais de uma centena de pessoas. Nesse dia, contudo, o caso africano de terrorismo contabilizava um maior número de vítimas que duplicava por enésimas vezes as vítimas do atentado na França. Porém, o caso francês foi bastante superestimado. Eu, os motivos do meu grande choque e repúdio aos atentados terroristas que já vivenciamos, é o fato deles vitimarem, quase só, os inocentes ou pessoas não cúmplices das causas que motivam as reivindicações terroristas. Também, acho é muito forte e barbárie tirar uma vida humana por algum motivo.

Atentado contra Charlie Hebdo

Atentado contra Charlie Hebdo

Todavia, não como muitas das vezes é difundida que cada acontecimento terrorista é simplesmente mais um episódio de barbárie, não de manifestação política que sempre lhe move. Considerando esse facto, acho que tínhamos mais motivos para se revoltar muito mais contra o atentado na Nigéria, pois as suas vítimas são muito menos cúmplices em relação às vítimas da França, a não ser por se tratar preconceituosamente de nigeriano e francês.

Vejamos bem, Amedy Coulibaly, companheiro dos irmãos Kouachi, sabendo que os dois terroristas estão encurralados e na eminência de serem capturados ou mortos, invadiu um supermercado judeu de produtos típicos da dieta alimentícios judeus “Kasher”, fazendo refém todas pessoas que lá encontrou, exigindo assim para não se vitimarem os amigos terroristas, sob pena de matar todos os seus reféns. Nessa ação, Coulibaly declarou que são obrigados aquela atitude não por antipatia para com os cidadãos desses países, mas sim pelas políticas dos seus dirigentes políticos para com seus países de origem. Só para lembrar, Amedy Coulibaly é de origem maliana (Mali).

Foram essas políticas terroristas do ocidente que vinha deteriorando ainda mais a situação do continente africano, deixando o totalmente à mercê desfavorável, pelos interesses do ocidente.

África depara-se com a situação de instabilidade política e social, quase por toda Magrebe (Norte de África) e na região de Grande Lago, pelo levantamento dos grupos islâmicos extremistas, ocasionados mais uma vez pelas políticas ocidental de influência e controle geopolítica, causando a fuga desenfreada dos populares dessas regiões em busca de refúgio estável e seguro ao sondarem o mar da Lampedusa, desafiando graves riscos de vida.

Enquanto isso, o ocidente, como sempre, mantem-se passivo sem obrigação de tomar providencias caritativas, como apresentam as suas ações, sem se assumirem as suas responsabilidades de cumplices. Lembrando, defendo essa posição, porque, o Estado Islâmico foi uma desmembração do grupo radical afegã, Al-Qaeda, em Iraque, após a destituição do Presidente Saddam Hussein, pelas forças dos EUA e os aliados. E, depois, vimos que esse grupo se desenvolveu rapidamente em África do Norte, e deu origem ao Boko Haram e Al-Shabaab na região ocidental do continente, após a destituição do Presidente Muammar al-Gaddafi, da Líbia, também pelas forças dos EUA, França e Aliados.

Ataques de Boko Haram na Nigéria

Ataques de Boko Haram na Nigéria

Enfim, são tantos os factos de interferências das políticas externas desfavoráveis em torno do curso da vida política e social do continente africano, é claro que isso igualmente, é fortemente amparado por alguns africanos egoístas e corruptos. No entanto, a UA ainda está muito a quem dos seus objetivos de assegurar a independência do continente e solidariedade entre os países-membros, ou melhor, enfrenta-se enormes desafios para se cumprir com a sua missão, por isso, a mesma deve ser encarrada e cultivada pelos africanos em geral ou a maioria como suas missões de vida, também, transpassar esse ímpeto de gerações a gerações-só assim seremos realmente livres e independentes.

Parabéns mamãe África.

Florianópolis, SC, 25/05/2015

Nataniel B. J. Sanhá

 

 

 

 

 

 

 

2 Responses to Opinião: 25 de maio, dia de libertação africana – “Je suis Afrique”

  1. Vensam Ialá diz:

    Excelente texto Nataniel, Parabéns! Esse é dos textos que vale a pena ler e fazer uma profunda reflexão sobre problemas ali mencionados, mesmo que de forma superficial. Como africano, acredito que nossa independencia, no seu sentido mais preciso, so será alcançada quando colocamos a tona a verdadeira farsa no processo de desenvolvimento da África: o ocidente e suas “ajudas”, para isso, precisamos de líderes estudados, envolvidos e, acima de tudo, orgulhoso pelo continente e que busca satisfazer vontade de milhares de pessoas e não somente a sua. Mas confesso: isso não será uma tarefa fácil, mas possível. Jovens africanos em geral e guineenses em particular apelo uma profunda dedicação aos estudos e um comprometimento absoluta com a nossa pátria, pois, so assim, contribuiremos de forma precisa para o desenvolvimento eficiente do continente e dos nossos respectivos países. Abraços a todos

  2. Março Uter diz:

    sinceramente,ao fundo do meu coração senti agradecido por ter lido este pequeno texto magico, ee na verdade o que havia iniciado pelos nossos saudosos e imortais lideres não chegou de concretizar, portanto agora ee a nossa vez, nos os jovens temos que assumir a nossa responsabilidade para poder libertar mama África.
    Obrigado, força……

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