Opinião: PAIGC e o seu triangulo diabólico traíram a confiança do povo guineense

Os pessimistas acreditam que a situação da Guiné-Bissau é uma praga. Isto quer dizer que o desenvolvimento e o bem-estar no país são impossíveis ou inexistentes. Entre eles, tudo se resume em “djitu ka tem” e a última expectativa de vida é sempre “nô tene fé”. Os realistas percebem que é ambição exagerada do homem guineense. Último recurso para eles é autodefender-se contra manobras maquiavélicas do maligno guineense, afirmando em única voz “i djusta manobras diabólicas de alguns políticos”. Se essas duas realidades não forem vistas na nossa sociedade, caro leitor do “gbissau”, você é livre para fazer sua escolha e apontar o indicador a quem entender que é obstáculo ao desenvolvimento da nossa querida pátria.

Por Neemias António Nanque | Email: neemiasoficial@gmail.com

 

Depois do levantamento militar de 1998 até hoje, militares eram considerados como cúmplices em certos acontecimentos político-militares no país. Em todos os levantamentos em que eles foram incumbidos nunca tivemos uma liderança militar. Quero dizer com isso que os militares pegavam em armas mas são os políticos que assumem a liderança. No meu entender, os levantamentos surgem por ter encontrado uma lacuna, facilitada pela reinante divergência no meio da classe política guineense.

O mais condenado com toda veemência tanto no plano nacional e quanto internacional foi o levantamento militar de 12 de Abril de 2012, que derrubou o governo do PAIGC democraticamente eleito, colocando o país num abismo político. Os que foram convidados para gerir o país durante o período de transição não souberam demonstrar ao povo a responsabilidade e a certeza de que é possível desenvolver sem pensar no outro. Ao contrário do desejado, o país foi gerido durante esses dois anos como se fosse “karni di baka na kau de tchur”.

Hoje, na fase em que o país se encontra, o martirizado povo guineense foi surpreendido com um golpe constitucional. Estou fora do país, mas vi alguns sinais de mudanças e nem é preciso aponta-las porque a sociedade guineense já se pronunciou sobre elas. Nossos dirigentes às vezes não percebem as responsabilidades que eles têm sobre os cargos assumidos. O povo guineense não votou para receber em troca uma desordem constitucional. A maioria esmagadora apostou na duplicidade prometida durante a campanha para colocar o país ao mais alto patamar porque a Guiné-Bissau merece um alívio e não intentonas sobre “inventonas” mal orquestradas.

Recuando um pouco no tempo, importa salientar que já aconteceram espetáculos institucionais do gênero na nossa jovem democracia. João Bernardo Vieira já o fez contra o seu Primeiro-Ministro Manuel Saturnino. Koumba Yalá demitiu seus três Primeiros-Ministros e dissolveu o parlamento. De novo o João Bernardo Vieira voltou a fazê-lo contra o Primeiro-Ministro Carlos Gomes Júnior, democraticamente eleito. Sem detalhes, se formos ver na lógica, os motivos dessas demissões não eram dos fundamentos que a Constituição pede.

Aliás, estamos a falar do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde-PAIGC, que já teve seus dois governos depostos. A razão foi a mesma: difícil relacionamento entre o Primeiro-Ministro e o Presidente da República. Lembro-me que atual Presidente do PAIGC disse que é o partido dele “que destruiu o país é o mesmo partido que vai o construir de novo”. Há muitas razões para esquecer o PAIGC e retirar toda a confiança nele depositado. Mas, infelizmente, em cada embate eleitoral, o partido surge sempre com uma figura que conquista o atormentado coração do povo.

É do conhecimento público que o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo-Verde nunca conseguiu resolver por definitivo as suas divergências internas. Pelo que eu sei, por mais difíceis que eram os problemas, sempre os referendos eram postos nos cantos da sede do partido, preocupado em alcançar o desafio de momento-ganhar eleições. Crises internas do partido são claramente observadas em muitas circunstancias, a mais visível foi a criação por membros do tal partido, o Partido Republicano para o Desenvolvimento-PRID. Aliás, são essas divergências que deram lugar hoje para assinatura do “mantchado” constitucional que acabou de demitir o governo do partido de Cabral.

Um guineense, atento ou não, sabia que o congresso de Cacheu vai trazer repercussões negativas num curto ou médio prazo. Tudo aconteceu porque os mais altos dirigentes das nossas instituições deram lugar para que isso acontecesse. Logo daremos milhões e milhões de passos de retaguarda. Entretanto, Sua Excelência Presidente da República, é ciente de todas as deficiências do partido em reconciliar seus membros. A decisão tomada é justa do ponto de vista político e interesseiro, mas, no meu entender, este acontecimento não devia ter lugar nesse preciso momento. Como um garante da paz social e de tranquilidade, a demissão do governo não deve ser o último recurso a recorrer. Porque o tal decreto presidencial nunca irá satisfazer sua ambição de desenvolver o país, sublinho neste pequeno texto que já está aberto um duelo declarado contra presidente do seu partido e terá que aguentá-lo.

Ainda paira, na minha cabeça, a comunicação de José Mário Vaz na Assembleia Nacional Popular com seu discurso responsável, bem elaborado e tranquilizador,  dizendo: em nenhum momento, o Presidente da República pronunciou-se sobre a queda ou não do Governo”. Tudo que era dito à volta da demissão ou não do governo foi considerado como “boatos” pelo Presidente da República. Aliás, o Chefe de Estado prometeu que nunca o faria. Obriga-me perguntar entre boatos e a queda do governo: a quem falta a verdade?

Depois dessa explanação à Nação, tudo voltou à normalidade. Hoje em dia, o povo guineense recebeu em contrapartida um golpe de Estado perpetuado por aquela pessoa que dantes ninguém ousava apontar o indicador. No entanto, sublinho que o povo guineense deve estar preparado e saber que é a lei que dá ao Presidente poder de demitir o governo. Não é preciso se alarmar e e tampouco encurtar esperanças. Mas a queda do governo não deve ser feita desse jeito como se fosse numa situação do proprietário de uma quinta com seu funcionário.

Entretanto, no que tange à recente comunicação a Nação, subscrevo que o Senhor Presidente da República podia encontrar uma solução mais eficaz sobre a arquitetada crise institucional do que demitir o governo. De acordo com sua mensagem, que peço desculpas para anexar agora, uma parte diz assim:

Na ocasião, apresentei ainda ao Presidente da Assembleia Nacional Popular três soluções constitucionais para ultrapassar a crise, a saber:

  1. Dissolução da Assembleia Nacional Popular;
  2. Demissão do Governo, convidando o PAIGC, enquanto partido vencedor das eleições, para indicar nome para ser nomeado novo Primeiro-Ministro;
  3. Manter o actual Primeiro-Ministro e proceder a uma remodelação profunda do Governo, por forma a torná-lo credível.

Se tudo que o Presidente fez não for uma encomenda, o Chefe de Estado tomaria a terceira solução apresentada ao Presidente da Assembleia Nacional Popular. Tomando em consideração tantos desejos manifestados pela sociedade civil, partidos políticos e a população em geral. Pelas informações a que tive acesso, estou convicto que José Mário Vaz está nessa luta sozinho contra a vontade expressa do povo guineense. Porque as partes mencionadas pela Constituição da República estão de costas viradas ao Presidente. O povo guineense e a sociedade civil, todos rejeitaram a proposta dantes apresentada pelo Chefe de Estado.

Na qualidade de cidadão atento com o evoluir da situação política do meu país, usando as prerrogativas que o sistema democrático me dá, tomo a ousadia de questionar o Presidente. Por que proferiu na sessão plenária da Assembleia Nacional Popular, um discurso enfeitado para insultar o povo guineense?  Afinal, os boatos são verdade. No entanto, é sabido que as suas manobras com seus conselheiros foram orquestradas há muito tempo e o Domingos Simões Pereira percebeu bem da panela posta a ferver na Presidência contra o governo. Por isso, ele recorreu primeiro à ANP com a moção de confiança. Hoje, o tempo nos mostrou quem é o verdadeiro lobo vestido de carneiro.

É importar enfatizar que nos estatutos do PAIGC, é o presidente do partido que assume o cargo de Primeiro-Ministro. Agora, o presidente vai rejeitar o nome de Simões Pereira? Ou vai dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas num prazo de 90 dias de acordo com nossa Constituição? Se, no caso todas estas hipóteses não acontecerem, José Mário Vaz vai de novo desobedecer à vontade do povo e nomear um Primeiro-Ministro da sua confiança?

Para terminar, importa salientar que esta atitude mostra mais uma vez a escassez de verdadeiros dirigentes patrióticos comprometidos com o povo e com a capacidade de fazer funcionar a máquina governativa. Alguns dos nossos políticos já imprimiram diplomas de incompetência para estar à frente dos destinos da Nação.

Deus abençoa nha terra.

Neemias António Nanque

São Francisco do Conde, Bahia, Brasil.

 

 

 

 

2 Responses to Opinião: PAIGC e o seu triangulo diabólico traíram a confiança do povo guineense

  1. nhonkani diz:

    Sr Antonio Nanque, concordo em parte consigo, mas acho q ouve uma dobdiencia por parte do PM em relaçao ao PR q é o primeiro magistrado da naçao. Qdo oPR pediu o PM d remodelar o governo o PM nao o fez, foi ali que tudo começou o PM estava mostrar “matchundadi” e o PR por sua vez nao pensou duas vezes demitiu o governo, qdo noa era momento apropriado p isso como bem dizeste, por isso em todas as minhas opinioes eu digo sempre: basta o PAIGC, o povo deve escolher outro partido chega nao importa se o governo e bom ou nao, ou se o PR esta erado ou nao que se lixe que raio os parta.

  2. Salupeto Pena diz:

    Rapaz sou teu admirador, a tua visão expressa em palavras e traduzidas neste Jornal eletrónico, não caíram no saco, afinal, não és mentiroso como muitos queriam fazer entender.

    coragem

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