Entrevistas: Ernesto Dabó fala da música, literatura, política e de activismo cultural

  • ERNESTO DABÓ, O ACTIVISTA CULTURAL – ENTREVISTA AO “PONTO FINAL” DE MACAU, 17 DE MARÇO DE 2016

Ernesto Dabó é um poeta, intelectual, cantor e compositor e uma voz crítica em relação ao actual estado das coisas na Guiné-Bissau. O autor é convidado do Festival Literário de Macau – Rota das Letras e falou no Edifício do Antigo Tribunal, sobre a evolução e as perspectivas da literatura guineense.

“Publicar livros no meu país é um combate complicado”

Ernesto Dabó é formado em agricultura e direito. Entre 1975 e 2010 foi quadro da administração pública guineense. Em paralelo, desenvolveu uma carreira como cantor, compositor, percussionista, escritor, poeta e intelectual. Fez parte de um movimento artístico-cultural que deu origem ao agrupamento musical “Cobiana Djazz”, no final da década de 1960, precursor na Guiné-Bissau de um género de música de intervenção. Nascido em 1949, na ilha de Bolama, a 18 de Julho – data de nascimento do líder sul-africano Nelson Mandela, como faz questão de lembrar – Dabó admite ter tido sorte com o contexto familiar e social em que cresceu. O escritor escreve regularmente em blogues e meios de comunicação social guineenses e estrangeiros, tem família ligada à imprensa. A sua irmã e cunhado são proprietários de um jornal estabelecido em Bissau: a Gazeta de Notícias. O autor tem já uma colecção de crónicas que tenciona publicar em breve. São textos essencialmente críticos, que abordam a situação do seu país.

 

Qual é a sua faceta mais forte? A de poeta ou a de músico?

Ernesto Dabó – Sou um amante da cultura, um activista cultural. Nesse sentido as actividades culturais dominantes no meu dia-a-dia são a música e a literatura. Inicialmente projectei-me como músico, na juventude fiz música. A música foi algo que sempre respeitei muito. Mas, não a exerci como actividade principal. Agora, como homem ligado à literatura, desde muito jovem que escrevo. Acontece que publicar livros no meu país é um combate bem complicado e, depois, com as turbulências que o país foi conhecendo… Pensei em meados da década de 1990 em preparar a publicação das coisas que vinha escrevendo, mas então não é que tivemos o azar de ter a guerra civil de 1998? E eu vivo num bairro chamado “Bairro Militar”, mas que não tem nada de militarista: é um bom bairro, de gente pacífica como eu. Mas, era uma zona que parecia um condomínio fechado, rodeado com muro, acharam que era um lugar ideal para instalar um grupo de gente em guerra e fizeram uma base militar nesse perímetro onde eu vivia. Como consequência ficámos sem nada em casa, destruíram tudo, casas abaixo, e nisso desapareceu um arquivo que eu tinha, que era toda a minha vida, não só a minha produção literária, como o meu arquivo de várias peças publicadas em jornais. Depois disso entendi que tudo o que fizesse deveria tentar publicar. Em 2011, publiquei um caderninho de poemas, que tem o título de “Mar Misto”, e tive a surpresa de ser bem recebido. Nesse trabalho publico poemas em português e em crioulo. Porque acredito que o bilinguismo é mais eficiente do que o monolinguismo: é mais útil, mais consequente. E então sai esse livro nas duas línguas, que me pertencem.

 

Defende a oficialização do bilinguismo na Guiné-Bissau?

D. – Penso que há gente que ainda não percebeu que as relações linguísticas não devem ser politizadas, porque se forem politizadas, o conflito nunca mais termina. As línguas devem ser complementares para entendermos o mundo, a nós e aos outros. Estamos agora a falar o português, mas se sairmos daqui teremos que usar o inglês ou o mandarim. Qual é o mal em haver variedade e de todas essas línguas terem a mesma função, comunicar? Quando as pessoas começam a ver as coisas em termos políticos, alguns até em termos ideológicos, acabam por hierarquizar as relações linguísticas. Quando você faz isso, cria conflito, porque o dono de uma língua não vai aceitar que você subestime a sua língua. O tratamento desta questão não deve ser dramático, deve ser natural, porque o crioulo, para nós, veicula a cultura. Se você quiser ensinar o português na Guiné tem que veicular a cultura também, o primeiro passo é a língua materna, se começarmos a ensinar nos primeiros graus em crioulo, creio que será muito mais fácil assimilar o português como língua de comunicação global. Na Guiné cometeu-se o erro grave de tratar o crioulo como no tempo colonial, não é língua de ensino. A realidade impôs o inverso, ainda não se ultrapassou os 10 por cento de população a falar fluentemente o português, e nesses 10 por cento, só uns três ou quatro por cento é que falam e escrevem como deve de ser. Outro aspecto, são as instituições do Estado, não conseguem impor o português, mesmo nas reuniões da presidência, do conselho de ministros, da assembleia, o crioulo é dominante, esse é um fenómeno que deve ser respeitado. As coisas devem ser encaradas com realismo, não vamos contrariar o que é incontrariável, dizer que nunca mais se vai usar o crioulo nas instituições da República, é perder tempo, e o inverso também, porque o português também está presente em tudo quanto é a nossa cultura. Então, o bilinguismo tem de ser respeitado, estudado, estimulado, porque é a harmonização de duas forças. Porque do ponto de vista histórico o português e o crioulo pertencem-nos. Eu reflicto em crioulo, escrevo em português ou em crioulo.

 

Os seus livros são ambos edições de autor, certo?

D. – “Mar Misto” é uma edição de autor, editei em Portugal, inclusive já estou na segunda edição, depois percorri alguns países apresentando o livro junto da nossa comunidade guineense, a nossa diáspora.

 

É também autor de “Da Maioria Qualificada à Crise Qualificada”, de 2013…

D. – Dada a minha militância política no PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde fundado em 1956 por Amílcar Cabral. O nome do partido reflecte a aliança secular entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau administradas conjuntamente por Portugal até 1878], evoluí politicamente no país, analisando e tentando compreender como funcionava o país e o partido PAIGC e acabei por concluir que era preciso reflectir sobre as razões dessas crises que nunca mais nos largam. Então aconteceu uma situação paradoxal em 2009: o PAIGC ganha as eleições com uma maioria qualificada [o candidato presidencial do PAIGC, Malam Bacai Sanhá venceu na segunda volta com mais de 63 por cento dos votos] e acaba por perder o poder, é derrubado por um golpe de Estado (em 2010). Isso pareceu-me extremamente estranho, tinha que ser analisado. Escrevi um ensaio que tem por título “PAIGC, da Maioria Qualificada à Crise Qualificada”. Esse trabalho contribuiu, penso eu, para que muita gente pudesse perceber o porquê das cíclicas crises tendo por epicentro o próprio PAIGC. Quer dizer, o PAIGC ganha e derruba-se a si mesmo, quase que frequentemente. Por exemplo, agora, estamos a atravessar mais uma crise.

“NA GUINÉ-BISSAU COMETEU-SE O ERRO GRAVE DE TRATAR O CRIOULO COMO NO TEMPO COLONIAL, NÃO É LÍNGUA DE ENSINO. A REALIDADE IMPÔS O INVERSO, AINDA NÃO SE ULTRAPASSOU OS 10 POR CENTO DE POPULAÇÃO A FALAR FLUENTEMENTE O PORTUGUÊS, E NESSES 10 POR CENTO, SÓ UNS TRÊS OU QUATRO POR CENTO FALAM E ESCREVEM COMO DEVE DE SER.”

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

A que se devem estas crises políticas constantes?

D. – Uma transição de colónia para um Estado moderno tem uma componente cultural extremamente complexa. [Não é fácil] Sair de uma sociedade dominada, que foi sujeita a uma política de alienação estruturada e intensamente orientada, libertar-se dessas taras e assumir uma cultura moderna de Estado, que de repente transita para o sistema democrático, para o qual ainda lhe falta nível cultural para um exercício eficiente. Pode haver gente a exercer cargos políticos, mas que estão longe de exercerem com a competência e a experiência e a visão necessárias em termos de democracia e desenvolvimento.

 

Quando diz que falta cultura, está a referir-se a educação?

D. – A educação é uma parcela muito importante, talvez a mais importante, mas a escola da vida… porque repare, dirigir não é uma ciência, é uma arte. É preciso ter uma capacidade interpretativa, descobrir as razões dos fenómenos, como conduzi-los para que tenham consequências positivas e não me parece que se nasça já com todas essas qualidades. Ou que haja uma universidade ou um estabelecimento de ensino que prepare as pessoas. Há vários contributos, a escola da vida, a trajectória individual e colectiva que vai melhorando a qualidade da liderança. Transitar de “colónia” para um Estado moderno implica um trabalho de fundo a nível cultural, para que as pessoas se apercebam da sua identidade. Caso contrário, o indivíduo é meramente um substituto do colono. Quer dizer, transfere o sistema [colonial] para o quadro nacional e isso é insuportável para a sociedade e não oferece estabilidade a ninguém. Deveria haver um debate nacional sério: culturalmente onde estamos, como estamos a evoluir? A elite nacional deve ter a responsabilidade de se auto-analisar e de reflectir.

“A ACTIVIDADE LITERÁRIA É POUCO CONHECIDA ALÉM-FRONTEIRAS, PORQUE NÃO HÁ UMA POLÍTICA DE PROMOÇÃO DO LIVRO E DA LITERATURA EM GERAL (…). O SECTOR CULTURAL É AQUELA ÚLTIMA PRENDA QUE SE DÁ A UM APOIANTE POLÍTICO.”

Em que ponto está a literatura na Guiné- Bissau? Pelo que já deu a entender é difícil para os autores verem as suas obras publicadas. Há outros autores e intelectuais a produzir reflexões sobre o país, a publicar em jornais ou noutros meios?

D. – É essa a grande satisfação que temos, de verificar que os artistas e produtores guineenses, no continente africano pelo menos, devem ser dos mais activos e interventivos, na música, na literatura, na pintura, em qualquer domínio das artes há um sentido contestatário, reivindicativo na Guiné Bissau muito forte.

 

Onde é que estão essas vozes contestatárias, na Guiné-Bissau?

D. – Estão na Guiné-Bissau. A maioria está lá. O que acontece é que existe uma adversidade entre o poder e esse grupo. Protagonizo isto há umas dezenas de anos. Começámos na área musical, com o grupo Cobiana Djazz, que criou uma escola – que ainda hoje é a principal – de texto com conteúdo de protesto, de alerta, de crítica, para que as coisas entrem no devido eixo. No domínio da literatura, pode-se dizer que a nossa literatura começa a surgir também com a luta de libertação e pela independência nacional. Porque no século passado, houve uma figura que deixou obra, que foi o nosso cónego Marcelino Marques de Barros, que viveu entre o século XIX e princípio do século XX, e deixou obras, em vários domínios. Depois disso, só em 1973 é que surgiu um livrito de poemas de um autor autóctone. Não digo que não se tenha escrito sobre temas guineenses, mas esses autores eram da metrópole, de Cabo Verde, alguns. Mas, autores de origem guineense começaram a surgir a partir da independência, há 40 e tal anos. As edições acontecem na Guiné e em Portugal. Inclusive no dia 17 vamos ter mais um lançamento do nosso grande romancista Abdulai Silá. Asseguro-lhe que neste momento temos largas dezenas de autores. Agora, a actividade literária é pouco conhecida além-fronteiras, porque não há uma política de promoção do livro e da literatura em geral e mesmo as nossas políticas culturais, até aqui, infelizmente, situaram-se muito aquém daquilo do que era desejável e possível. O sector cultural é aquela última prenda que se dá a um apoiante político. Quando nós somos um país que chegou à independência através de uma luta definida por Amílcar Cabral como sendo um acto de cultura e um factor de cultura. E a luta não termina, é eterna, é infinita. Quer dizer que todas as etapas da vida de uma sociedade são de luta. Essa percepção não existe no nosso poder, eles pensam que aquilo se limita a música, dança, baile, quando isso são disciplinas artísticas que integram o essencial da cultura.

 

Como é que se produz cultura na Guiné- Bissau perante a falta de apoio institucional e privado? É iniciativa individual?

D. – Fundamentalmente. Por exemplo, no domínio literário os trabalhos que referi foram edições de autor. Ainda estamos longe das pessoas perceberem a importância de um livro ou de uma obra de arte. Ainda temos uma relação primária com estas coisas. Quando é assim, os criadores artísticos vêm-se em dificuldades para verem materializadas as suas obras. Há coisa de 20 anos conseguimos ter uma editora privada, que é do Abdulai Silá e seus sócios, que é a “Kusimon”, ultimamente surgiu a Curubal do escritor Tony Tcheka, é o sector privado que já está a dar alguns passos nesse sentido, com sacrifícios enormes. Em termos públicos, a nossa Imprensa Nacional está agora a enveredar por esse caminho da edição, mas uma boa parte das coisas são publicadas em Lisboa. Ninguém sente que haja uma política de apoio para que a actividade literária se desenvolva normalmente e de forma consequente. Por exemplo, cheguei aqui, e analisando os documentos desta iniciativa da Rota das Letras, vejo um apoio incrível, vi páginas largas com os patrocinadores. Isso revela que à frente dessas instituições há gente com uma enorme sensibilidade cultural. Você na Guiné chega a um banco, uma empresa, apresenta o seu projecto e apercebe-se que os indivíduos não entendem que o que você está a propor é algo de muito importante para a actividade deles. Isso é um dos entraves ao desenvolvimento da nossa literatura e da nossa cultura. Aquilo que as pessoas não conhecem, não tratam com estima e carinho e não defendem. Temem. Porque a violência e a agressividade é filha da ignorância. Temos que todos empurrar para o mesmo lado, para que as pessoas se cultivem mais e um dos veículos essenciais são as artes, a literatura, os livros.

 

O funcionamento escolar na Guiné-Bissau é também muito instável, por vezes não há pagamento de salários, escolas que encerram, a nova geração está a ser penalizada.

D. – Ninguém entende o que se passa no nosso sector da educação que desde a independência não se estabiliza. É preciso ter em conta que o que nós almejamos, que é a estabilidade, a construção, o desenvolvimento do país, começa no indivíduo, se este não tem boa educação contribui para a instabilidade, quando é o inverso, o indivíduo é informado, é culto e percebe os fenómenos, contribui para a estabilização. O cuidado que se deve ter com o sistema educativo deve ser sublime, não se pode falhar uma vírgula na educação. Mas, na Guiné-Bissau, não se consegue terminar um ano escolar sem interrupções no ensino público. É por isso que acho que tem de haver um debate nacional muito sério. É como os mandatos dos nossos Governos, desde que entrámos em democracia não conseguimos uma alternância pacífica, é só golpes, é só confusões. Ninguém ainda conseguiu terminar um mandato. Penso que a instabilidade política é consequência da instabilidade cultural do país.

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

Há muita gente formada que acabou por sair ou que acabou por não regressar à Guiné- Bissau.

D. – Há quadros aos milhares. Consta que cerca de 300 médicos que estão no sistema nacional de saúde português são originários da Guiné- Bissau, formados no pós-independência, sem falar de outros países e de outros domínios de competência. Por exemplo, o aeroporto aqui de Macau está a ser dirigido por um quadro da Guiné-Bissau [António Barros, director do Aeroporto Internacional de Macau], que estava no aeroporto de Bissau, quando começou a modernizar o serviço, veio um fulano qualquer, um ministro que não sabia nada daquilo e incomodou o homem de tal maneira que ele teve que arranjar a sua vida noutro lugar, porque tem família e filhos para educar. Este é um exemplo onde há um quadro guineense a prestar um serviço de topo, que foi afastado da Guiné. Isto são situações que mostram que o sector político está mal culturalmente. Quando o sector político não consegue manter no país os quadros de maior valia, o país não pode funcionar. Em vez destes quadros às vezes são elevados a cargos governamentais indivíduos analfabetos e semi-analfabetos. Porque não conseguiram assumir culturalmente a missão que lhes foi atribuída, não conseguiram criar condições para que as pessoas que podem realmente fazer funcionar o país possam residir e trabalhar no país. Porque ninguém gosta de viver na migração, no exterior. Vivi muito no exterior. Mas, a minha residência permanente é na Guiné-Bissau, não me sinto bem se não for na Guiné, tenho que estar em casa, na minha terra. Esse sentimento é geral, todos os guineenses sentem isso. Infelizmente, as pessoas ainda estão com aquela fobia de chegar ao poder para enriquecer rapidamente e, quando é assim, todo o mundo é inimigo, é concorrente, tem que afastá-lo, esmagá-lo porque senão ainda toca no tacho. Supostamente, estar rodeado de medíocres é segurança para quem está em lugares de decisão, porque não incomodam. Mas, isso não resulta.

 

O Ernesto Dabó cresce e forma-se numa época diferente.

D. – Tenho a sorte de ter crescido numa família equilibrada e de extrema harmonia. Nasci numa cidade cosmopolita para a altura, que é Bolama, que foi capital da colónia até 1941, que desenvolveu um cosmopolitismo que nos permitiu estar a um nível de privilégio, em relação ao resto da colónia. Só para ter uma ideia, estávamos numa cidade com todas as infra-estruturas básicas: um cais, aeroporto, cinema, hospital, serviço bancário, hospital, escolas. Foi aí que fiz a minha instrução primária. Em Bissau concluí a instrução primária. Nesse ano perdi o meu pai. Já tinha um outro irmão em Portugal, ele vai às cerimónias fúnebres do nosso pai e propõe à família: “Ele já fez a quarta classe agora tem de continuar a estudar, deixem-me levá-lo”. Foi assim que fui parar a Portugal, em 1963, e continuei os meus estudos, até que fui recrutado, para a Marinha Portuguesa, mas antes já tinha estado na Escola Agrícola, enfim uma trajectória de sobe e desce na vida, da qual tenho muito orgulho. Depois consegui enquadrar-me nas estruturas clandestinas do PAIGC, na luta de libertação e quando se dá a independência regresso ao país, até hoje.

“PENSO QUE A INSTABILIDADE POLÍTICA É CONSEQUÊNCIA DA INSTABILIDADE CULTURAL DO PAÍS.” “AINDA ESTAMOS LONGE DAS PESSOAS PERCEBEREM A IMPORTÂNCIA DE UM LIVRO OU DE UMA OBRA DE ARTE. AINDA TEMOS UMA RELAÇÃO PRIMÁRIA COM ESTAS COISAS.”

Na Guiné-Bissau a literatura faz-se também através da música. O Ernesto Dabó gravou um CD em 2013, “Lembrança”. O que é que se encontra neste CD, são músicas de revolta, de amor?

D. – Acabou por definir o disco. Há textos que são de revolta, há outros de amor, outros de homenagem a figuras importantes da Guiné, como o tio Lúcio, Lúcio da Silva (que morreu em 2011), que na nossa cultura popular guineense deve ser o expoente máximo, foi o criador do nosso género nacional que identificamos com o termo “tina”, que representa o mesmo que o fado para Portugal, o tango para a Argentina ou o jazz para os Estados Unidos. É o género mais representativo do nosso folclore, porque é transversal a toda a sociedade. O tio Lúcio cantou muito, criou muito, era um poeta popular, tinha uma criatividade extraordinária e deixou obra, mas que infelizmente não ficou documentada, ficou no registo da memória. Sou da cidade de Bolama, o tio Lúcio também era de Bolama e eu cresci a ouvi-lo cantar. Cresci com ele como ídolo. A outra homenagem é a José Carlos Schwarz, um contemporâneo meu: eu, ele, Aliu Bary e outros criámos a primeira banda musical moderna da nossa história, que é o Cobiana Djazz. Mas, o José Carlos teve uma vida muito curta, viveu apenas 27 anos. Era um génio. Fomos colegas e iniciámos a trajectória da nossa música moderna juntos, foi uma amizade de alta cumplicidade, de troca profunda e de estima mútua muito grande. Escrevi-lhe uma homenagem em 1980 e tal. Fiquei com essa música só para mim, até que chegou uma ocasião de gravar um disco, no Canadá, graças a um amigo meu, Adulai Djalo, e decidi gravar esse tema, que abre o disco, e que tem por título “Djussé” – “José” em crioulo. O disco é, sobretudo, um registo com várias propostas, no sentido em que acho que a nossa música popular deve manter-se como o quadro matriz, a raiz, donde podemos crescer para a universalização da nossa música. Por exemplo, tenho duas peças em “tina”, uma do tio Lúcio, em que se toca a “tina” à moda tradicional, sem efeitos, puro como se fazia antigamente. E há um segundo tema em que já faço a introdução do violoncelo. Esse primeiro é para dizer: “a matriz é isto”, o segundo é para dizer: “ A partir da matriz podemos abrir a outras expressões e introduzir outros instrumentos que não são locais, como o violoncelo”. Tratei de propor abordagens, não só temáticas, como melódicas, com a introdução de outras vozes instrumentais, o violoncelo, a guitarra clássica e a “corá” [instrumento de cordas], a harmónica, várias experiências. Quando você quer fazer uma proposta musical com sentido identitário, que seja mais do que diversão, tem que trabalhá-la de outra maneira, isso implica sacrifícios, abstrairmo-nos de partidarismos e focarmo-nos no que é essencial.

Entrevista: CLÁUDIA ARANDA | CLAUDIA.ARANDA.PONTOFINAL@GMAIL.COM

Fotos: Eduardo Martins

 

  • ERNESTO DABÓ, MÚSICO, ESCRITOR E ACTIVISTA: “QUALQUER INDIVÍDUO É UM PRODUTO CULTURAL” – ENTREVISTA AO JORNAL “HOJE MACAU”, 17 DE MARÇO DE 2016

Podia ser o Mohamed Dabó, mas para que pudesse ir à escola teve que mudar de nome. Hoje é Ernesto Dabó, convidado do Roteiro Literário, o músico, escritor, jurista, activista cultural e político que deu a conhecer ao Hoje Macau a vida que fez com que faça o que faz.

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

Ernesto Dabo, Escritor e Activista Cultural da Guiné-Bissau

As histórias têm um início… a cultura na sua vida, como aconteceu?

Começou em casa. Os meus pais motivaram-me desde muito cedo para o estudo e então começamos todos em casa a relacionarmo-nos com os livros, com outras esferas da cultura e aí por diante. No meu caso particular, desde muito cedo senti que tinha um gosto especial por estas áreas e em determinado momento já estava a fazer música e depois a escrever e assim por diante.

Uma educação motivada para o conhecimento numa família Muçulmana que o pôs a estudar na Missão Católica. Como é que isto aconteceu?
Nasci em Bolama, e o meu pai era um indivíduo que tinha a sua visão da vida, tinhas os seus conceitos e o regime colonial não oferecia muitas escolhas, nomeadamente as estruturas escolares. As mais abertas eram as chamadas missões católicas que davam instrução primária. Mas para ser matriculado nessas escolas, para ser aluno tínhamos que praticar a religião cristã: estudar a catequese, ir às missas e inclusivamente o meu nome Ernesto é uma imposição colonial. Naquele tempo, para ser matriculado tínhamos que ter um nome cristão. O que também aconteceu no meu caso. Quando me fui matricular mostrámos o meu nome e disseram que não era possível, quando chegámos a casa o meu pai pegou no nome Ernesto e disse “o importante é que ele vá para a escola”. Houve ainda a particularidade do meu pai nunca ter pressionado ninguém para a sua fé. Admitiu que nós praticássemos a religião que entendêssemos. E o meu caso foi esse, conheci a religião cristã, evolui na mesma até que cheguei a uma altura em que disse “agora não pratico nada”. Agora penso que há qualquer coisa que gere este universo e respeito muito isso, mas o essencial é praticar tudo aquilo que é a recomendação positiva de qualquer religião. Faço questão de fazer da vida um acto de partilha. Enquanto conseguir isso estou seguro que estou bem.

Também é conhecido pela sua actividade politicamente interventiva, e em plena época colonial, dirigida à independência. Quando a determinada altura foi para Portugal, já tinha esta consciência? Como é que esta problemática ganhou forma?
Quando fui para Portugal ainda não tinha esta consciência, era ainda muito novo, com 13 ou 14 anos. Ela nasce também com a minha família. Na altura estava em Portugal com um irmão meu e ele já percebia o que se estava a passar no país. O meu pai também mais uma vez, foi alguém que estava ligado em Bolama, a essa corrente de pessoas que já estavam a perceber que a libertação nacional era um projecto que tinha que ir para a frente. Associando estas questões comecei a observar o que se passava, a aprender e a ler, e como gostava muito de ler fui aprofundando as coisas. Depois também tive a sorte de ter bons amigos, com quem cresci e que alguns, da classe média portuguesa, eram também gente com uma cultura muito diferente e que me deram muitas dicas no sentido de perceber o que se passava. E depois também era fácil entender que eu era diferente. Sou negro, estou numa sociedade portuguesa, branca, que na altura, por sinal, não era assim tão culta e desenvolvida e juntando o meu carácter e a minha curiosidade em saber o que se estava a passar e porque fui forjando a minha consciência política até ter percebido, “ah, afinal é isto e não tem nada de mal, afinal a prova está aqui e agora compreendemos que afinal estávamos todos no mesmo barco”. Era o fascismo a fazer estragos em Portugal e era o colonialismo a fazer estragos na Guiné e eram combatentes pela democracia em Portugal e combatentes lá também. Gostei imenso de ter vivido este período.

Ainda antes do 25 de Abril, e já com essa consciência política, ingressou no exército, na Armada Portuguesa. Como foi para si estar na “trincheira do inimigo”?
Sim, foi das coisas mais giras que me aconteceram na vida. Fui recrutado, porque na altura era mesmo assim, mas ( vou-lhe revelar aqui algo que nunca revelei) eu já tinha relações com as estruturas que funcionavam da luta pela libertação. E quando entro para a Marinha, vou, e acontece uma coisa milagrosa – ainda há dias tivemos um almoço em Lisboa para celebrar os 45 anos desse encontro – um capelão da unidade resolveu criar um conjunto musical e como vinha com alguma experiência da Escola Agrícola onde tinha estado, convidaram-me para participar no projecto e participei. Aquilo ganha dimensão e o capelão propôs aos comandos da altura da Marinha para que esse conjunto, chamado “Os Náuticos”, começasse a animar no Ultramar, que fizesse uma digressão . Estava no conjunto como vocalista do grupo e lá no fundo disse “ isto vem mesmo a calhar, vou dar tudo por isto e vou fazer uma tropa de música e assim ninguém me põe a fazer guerra contra mim mesmo. E isso foi no fundo o que fiz, mas essa passagem pela vida militar foi ainda uma escola de vida muito importante para mim.

Em que sentido?
No sentido, por exemplo, humano! Estamos num período de guerra e as amizades que ganhei nesse período ainda hoje são as maiores amizades que tenho. Depois do ponto de vista da minha consciencialização, essa digressão em que estivemos na Guiné, Cabo Verde, Angola e Moçambique, foi aí que, finalmente, conclui esse processo “de tomada de consciência”. No contacto com a realidade. Estava fora da Guiné deste garoto e foi um choque brutal, extramamente interessante. Os meus amigos e os meus colegas da tropa que conhecia bem e que tínhamos confidências, também estavam contra a guerra mas não podiam fazer nada. E chego à Guiné e a guerra está a fazer mal às pessoas que não a querem . Foi um drama humano que não sei explicar. Vivi isto de forma dramática, fechava-me no quarto a pensar “mas, caramba, pessoas amigas aqui, ninguém tem nada contra mim enquanto pessoa e depois vês pessoas que o que têm para fazer é matar”. É das coisas mais absurdas que eu já vi na vida e que me marcou profundamente.
Um outro aspecto é que a vida militar permitiu-me amadurecer como homem. Saber que eu devo contar comigo em primeiro lugar. Não tem pai, nem mãe nem irmão, é a tropa. Mas no fundo posso dizer que não me arrependo de nada nessa trajectória porque me valorizou muito. Aliás, em toda a minha vida tenho tido dificuldades e problemas , mas graças a esta escola de vida também tenho sabido saber sair e saber entrar. E tive a sorte de não confundir nada. De separar as águas, por isso é que mantenho as amizades que tenho, que são fraternas.

Em 74 regressa à Guiné, e paralelamente inaugura o mercado musical Guineense com os Djorson e o disco “folclore da Guiné….
Antes de regressar, ainda em Lisboa, com uns amigos em Lisboa criámos esse grupo, ainda na tropa. E gosto de criar, não consigo estar sem criar, e naquela altura disse “temos que ter um disco, Angola tem, Moçambique também, todos têm, nós também vamos ter que ter um disco. Então peguei no projecto, ensaiámos, gravámos e fui ter com o meu mais velho Rui Mingas que já tinha uma carteira de relações, era uma figura respeitada e tinha vários contactos. Ele disse que ia ver o que podia fazer, ligou ao Victor Mamede que foi o produtor do nosso disco e gravámos um single com duas canções e foi o primeiro disco da discografia da Guiné.

Cobiana Djazz, mais que um agrupamento musical, um projecto multifacetado…
Iniciou-se como um agrupamento musical, mas para mim extravasou essa condição, aliás até estou a preparar um ensaio acerca disso que se chamará “ O movimento Cobiana Djazz”. Desencadeou uma série de consequências na nossa vida cultural, quebrou uma série de tabus, o primeiro é que não se cantava em crioulo coisas modernas, uns até diziam que o crioulo não era uma boa língua para cantar e nós começámos a cantar em criolo o que motivou com este projecto a criação de poemas em crioulo e letras para músicas . Os espaços nobres de dança em Bissau alargaram para as periferias, e mais, começou a ser um instrumento de divulgação de várias ideias e influenciou várias coisas da vida da sociedade guineense e pela primeira vez uma cultura urbana estava a ganhar espaço. Passado pouco tempo as canções da Guiné Bissau já estavam a circular pelo mundo fora, transformando-se em mais um veículo da luta que estava a decorrer. Estravazou os limites de uma simples orquestra e tornou-se um movimento cultural.

Da sua relação entre as experiências que foi tendo e o que faz…

Qualquer individuo é um produto cultural, por isso se quiser fazer arte, se quiser produzir cultura, não há outra reserva, a reserva que tem é aquele que temos em nós.

O seu último trabalho escrito “PAIGC: Da Maioria Qualificada à Crise Qualificada” é um um livro político de um homem da política e das artes que (re)olha para o seu país. Como é que o vê, bem como à cultura e à sua importância, nos dias que correm?
As nossas crises têm como fundo a alienação, uma crise cultural. No dia em que a nossa elite política começar a reflectir na cultura nacional e com a realidade nacional, tenho a impressão que vai ser mais humilde e mais responsável. Porque às vezes estão com cargos políticos mas a reflectir como se fossem administradores coloniais, e isso choca.

“Podem tirar o homem da favela mas não podem tirar a favela do homem”, é isto que sente, mas no que respeita a esse pensamento colonial?
É isso! O elemento de dominação mais importante é cultural, faz a pessoa negar-se a si mesma e subjugar-se ao outro, e segui-lo sem saber que tem o seu próprio caminho. E a luta de libertação é um facto de cultura porque rompe com isto e porque permite seguir por ti e para ti.

 

  • UMA REVISTA PARA MOSTRAR “FACE BONITA” DA GUINÉ-BISSAU – ENTREVISTA AO JORNAL “TRIBUNAL DE MACAU”, 17 DE MARÇO DE 2016

O escritor Ernesto Dabó, que se autodefine como um “activista cultural”, retomou o “combate” de encontrar apoios para cumprir um ideal antigo de ver editada uma revista cultural que mostre a “face bonita” da sua Guiné-Bissau.

O escritor vê na imprensa guineense “um espaço a preencher”: “Lamentavelmente quase tudo é política, para não dizer politiquice”, e não existe uma publicação que “se ocupe da arte e cultura de uma forma regular”, afirmou Ernesto Dabó à agência Lusa, em Macau, onde participa no Festival Literário Rota das Letras.

A ideia passa por “divulgar uma outra face” da Guiné-Bissau que, “infelizmente, não tem tido a sorte de ser vista como um país de boa gente, com uma cultura riquíssima e com gente com talento e uma capacidade criativa enorme”, explicou.

“Normalmente, a imagem mais bonita de qualquer país é a cultura”, acrescentou.

Em contactos em Lisboa, em busca de apoios, Ernesto Dabó não circunscreve o projecto à terra natal.

“É uma revista essencialmente lusófona: não só o parâmetro linguístico, como o geográfico também. (…) Não faz sentido fazer uma revista e fechá-la na Guiné-Bissau”, afirmou, observando que seria direcionada, igualmente, às comunidades na diáspora.

“Vou bater-me até que consiga tirar a revista. Nem que seja com quatro folhas, mas há de sair um dia”, frisou Ernesto Dabó.

“Se não há espaço para publicar, as pessoas começam a desanimar”, real- çou o autor de “Mar Misto”, livro de poesia que reúne poemas em português e em crioulo, editado em Portugal em 2011, esperançado de que um dia seja possível proporcionar “a todos os guineenses que tenham ideias na área da cultura” um “espaço para divulgarem os seus trabalhos”.

A ideia acompanha-o desde 2000 e o escritor acredita que “seguramente a revista já teria saído se o país estivesse estável”, porque as cíclicas convulsões políticas desde finais de 1990 “prejudicam quase todos os projectos”.

Ernesto Dabó tem, contudo, “outras coisas mais antigas” em que continua a pensar, como um projecto que apresentou em 1996 para fazer um inventário da música popular guineense, considerando que “cada grupo étnico é um bloco cultural” e que “o fenómeno da perda é evidente”.

“Ainda hoje ando com isso. Sou um bocado chato. Não largo assim facilmente”, brincou.

Já “quase pronta” está uma colectâ- nea de artigos que o autor, que escreve há mais de 20 anos em jornais e em blogues, pretende publicar, após a sugestão deixada por amigos.

“Só me falta conseguir um editor”, salientou, lamentando a ausência de “uma política de suporte à edição, de promoção da literatura e do livro”, um “lamentável empecilho ao desenvolvimento” da literatura e que faz com muitos escritores na Guiné-Bissau tenham “as gavetas a abarrotar”.

Embora de forma muito irregular, Ernesto Dabó está também a escrever um romance, em que tenta ficcionar uma situação que é consequência da guerra civil guineense de 1998.

“Não vou tratar a guerra, vou ver o que a guerra provoca, inclusive no caso de dois namorados. O que a guerra faz de mal às coisas boas que as pessoas têm”, afirmou.

JTM/Lusa

 

  • VER A ENTREVISTA DE ERNESTO DABÓ COM A TELEVISÃO TDM-Teledifusão de Macau, 22 de Março de 2016

  • OUVIR A ENTREVISTA DE ERNESTO DABÓ COM A RÁDIO TDM-Teledifusão de Macau, 17 de Março de 2016

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