Opinião: Escutar o Povo com Orelhas de Elefante

Filomeno Pina

 

A higiene mental é um bem essencial, uma necessidade “refrescante” que faz falta a autoestima de cada um de nós. Este bem espiritual contrasta com individuo fragilizado, no isolamento em relação aos outros, percorrendo “caminhos de cabra” estreitos e movediços, à procura de reforços, para anular seu estado de medo abstracto, talvez por falta de amor-próprio, o melhor será cuidarmos da nossa higiene mental na relação humana, porque nunca é demais perceber primeiro quem nos rodeia e que tipo de influências estamos sujeitos. Enquanto líderes políticos, antes de se decidir sobre a vida dos outros, convém lembrar que o Povo espera melhor política dos líderes, e isto significa que o País está acima de interesses pessoais, portanto – servir o Povo – é a palavra de ordem, cumprindo este dever revolucionário, têm em troca a satisfação e reforço da auto-estima do Povo!

Por Filomeno Pina | filompina@hotmail.com

A razão fulcral porque saímos “ontem” em busca de reforço na vizinhança para nossa auto-estima na política, terá sido uma tentativa de evitar uma saída da crise pela porta do fundo, em vez de usarmos a porta principal, merecedora de um Líder legitimo do Povo, e aqui falhou o nosso Chefe de Estado, porque sem ouvir as vozes da Casa na sua totalidade, interrompeu a auscultação e procurou o silêncio fora de Casa, enquanto na família se ouviam gritos de revolta, mas fez-se surdo/mudo e partiu para pernoitar ao lado, na Casa do vizinho, uma medida que pareceu ingénua, para quem deveria reconhecer e respeitar em primeiro lugar a realidade interna da sua própria Casa e nunca submeter por comparação este valor ideal a terceiros, por mais fortes e inteligentes que sejam, certo é que desconhecem as medidas exatas do sofrimento do Povo Guineense e, por isso mesmo, sua Excia. Sr. Presidente da Republica terá sido mal interpretado na sua ausência abrupta, para se deslocar, sem primeiro ouvir e reflectir com os representantes do Povo e em nossa Casa!

O que motivou ainda mais a revolta popular contida e guardada para no regresso se manifestar com o dobro ou mais de “raiva” dos discordantes da sua corajosa posição como chefe de Estado, levando avante a sua decisão. Penso que não esgotou os seus dotes humanos e de politico hábil, talvez por má influência, quem Sabe…

Saber sobre isto, é saber registar a alteração emocional do Povo com um termómetro Guineense, pôr-se na pele do Povo, evitando a pele do “lobo” além fronteira, de onde não conhecemos bons ventos sem cobranças difíceis, o que é sabido, basta recuarmos dezoito anos, pois o Povo tem boa memória, regista! Perdeu a oportunidade de erguer a bandeira da paz com humildade “paternal” como pai da Nação, fazer uso do diálogo centrado na unidade nacional, usar inteligência política revolucionária, inspirada na unidade nacional, i. é, centrada no desejo do Povo Guineense, capaz e que sabe o que quer!

Todos nós sabemos que a revolução come os seus filhos, uma causa que muitas vezes separa sentimentos e opções, levando a separações físicas e ideológicas ou mesmo à morte. Muitas vezes, no solo Guineense, assistimos à revolução que engoliu vivos, em homenagem aos mortos e fantasmas, gente obcecada pelo poder, que se comem uns aos outros e no final das traições, normalmente fica uma serpente vencedora, para receber o troféu de ocasião e a bênção dos padrinhos, por ironia do destino, numa Terra que nos há-de comer a todos sem deixar UM para semente, e não seja por isso, iremos assistir a mais uma digestão/congestão difícil e talvez sem formigas por perto.

Haverá uma razão oculta para este conflito sem precedente na história política de vários Governos ao longo de mais de quarenta anos de independência? Será que a ajuda material a caminho do País é foco de instabilidade politica e interinstitucional, a ser verdade é péssimo só de imaginar!? E mais ainda, há uma pergunta que fica no ar sem resposta. Quem são os padrinhos dos líderes com machado de guerra apontado às pernas, sem respeitar fronteiras institucionais!  Penso que precisamos de líderes com melhor sentido de Estado (sem ofensa).

Um aspecto positivo a enaltecer nesta crise politica e institucional na Guiné-Bissau, notório e superior às expectativas foi a maturidade revelada pela classe castrense – OS MILITARES DA GUINÉ-BISSAU ESTÃO DE PARABÉNS – porque souberam resistir a qualquer tipo de “clima politico/aliciamento” neste conflito, mantendo-se afastados da crise provocada pelo poder politico e, ao mesmo tempo, mantendo-se firmes no controle e segurança do Estado, atentos e em estado de alerta, assumem o controlo do território nacional, BRAVO!
.
Desta vez ficou claro que afinal – OS POLÍTICOS TÊM DE COMER MUITO “SAL” – para ter mais experiência politica e de governação, aprender a analisar a fundo, com inteligência afinada, antes de decidirem mal, cometerem asneiras ou provocarem danos desnecessários. Desta vez ficamos a saber sem equívocos, nomes e apelidos de políticos causadores desta crise institucional, hoje no País e não são militares! Sublinho por isso, que só teve vantagens, o afastamento da Classe Castrense de qualquer relacionamento marginal com “políticos”, dentro ou fora dos quartéis!

Esta crise política que sacudiu o Pais, lembra – “PESCADINHA DE RABO NA BOCA” – a imagem desta situação política complicada que se vive na Guiné-Bissau, de difícil resolução, um conflito que engoliu os próprios pés, dificultando a manobra de andamento rápido e acertado para sair da crise que se arrasta há alguns dias, pior do que dar tiros nos pés, é morder as extremidades dos pés, friamente, na intenção de repetir uma redundância teimosa de bloqueio do imaginário político de ambos os lados em conflito. Assunto que irá fazer correr muita tinta ameaçadora e perigosa nos próximos dias, por isso convém usar flexibilidade inteligente, aproveitando este recuo de pouco mais de duas semanas de “paragem”, para ganhar balanço e transpor o obstáculo último (crise política) desfazendo este nó-cego!

O maior Partido com assento parlamentar na Guiné-Bissau (PAIGC) acaba de perder o controlo do País que ganhou para governar nas últimas eleições de 2014, desesperado, este mesmo Partido convocou uma mega-manifestação em Bissau, com esta acção política de rua, pretendeu mobilizar o Povo, contra o decreto Presidencial que demitiu o Governo.
O que é inédito na vida politica nacional, o facto de, tratando-se de um Partido maioritário que venceu as eleições com maioria absoluta e elegeu um Presidente da República, um primeiro-Ministro, Presidente do Parlamento, e revelando aparentemente que tudo vai bem, formaram um governo de inclusão, aproximando todos os Partidos com assento Parlamentar, distribuindo responsabilidade a todos na gestão do Pais, um ano passado, registamos este impasse frustrante que se vive uma vez mais na Guiné-Bissau, o País parou e ninguém esperava!

De realçar que quem preparou e convidou para a festa os partidos de oposição para formar Governo foi o PAIGC, não obstante, um dos seus membros, resolveu partir a loiça toda na cara dos convidados, acabando com a festa, afinal de contas os irmãos da mesma família politica, agem como inimigos uns dos outros, estão zangados e não se conformam, sabe Deus que “partilhas” estarão na base desta discórdia, numa altura destas perante convidados de outras sedes partidárias, observadores internacionais e outros – sua Excia. Sr. Presidente da República – assumiu quebrar um acordo de natureza política e institucional dum projecto do Governo, alegadamente por motivos de corrupção continuada e obstrução à justiça dos membros que formam este Governo agora deposto, seriam estes dois polos, os mais fortemente criticados pelo Chefe de Estado, levando a demitir o Governo eleito em 2014.

Digamos que por agora, a batata quente passou para o quintal do palácio, nem de luvas se livra do calor dum Povo em estado de alerta. Muito embora pense que, Sua Excia. terá razões para querer ver com muita transparência o perfil de certos lideres, porque os há, com manchas de corrupção indisfarçáveis e que continuam no exercício das suas funções como governantes no governo deposto, pois esses, no entender de esmagadora maioria, não merecem lá estar/continuar, independentemente da sua competência, uma vez suspeitos da prática de crimes e a serem investigados pelo Tribunal, devem todos nesta situação, merecer o afastamento para prestar contas na Justiça, ninguém é insubstituível, e urge lavar  o rosto deste Governo, tornar ainda mais transparentes as suas medidas e propostas de governação aos olhos do Povo, para isso, há que afastar os corruptos compulsivamente para enfrentarem a barra dos Tribunais e, boa sorte.

Independentemente dos “louros” colhidos desta mega manifestação – versos – mega fragilidade do PAIGC, digo Eu!? Na verdade, esta manifestação convocada para demolir o PR, paradoxalmente, mostrou sinais de um Partido enfraquecido, i.  é, frágil do ponto de vista da sua filosofia politica, para chegar ao ponto de inquietude a que assistimos, a leitura é dum resultado desanimador do ponto de vista da unidade no Partido (PAIGC) e não só, há sinais que revelam – um  egoísmo e luta pelo poder – entre os camaradas mais cotados no Partido, o que é perigoso para lidar numa escolha qualitativa dos seus melhores “quadros”.

A meu ver, este Partido está doente, não há meio de conseguir fazer um diagnóstico correcto e acertado, como já disse num artigo de opinião ainda antes das eleições de Cacheu, volto a sublinhar, este Partido precisa de um líder a tempo inteiro e não em part time, a ter tempo suficiente para modificar o que está mal nas decisões do Partido, embora com boas estatísticas eleitorais, continuando a poder exibir massa muscular de “ginásio”, uma força adquirida ao longo de mais de meio século de vida partidária, razão porque atrai um maior numero de Guineenses nas urnas, mas mesmo assim, estou convicto duma doença que afecta este Partido e vai “matando” os seus melhores Camaradas, uma delas é a traição, como pano de fundo, e mais ainda, ela tem minado o progresso deste Partido e, consequentemente, o desenvolvimento da Guiné-Bissau, INFELIZMENTE!
Antes fosse, falarmos de uma receita de “pescadinha de rabo na boca”, com arroz de feijão manteiga ou milhos em molho de tomate, mas claro que não, aturamos “pescadas irritadas ” umas com as outras, disparando tiros nos pés torto e a direito em vez de arrotarem postas de pescada, enfim, são coisas nossas, como diria o outro…

Neste conflito politico e interpessoal, o País recuou muito e para um campo ansioso menos bom, acredite se quiser, pois receio que este barulho tenha acordado os velhos fantasmas (afastados com o golpe de estado último) ainda próximos, e quem sabe desta remodelação agora rejeitada, venhamos a assistir a uma realidade nova, a impossibilidade de remodelação, para formar Governo e também sobrar para afastar o Presidente da República. Nisto o País pode fugir das nossas mãos por tempo indeterminado! Portanto, meus caros compatriotas que têm o lápis nas mãos, vejam bem se preferem “engolir” os pés ou utilizá-los para saltar do prato, antes que sejamos refeição quente numa mesa em formato G8; ou simplesmente G’sss, numa salada russa…

Pense nisto, ok? Poupe o Povo e as nossas Forças Armadas, pense camarada, este aviso é muito sério para ser poesia, só.

Avante Camaradas, o tempo é de ouro, abaixo a “Literatura Tchútchydur” viva a liberdade de expressão mas com responsabilidade e conduta positiva dos líderes e sociedade civil, principalmente neste momento conturbado e complexo, vivido no País e que precisa urgentemente de compreensão, flexibilidade de ambas as partes e, sobretudo, confiança e reconciliação, rumo ao progresso através de um governo remodelado e com membros de transparência e reconhecido empenho/desempenho na sua área de gestão da coisa pública.

Devemos acabar com o uso de – colete à prova de Justiça – e colocar o cidadão perante o Tribunal, em igualdade de circunstâncias e de condições, impedir que suspeitos de prática de crimes se refugiem nos cargos com imunidade parlamentar, governamental ou outra qualquer, com o objectivo de impedir o funcionamento da Justiça de mover livremente no meio do cidadão por igual, fazendo o seu trabalho no terreno, como é esperado num Estado de Direito!

Fugir à Justiça (ñbym-róga) a pedir “colo” ou refugiando no Parlamento, no Governo ou no Elenco Presidencial, não dá! Nunca será visto com bons olhos, jamais!

Quem pode e manda no Povo, deve ser exemplo e espelho das instituições, por isso mesmo, é de bom senso, ético, digno, que o suspeito de prática de crime, primeiro trate da sua “saúde” na Justiça, só depois, ocupar o lugar de chefia se for o caso. Quem não deve, não teme!
Se já pensou o melhor para o País, mas só se já pensou o melhor para o País, pois então avante Camaradas!

Djarama. Filomeno Pina.