Opinião: FCFA, 18 anos da escorreria monetária francesa na Guiné-Bissau

“…Por dever moral e pelo valor da justiça e da liberdade que me caracteriza, recuso a cumplicidade, através do silêncio, na assistência ao genocídio silencioso da França, através do sistema de gestão do FCFA, contra as populações dos países da zona franca através do controle que exerce no conselho da administração do BCEAO e da moeda FCFA, para manter esses países na dependência e na pobreza”.

Por Lassana Mané, Economista e Planificador  Financeiro | lasmane@gmail.com

 

A Guiné-Bissau celebrou neste mês de Maio de 2015 os seus 18 anos de adesão à União Económica Monetária Oeste Africana (UEMOA), uma zona monetária criada em 1939 pela França, depois da crise financeira mundial de 1929, com o objectivo de  proteger a sua economia e o seu comércio exterior.

Em 1945, General De Gaulle, antigo presidente da França, criou o FCFA que significa literalmente Franco das Colónias Francesas da África, que a partir dessa data passa a ser a moeda única para todos os países que compõem a Zona franca.  Constitucionalmente, o FCFA pertence à França porque foi ela que a criou através do artigo 3 do decreto 4501/36 (Le Franc CFA et l’Euro contre l’Afrique) [Nicolas Agbohou, 2000).

A França, através do FCFA, rouba abusivamente, de forma legal, e importa gratuitamente todas as matérias primas dos países da UEMOA.

Países membros da UEMOA

Países membros da UEMOA

Por dever moral e pelo valor da justiça e da liberdade que me caracteriza, recuso a cumplicidade, através do silêncio, na assistência ao genocídio silencioso da França, através do sistema de gestão do FCFA, contra as populações dos países da zona franca através do controle que exerce no conselho da administração do BCEAO e da moeda FCFA, para manter esses países na dependência e na pobreza.

Sem relatar a história da sua criação, nem tentar explicar as razões que nortearam a nossa adesão, gostaria de vos convidar à uma análise profunda de reflexão sobre três dos quatro princípios do funcionamento do FCFA e denunciar a atitude maliciosa “de rouba” da França aos países da UEMOA .

O primeiro principio é a centralização das reservas de câmbio no Tesouro público francês. Em virtude da aplicação das disposições do artigo primeiro da convenção da cooperação monetária entre a França e os países membros da UEMOA, decidiu-se que estes últimos têm por obrigação de depositar 50% das divisas provenientes do resultado de suas receitas de exportação em divisa numa conta denominada Conta de Operações aberta no Tesouro Público francês em nome do BCEAO. Graças a esses depósitos, a França consegue garantir a convertibilidade dessas divisas em Franco CFA e permitir o BCEAO a emissão da moeda.

A titulo de exemplo, se a Guiné-Bissau vender as licenças de pescas à União Europeia por um montante total de 10 Milhões de Euros, esse montante será depositado na sua conta junto ao BCEAO e essa, por sua vez, vai depositar os 10 milhões da Guiné-Bissau na conta de operação no tesouro público francês para ser convertida em FCFA, porque o governo da Guiné-Bissau precisa de CFA para as suas despesas públicas, pois não pode utilizar euros para pagar salários e outra despesas. E como é estipulado no artigo primeiro da cooperação monetária, a França vai ficar com 50% desse dinheiro para garantir conversão em CFA, neste caso 5 milhões de euros que a Guiné-Bissau nunca mais receberá. Para os restantes 5 milhões, a França vai os converter em CFA.

BCEAO, Banco Central dos Estados da Africa Ocidental

BCEAO, Banco Central dos Estados da Africa Ocidental

Assim, a França fica com metade dos valores da exportação da Guiné-Bissau, em divisas, e dos outros países da união, que servirá para cobrir o seu défice comercial, pagamento das suas dívidas externas, emprestar aos próprios países africanos, etc. O montante imputado nas receitas da exportação dos países membros, deve, em principio, gerar juros que a França paga aos Bancos centrais e por incrível que pareça, esse montante é contabilizado na ajuda pública ao desenvolvimento da França aos países da UEMOA.

A França, a partir da conta de operação, não só rouba aos países da zona franca a metade das suas receitas de exportação, mas também importa gratuitamente todas as matérias primas necessárias para alimentar as suas indústrias, através de uma simples escritura contabilística de crédito na conta de operação do montante que deveria pagar.

Como podem constatar, as consequências da conta de operação são múltiplas e bloqueia toda a possibilidade da industrialização dos países da zona CFA.

Desde 1945 até hoje, ninguém sabe, nem o BCEAO, o montante exato detido nessa conta de operações, pois a França nunca lhe tornou público.

O segundo principio é a fixação de taxa de câmbio fixo do FCFA indexado a Euro (1 euro = 655 FCFA). A UEMOA adotou um regime de taxa de câmbio fixo, o que significa que o valor do FCFA no mercado mundial  depende do valor do Euro. Em outras palavras, os países da UEMOA não têm controlo da sua política de câmbio e como o euro é uma moeda forte então os produtos desses países custam muito caro no exterior e dessa maneira não são competitivos. Se não podemos vender o nosso produto no exterior, a nossa exportação vai diminuir enquanto que as importações continuam aumentar, então a balança comercial será deficitária. Como já importamos as divisas, acusamos também os défices de capitais. A acumulação dos défices da balança comercial e dos capitais  provoca défice da balança de pagamentos, o que é extremamente preocupante.

Com a taxa de câmbio fixo, os países da UEMOA não podem decidir sobre a desvalorização do FCFA nos momentos das crises económicas para aumentar a competitividade (protecionismo monetário), nem da sua valorização durante diferentes ciclos económicos que pode ser necessária para um bom funcionamento das suas economias. O mais grave é que a França é obrigada a informar à União Europeia sobre qualquer eventual modificação dos acordos monetários com os países da UEMOA e deve obter uma aprovação prévia da comissão europeia.

Outra consequência da paridade FCFA e Euro é o seu custo, que muitas vezes obriga os países membros a adoptar políticas de austeridade, reduzindo drasticamente as despesas públicas (educação, transportes, saúde, administração pública, etc.). Os países da UEMOA podiam evitar este rigor monetário inútil se a taxa de câmbio não fosse fixa e que o FCFA não estivesse indexado ao euro.

Há uma gestão absurda da taxa de câmbio na zona CFA, pois a indexação ao Euro significa um enforcamento de todo tipo de competição internacional. A França nos convenceu que é uma boa coisa ter uma moeda forte e estável porque com isso vamos desenvolver rapidamente, mas que na realidade é falsa. Sabemos que na Coreia de Sul, 1 euro custa 1.207 Wons, mas o salário médio anual é de $32.000 dólares por ano. No Vietnam, 1 euro custa 23.958 Dongs, mas eles são o segundo exportador mundial do arroz. No Irão, 1 euro custa 31.396 riais e sabemos todos que o Irão não more de fome e do medo.

Terceiro e último princípio que gostaria de analisar é a livre convertibilidade do FCFA, que significa teoricamente que o FCFA pode ser convertido para qualquer moeda internacional. Na prática, o FCFA não é uma moeda convertível, pois não tem nenhum valor no exterior dos países que o utiliza como a moeda nacional. A prova disso é que não se pode trocar o FCFA em nenhum país europeu e do mundo, nem mesmo na França.  Esse princípio se aplica só entre os países membros da zona CFA e a França. Essa moeada facilita  apenas os investimentos franceses na África, o repatriamento dos capitais e a importação da França das matérias primas africanas e bloqueia todo o tipo de trocas comerciais entre os países da UEMOA e dos países exteriores da zona CFA.

À margem de tudo isso, podemos mesmo questionar se a UEMOA é mesmo uma zona monetária ótima. A teoria económica da Zona Monetária Ótima do economista Robert Mundell (1961), prémio Nobel da economia 1999, estipula que se as economias locais de diferentes países da mesma região são homogéneas/idênticas e que esses países respondem da mesma maneira aos choques externos, eles podem adoptar uma única moeda, mas caso contrário, é melhor que cada país conserve a sua própria moeda adoptando um sistema de taxa de câmbio flexível que servirá de meio de regulação para a estabilização da sua política económica.

Baseando na teoria acima citada, podemos constatar facilmente que a União Económica Monetária Oeste Africana (UEMOA) não é uma zona monetária ótima. Existe, pois, uma forte heterogeneidade das estruturas económicas dos países da UEMOA onde três tipos de economias coexistem e não reagem da mesma forma aos choques externos. Como se sabe, as economias dos países do Sahel são fortemente dependentes das condições climáticas (Burkina-Fasso, Mali e Níger); as economias relativamente industrializadas e com forte incidência nos domínios de serviços (Cotê D’Ivoire e Senegal) e finalmente as economias costeiras com uma dinâmica no comércio de importação e Exportação (Benin, Togo, Guiné-Bissau). 

Com essas análises, considerando a complexidade da situação e os aspectos políticos com os acordos secretos militares assinados entre os estados africanos e a França e a não otimização da zona UEMOA para uma moeda única e a total dependência dos países oeste africanos aos países ocidentais, estamos confrontados com uma situação critica, que, se não fizermos nada agora, estaremos condenados à uma vida de miséria para a eternidade.

Moeda FCFA

Moeda FCFA

Na minha opinião, duas soluções temporárias podem ser consideradas a curto e ao médio prazo, até que conseguimos ser soberanos, para depois assumirmos com firmeza o destino do nosso continente.

Primeiramente, a moeda, como pilar da economia à volta da qual diferentes programas se articulam, é indispensável e é precisoo que os países africanos tenham em mão o seu controlo. Para o fazer, é urgente a retirada dos representantes da França no Conselho da Administração do BCEAO e a abolição da obrigação de depositar 50% das divisas provenientes do resultado das nossas receitas de exportação na Conta de Operações aberta no Tesouro Público francês, para que possamos ter o controlo da nossa política monetária, por conseguinte controlar a nossa massa monetária (quantidade de dinheiro em circulação na zona CFA).

Com o controlo do BCEAO pelos africanos, poderemos controlar, consequentemente, os Bancos comerciais e definir uma melhor política de desenvolvimento nacional e regional. Controlando a nossa massa monetária, as vantagens serão várias: o pagamento regular dos salários dos funcionários públicos através dos tesouros públicos nacionais sob controle do Tesouro Público Sub-Regional, a capacidade de satisfazer as necessidades básicas das populações (alimentação, água potável, habitação, saúde, transportes, educação, energia, defesa e segurança, etc.).

A segunda solução é a Industrialização  das nossas economias para a transformação das nossas matérias primas agrícolas, minerais e energéticas. Ao mesmo tempo, devemos apostar na Criação das empresas públicas, privadas e mistas com uma política protecionista para reduzir as importações e aumentar as exportações, melhorando assim a nossa balança comercial e a balança de pagamento, pois só assim podemos desenvolver  os nossos países.

Em conclusão, devemos assumir desde já o nosso próprio destino com acções concretas, a começar com a nossa política monetária, no quadro da UEMOA. E caso não o fizermos hoje, iremos correr o risco de hipotecar indefinidamente o futuro dos nossos países e das gerações vindouras.

Lassana Mané, Economista e Planificador  Financeiro | lasmane@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16 Responses to Opinião: FCFA, 18 anos da escorreria monetária francesa na Guiné-Bissau

  1. Braima Tambarina diz:

    Como a África, do Oeste chegou a esse ponto?
    Que tamanha de estupidez!
    Como a Guiné-Bissau, foi parar esse pântano!
    Finalmente, fiquei a perceber as razões porque o tão dito diabo da moeda, é péssima!
    Isto assim, é muito grave:
    A centralização das reservas de câmbio no Tesouro público francês.
    A fixação de taxa de câmbio fixo do FCFA indexado a Euro.
    A inconvertibilidade do FCFA em qualquer outra moeda.
    Gostaria de saber o quarto princípio de funcionamento do FCFA!
    Mas, seja como for, isto é um autêntico crime económico.
    A Guiné-Bissau, que nem é um país francófono ou foi por questões de zona económica foi ai meter-se…!
    É muito difícil pensar e aceitar que 50% das riquezas da Guiné-Bissau e cadeias de valores associados aquela percentagem, fiquem no cofre francês, um país que com ele, nada temos que ver.
    Quem foram aqueles que arrastaram, a Guiné-Bissau para esta situação?
    Há de haver forma de interromper isto, que assim não está bem!
    Muito obrigado, Lassana Mané!

    • Lassana Mane diz:

      Caro Braima,
      O quarto principio do funcionamento do FCFA é a Livre circulação dos capitais entre a França e os países africanos da Zona franca. Este principio é para facilitar a fuga de capitais das empresas francesas da Africa para a Franca. As empresas francesas instaladas nos países da zona franca podem repatriar livremente as suas liquidez sem nenhum estrave.

      Recordo aos leitores que a zona franca é composta por 15 países, 8 da Africa de oeste com o Banco Central BCEAO (Guine-Bissau, Senegal, Benin, Burkina-Fasso, Cote-Ivoire, Mali, Niger e Togo), 6 paises da Africa Central com o Banco Central BEAC ( Camaroes, Republica Centro Africano, Congo-Brazaville, Gabon, Guine-Equatorial e Tchad) e por ultimo as Ilhas Comores com o seu Banco Central BCC.

      Mesmo que esses 15 países fazem parte da mesma zona, o FCFA não é conversível entre estes três zonas. O FCFA dos países do BCEAO não tem nenhum valor nos países do BEAC e do BCC e vice versa. Um guineense não pode utilizar o seu FCFA no Gabon e portanto são todos FCFA so que são emitidos por dois bancos centrais diferentes. Esta estratégia é para impedir qualquer trocas comercias entre esses países, uma estratégia maquiavélica bem sucedido.

      Bom final da semana

  2. ismael Danpha diz:

    é de aplaudir a simplicidade da linguagem e a forma como faz chegar a mensagem de um assunto complexo e desconhecido de ponto de vista social,o texto està fantastico muito embora a relatar uma “tristeza” por assim dizer.pelos vistos os 50% na Conta de Operações aberta no Tesouro Público francês nao sao sequer para apoiar o desenvolvimento regional dos paises membros,digamos que sao so lucros comerciais.great

  3. ROBERTO PINTO diz:

    BEM VISTO E BEM EXPLICADO, FAÇO MINHAS AS EXPLICAÇÕES DO LASSANA (meu colega). EU QUE TAMBÉM TENHO UM MESTRADO EM FINANÇAS DO MERCADO E ESTOU PREPARANDO UM DOUTORAMENTO EM ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO DO TERRITÓRIO, aqui mesmo em França, SEI DAQUILO À QUE ELE SE REFERE.

  4. ture baçiro diz:

    Viva Lassana Mané. Tudo que vocé falou e verdade. Eu não tenho nada mais para oumentar porque já falaste tudo que estáva no meu coracão para falar.

  5. ROBERTO PINTO diz:

    Em resumo LASSANA:
    Os países africanos da zona CFA são privados de autonomia monetária, condenados à austeridade, com altas taxas de juros e desvalorizações repetidamente, impotentes contra o êxodo maciço de capital e de investimento privado produtivo. Limitados à exportação de matérias-primas para a Europa, estes países são cortadas a partir do Sul, dependentes das flutuações externas e condenados à alocar seus ativos no exterior para pagar as dívidas e contas de transações. Sem capacidade orçamental, não é de estranhar que as suas autoridades não podem garantir a educação, a saúde e a comida para a população local…

    De referir ainda que, a falta de investimento estrangeiro privado que se verifica na zona CFA também é pouco benefício para a economia local. O acordo de cooperação monetária entre o franco francês e a CFA implica a liberdade total de transferência de capitais entre as duas áreas. Esta liberdade na verdade, só beneficia uma parte, ou seja, aquela com poder de investir, o que legaliza um repatriamento maciço de lucros por parte de investidores estrangeiros para o seu pais e um êxodo de renda familiar dos mesmos para o seu país de origem. A título de exemplo, entre 1970 e 1993, enquanto os investimentos estrangeiros somaram apenas 1,7 bilhões de dolares, as repatriações dos lucros e receitas dos expatriados totalizaram 6,3 bilhões de dolares. Note-se que as repatriações eram, portanto, quatro vezes supérior ao investimento (Agbohou, 1999, p. 87).
    Esta realidade, obviamente, tem o dom de matar qualquer esperança de construir economias locais, no entanto, essencial para o desenvolvimento de África. O pior é que este sistema resulta em uma institucionalização verdadeiramente sustentável da fuga de capitais Africano (daí o défice da balança de pagamentos, a dívida, a dependência e o subdesenvolvimento vicioso).

  6. N'tori Palan diz:

    Caro Lassana Mane, congratulo-me com a sua analise! Ela e’ propria de um verdadeiro patriota e, serve para esclarecer aos apoiantes da integracao do nosso martir pais numa organizacao dos paises neo-colonizados pela Franca.

    A Guine-Bissau, pelo seu historial de libertacao do jugo colonial e pela politica que esteve na base da sua liberacao, nunca poderia integrar uma organizacao deste genero, se nao fosse a prostituicao que tem caraterizado os seus politicos, pelo que resultou nessa deriva a que sugetamos, a merce de quem queira “f…der” quer esse seja a Franca atraves da CEDEAO ou Portugal atraves da CPLP!

    Cabe a nova geracao a tarefa de repor os nossos designios nacionais e reconciliar o pais com a sua historia, que nao sera facil!

    Parabens!

  7. Ana Paula Sabali diz:

    As situação quanto a economia da Africana esta bem explicada pelo Digníssimo Dr. Lassana Mané, não sei como é que a Guiné-Bissau ficou mergulhado nessa historia de FCFA! A Guiné-Bissau que não é um pais francófono acabou por entrar ou meter na questão da zona económica.
    Para o meu ponto de vista eu prefiro que a Guiné-Bissau sai fora de países francófono porque, essa moeda não vale nada, só traz pobreza para o pais.
    Lassana Mané força e coragem na sua chamada de atenção.

  8. Plinio Borges diz:

    Como é simples galvanizar os homens! Vivemos num mundo de interesses. Cada país defende os interesses. O texto nos diz que a França rouba 50% da economia dos países que adotaram o FCFA. A análise é boa mas como sair dessa situação? Quando um africano me diz que pode eu me desconfio logo. Julgar que os africanos são capazes é utópico é muito perigoso. Tínhamos o peso e éramos incapazes de conter a inflação. Foi uma execelente decisão a entrada da Guiné-Bissau na CEDEAO. Permitiu ao país uma estabilidade econômica e financeira. Os países que adotaram o FCFA não se preocupam com a inflação. É o preço que pagam com a perda de uma parte de suas economias. Pode parecer exagerado a margem retida pela França mas todos os economistas dignos do seu nome, que qualquer país pobre como a Guiné-Bissau, por exemplo, não sobreviveria sem essa proteção. A Argentina não é um país pobre, mas a sua moeda não tem nenhuma proteção por isso a inflação é galopante, o que impede todo e qualquer desenvolvimento sereno e estável. Julgar que os países africanos podem sair dessa situação é um sonho que se pode transformar num pesadelo. No caso da Guiné-Bissau, o FCFA foi muito mal implementado. A sociedade guineense tomou o FCFA como se fosse o Peso. Como se 1000FCFA fosse 1000 Pesos. O FCFA perdeu o seu valor justo no momento de implantação.
    O comércio livre não significa liberdade de preços. O Governo na época deixou ao livre arbítrio dos comerciantes a aplicação dos preços. Foi um erro fatal, porque no Senegal os salários são mais avantajados e os custos dos produtos e serviços controlados. Na Guiné-Bissau foi o contrário que se passou. Há possibilidades de inverter a situação, começando pelo controlo dos preços e o aumento dos salários, para dar mais possibilidades de compra as populações. Só com a criação das riquezas poderão os africanos sair dessa dependência.

    • N'tori Palan diz:

      Dignissimo sr Plinio Borges, li com relativo cuidado o seu comentario. Reflecte um ponto de vista impirico e generalista na sua abordagem a situacao de controle de inflassao (inflassao – mal escrita esta palavra e outras por falta de teclado com acentuacao e cedilhas)!

      Permeta-me que ti cite algumas das causas de inflassao:

      Inflassao como definissao: a subida generalizada dos presos de bens e servicos no Mercado, motivada pelo:

      – Aumento de custo energetico. Ex.: Presso do petroleo;

      – Amento de custo de producao. Nota: A Guine-Bissau nao produz o que consome, a sua economia esta’ dependente na totalidade de importacao e sua balanca commercial e’ cronicamente deficitaria;

      – Aumento do custo de transporte, sobretudo, de mercadorias: se so a importacao de que somos dependente, por si so, ja representa um peso enorme na inflacao nacional, junta a esse factor o peso de transporte desses mercadorias impostadas para a Guine-Bissau que tem tido governos em cujo orsamento geral se acenta na receita das alfandegas!

      – O descontrolo da maeda em ciculacao: neste ponto, convirjo-me com o teu ponto de vista. O peso nas maos das pessoas, nao reflectia a capacidade real de compra das familias; a poupansa das familias era e e’ inexistente; os pequenos comerciantes eram e sao na esmagadora maioria estrangeiros que nao depositavam e nao depositam na banca nacional.

      Esses sao em resumo, os factores que levam a inflacao e a consequente desvalorizacao da moeda. Por isso, se verifica que, o franco CFA que se gasta na Guine-Bissau e’ mais que aquele que se gasta em Senegal.

      Mas, o que se importa do texto do nosso ilustri Lassana Mane, e’ que a Guine-Bissau tem putencialidade humano (ele e’ exemplo) e economica que lhe permetia nao alheinar a sua soberania aos interesses do Senegal e da Franca. Ate porque, pelo seu historial de libertacao, ainda fresco, nunca poderia ter tomado parte deste sistema neo-colonial. Olha para Gambia tao pequena ou, Cabo-Verde, ambos com as suas identidades plena.

      Um Abrasso!

    • Ly diz:

      Caro Sr. Borges,
      Espero que o seu comentário, “Julgar que os africanos são capazes é utópico é muito perigoso.”, seja mera provocação! Por norma, não costumo comentar as notícias e nem os comentários feitos por outras pessoas. No entanto, de quando em vez aparece algo que nem eu consigo resistir. Respeito que tenha a sua opinião no que concerne ao CFA, e julgo que pode ser um contributo na discussão dos benefícios/desvantagens do FCFA. Uma discussão necessária a meu ver. No entanto, o argumento de que os Africanos não são capazes soa a finais do Sec. XVIII em que se julgava que os Africanos eram inferiores aos Europeus e que nada conseguem fazer sem a tutelagem dos Europeus. Pode não ser essa a sua intenção, mas a verdade é que com as suas palavras está a perpetuar os mesmos estereótipos que os Europeus colonizadores sempre sustentaram. Daí que, se for mera provocação, a frase que acima referi, é de mau gosto e isso sim é muito perigoso! Porque deve estar consciente que ainda não houve a total descolonização de muitas mentes nos países Africanos e facilmente muita gente aderiria a sua visão (faço minhas, as suas palavras: Como é fácil galvanizar os homens!) que ao meu ver é errada. Mais, implícito na sua ideia é que os Africanos devem continuar sob a tutela dos Europeus que sabem mais e melhor. Sem querer dar-lhe a lição de história, peço que veja a mais recente crise financeira, ou se quiser ir mais atrás veja a grande depressão.
      Julgo secundário os outros comentários por si feito, dada a gravidade da afirmação acima proferida. Por isso, não vou aprofundar muito a responder as observações que fez. Que a inflação estava descontrolada durante os finais de oitenta e noventa, um facto indisputável, não tem haver propriamente só com incompetência das pessoas. É que o controlo de inflação nada ter haver com pessoas competentes, mas sim recursos disponíveis (posso lhe dar dois exemplos de cabeça sem entrar nos aspectos técnicos: Alemanha pós primeira guerra mundial, Brasil até a bem poucos anos). No que se refere a Argentina, o fenómeno é mais complexo do que a sua simplistica resposta dá a entender.
      Concordo consigo quando diz que os guineenses tomaram o FCFA como o peso. No entanto devo referir que o mesmo fenómeno se verificaria em qualquer país do mundo. A título de exemplo, ainda existem na Europa a mesma atitude face ao Euro. O que fez com que se tenha equacionado emissão de nota de 1 Euro. Ou seja, o mesmo que ocorreu na Guiné após a adopção do FCFA. Também nisso, não somos únicos! Um outro exemplo (consequência da adopção de uma nova moeda), em quase todos os países da União Europeia, houve inflaccionamento dos preços por parte dos comerciantes, para além do valor de conversão do Euro. Também nisso, não somos únicos!
      Quanto à sua visão de controlo da inflação como a solução para a situação actual, devo-lhe dizer que um pouco de inflação nunca fez mal. Agora, quanto a obsessão com a controle de inflação é ver Japão e actual situação na Europa. Permita que lhe aponte uma contradição no seu argumento ao referir controlo de inflação e aumento salarial. É que se aumenta os salários vai, necessariamente, fazer aumentar a inflação. Ou então, aumenta as taxas de juro para contrariar o efeito de aumento da massa salarial. Mas aqui vai deparar com dois problemas: primeiro, alteração de hábitos da população (incentivando poupança, depósito nos bancos – nem toda a gente tem acesso à banca); segundo: como fixar taxa de juro? Lembre-se que a fixação da taxa de juros não está sob o seu controle (entenda-se, governo da Guiné).
      Permita que discorde consigo quanto ao conceito de comércio livre, de facto é o que é aplicado pelos comerciantes guineenses é que se pode referir de comércio livre. Agora se me disser que não devemos entendê-lo (comércio livre) como aplicável a todos os sectores e ou que deve haver certas condições para a sua aplicação, isso seria outra conversa.
      Concordo com sigo quando diz “Só com a criação das riquezas poderão os africanos sair dessa dependência.”, mas aqui existe uma certa contradição, é que para crescer necessita de um certo nível de inflação – em forma de consumo e investimento.
      Por fim, gostaria de contribuir com a seguinte ideia para o debate: se a moeda FCFA for desvalorizada pela França, o que acontece é que a nossa dívida aumenta imediatamente. Isso implica encargos imediatos e futuros. Ora, nenhum ministro das Finanças, por mais competente que seja, consegue fazer seja o que for. Simplesmente tem que reembolsar o empréstimo e acabou! Onde vai buscar o dinheiro? Cortar na saúde e/ou educação? Fazer alguns contratos ruinosos de pescas? Pedir novos empréstimos em condições desfavoráveis? Soluções miraculosas não existem! Há que estabelecer prioridades, a meu ver: segurança alimentar, saúde e educação. E estudar todos os acordos e parcerias feitos (incluindo FCFA) e avaliar do seu interesse para a Guiné. Só assim avançaremos.

  9. ELÓI BIQUER diz:

    Saudações Lassana
    É com muita satisfação que leio o seu artigo e é bem elucidativo. Por isso lhe escrevo para contribuir na medida do possível com o enriquecimento do debate.
    O Carlos Lopes (guineense e subsecretário geral da ONU) esteve aqui em São Paulo (Brasil), onde apresentou uma palestra sobre África e tocou levemente nesse caso de FCFA. Segundo ele, os países da UEMOA recebem 0,4%/ano (de juros) dos valores depositados no Banco Central da França. E o total dos depositos dos países da UEMOA ronda os 200 bilhões de dólares.
    O que acontece é que a França empresta esse dinheiro a 4% de juros para os países em crise (como a Grécia), e se for para os países da América Latina como o Brasil pode chegar a 10%. O que não deixa de ser uma exploração pesada.
    Quanto a sua proposta de industrialização, é extremamente complicada criar e desenvolver indústrias nos nossos países por várias razões, mas eu vou elucidar só uma (a miséria científica e tecnologia). Como pensar em industrialização num país que tem mais de 80% de analfabetos (incluindo funcionais)?
    Onde estão as Universidades, centros de pesquisas, capital humano, etc, etc…? O motor de qualquer processo de industrialização de um país é sua capacidade tácita de inovação tecnológica. Só um exemplo: no início da indepência da Guiné criaram uma indústria automobilística (a montagem de Volvo) sem que o país tivesse um engenheiro mecânico com título de doutor. Todo mundo sabe no que deu…
    Essa relação que a França tem com a África encontra a sua explicação na “Teoria de Desenvolvimento Dependente” foi e é ainda muito estudado aqui na América Latina…. não dá pra explicar numa carta…
    Antes de conceder indepenência as suas colônias, De Gaulle percorreu a esses países e fez a seguinte indagação: Querem independência parcial ou total? Daí surgiu aquela celebre resposta do Presidente Sekou Turé que diz: “Prefiro ser preto pobre do que escravo rico”,…. bem Guiné Conakri seguiu outro caminho e Senegal e outros abraçaram a França….
    Na minha, opinião, primeiro passo é encontrar o minímo de estabilidade política, aumentar a oferta de alimetos (incentivar produção agrícola), àgua e energia para suprir as necessidades de bens primários da população que cresce de forma galopante principalmente nos centros urbanos. Estado de miséria no qual o nosso país se encontra hoje torna inviável qualquer política de desenvolvimento.
    O segundo é insentivar o desenvolvimento do setor privado (pequenos negócios importante) para reduzir o desemprego….

    Um Abração

    Elói Biquer (Engenheiro Agrônomo, mestre em Desenvolvimento Regional e Doutor em Desenvolvimento Sustentável).

  10. Zeferino G. Silva diz:

    A 18 anos de adesão a UEMOA i’ve been pretty much blind folded(foi marrada cabra cega). Muito obrigado pelo tempo e a energia investido no seu artigo. Parece que a primeira e segunda geração dos dirigentes Africanos depois da independências dos países africanos. Somente, sonham muito com o títulos dos cargos politicos. Na verdade muitos deles não sabem e nem teem minima noção do que e DIRIGIR e nem sabem decidir o que e bom para as sua casas or filhos. Perhaps they have their cuts. Ke ku bom na es UNION pa Guine Bissau ku pui no entra nel.
    Obrigado Lassana Mane por partilhar. Abraços

  11. Mamadu Bari diz:

    olha senhor economista obrigado pela informacao a que nos transmitiu.so te poco dizer que nao ha guieense ignorante,muitos sabem das condicoes do dinheiro CEFAO e alguns nao sabem.saber ou nao temos que aceitar porque as condicoes e que nos obriga aceitar porque somos gentes cultos mas de um pais pobre.todos esses positivos pontos que voce focou,realmente sao factos a pensar e tomar acoes,mas essas acoes ainda e cedo.tiramos conclusao no nosso dinheiro PESO que tinhamos,donde esse dinheiro foi bem desvalorizado face ao franco CEFAO porque nao temos recurssos suficiente para termos dinheiro com aqual se poca fazer face ao CFAO naquela zona.(portanto no tem que tapa udjo dia na tchiga e ca ahos)obrigado adeus mantenha pa boos

  12. Africano diz:

    Uma reflexão tão interessante que deveria ser lida por todos os africanos. E tapanu rostu e na ngananu kuma e sta na djudanu. Obrigado Lassana.

  13. Otílio Camacho diz:

    E o Dr. Lassana não falou que a França não só tem prioridade na aquisição de qualquer produto exportado dos países da zona França a preços mais baixo, como obriga também que estes países ao importarem dêm sempre prioridade aos produtos, tecnologia e assistência francesa.
    É impôr um país obrigatoriamente a uma neo-colonização, com vantagens para um lado só.
    Com isto quero que as pessoas entendam o porquê de eu ser contra a zona franca. Em cada produto exportado GB perde milhões!

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