Opinião: O Desenvolvimento na Guiné-Bissau: Uma realidade ou uma miragem?

Bem, essa indagação vou tentar responder ao longo da abordagem que vou fazendo no texto; parece ser uma tarefa fácil, mas não, – pois para cabalmente responde-la seria necessário fazer um esboço mais amplo e complexo, o que não é o propósito deste artigo, que nada mais é do que um artigo de opinião, não científico, o qual me permitiria fazer uma análise mais ampla e generalizada. Sendo assim, procurarei sintetizar a minha análise sobre o tema, deixando claro, de antemão, que o propósito do mesmo é fazer uma abordagem analítica com elevada brevidade sobre a temática do desenvolvimento e suas contradições no contexto da Guiné-Bissau.

Por Deuinalom Fernando Cambanco, mestrando em Relações Internacionais, Brasil

De acordo com Marino Santacruz Medina, em sua obra intitulada: o espaço do desenvolvimento, a temática do desenvolvimento começou a conhecer um viés mais economicista e progressista a partir do século XVIII, com surgimento de algumas correntes que primavam para tais; correntes essas que propunham uma outra forma de pensar/conceber o desenvolvimento por assim dizer, contrastando assim a forma medieval do desenvolvimentismo que era ancorada na temática da religião e suas dogmas, na salvação da alma entre outras coisas. As referidas correntes são: iluminismo, capitalismo e expansionismo, (MEDINA, 2009).

Emmanuel Wallerstein, sociólogo estadunidense, por sua vez, entende o desenvolvimento da seguinte maneira: para ele, o mesmo é, sem margens para dúvidas, o “único objetivo social capaz de encontrar uma aceitação unânime da sociedade”. E isso independe totalmente das nossas cores partidárias, dos nossos pertencimentos, das nossas convicções etc., o que quer dizer, por exemplo, que tanto um “esquerdista” quanto um “direitista” fazem seus discursos em torno de um único fenômeno, o desenvolvimento; e a forma de logra-lo talvez que possa ser diferente, mas o objetivo não deixa de ser o logro do mesmo, Wallerstein in: Ideias & Letras (2006).

Entretanto, nesta ordem de ideias, vale salientar que a Guiné-Bissau tem enveredado por esse mesmo caminho – o de alcançar o desenvolvimento, dando pontapé de saída com a [gloriosa luta de libertação nacional], e posteriormente com a implantação do regime democrático etc. Ora, diante disso, e, mais ainda, pelo o que o país recém-independente tem vivido – podemos afirmar que o desenvolvimento ali é uma realidade? Bom, creio que não. Para ser sincero, não! E é uma miragem? Isso sim, subscrevo com toda veemência. Não se trata de ser pessimista, muito pelo contrário, é uma constatação da realidade do país, pelo menos, por o que temos vivido até hoje, ou seja, até esse exato momento em que estou redigindo esse artigo.

Não é uma realidade porque ainda há muita pendência, muitos problemas para resolver, problemas nos quais me refiro aqui são problemas estruturais, não conjunturais – até porque na Guiné-Bissau sempre se repetiram os mesmos problemas, mesmas tensões, principalmente no campo político, – este particular, que a meu ver, é a principal fonte de conflitos que o país tem conhecido ao longo da sua história e que, infelizmente, impacta direta e negativamente na vida social do mesmo, o que não pode continuar; sendo necessário, deste modo, uma profunda mudança. Mas mudar como, mudar o quê?

O grande realista/estruturalista, teórico das Relações Internacionais, chamado Kenneth Walth, afirma na sua obra intitulada: Teoria da política Internacional que, para mudar qualquer regime ou sistema, tem que, antes de qualquer coisa, mudar nada mais e nada menos que a própria estrutura que o sustenta, caso contrário, não adianta, tudo continuará na mesma; o que significa que a Guiné-Bissau precisa urgentemente de uma mudança tremenda na sua estrutura/sistema. Mormente no campo político.

Então, já que não é realidade é, então, uma miragem; uma miragem porque creio que ainda haja muita coisa para afinar, para ajustar –, para que possamos realmente marchar rumo a concretização do desejo de todo e qualquer cidadão guineense – que é o de alcançar o desenvolvimento efetivo e sustentável. Todos os setores da sociedade ainda deixam muito a desejar e ainda não conhecem avanços consideráveis que se querem. As lutas e dissensos políticos desnecessários dos últimos tempos têm sobremaneira ajudado a vilipendiar e a ofuscar o anseio/esperança do povo, povo esse que nada mais quer a não ser uma pátria melhor e mais próspera para se viver.

E onde estão as contradições, as quais me referi na introdução do texto? Bem, na minha análise, essas contradições se residem justamente nas potencialidades endógenas (locais) que o país possui para materializar em qualquer tempo o tão desejado desenvolvimento. Ou seja, o país possui recursos naturais diversos, recursos pesqueiros abundantes, clima invejável, quantidade de terras aráveis incontáveis, – ilhas para a prática turística doutro nível etc., coisas que em muitos lugares não se vêm e ainda continua sendo um dos países mais pobres do mundo. Isso não é contraditório? Como pode, como? Possuir toda essa riqueza e ainda continuar a mendigar e a depender absurdamente da Comunidade Internacional.

Queremos mudança? Acredito que sim, aliás, tenho certeza que sim. Mas quem vai proporcionar essa mudança, a CEDEAO, a UA, a ONU? Se sim, como? Com acordos sub-regionais sem efeitos? Cimeiras sem soluções conclusivas? Caros irmãos/irmãs, é chegado o momento de abrirmos os olhos, momento de unirmos, de conjugarmos as sinergias e trabalharmos juntos para o bem-estar da nossa pátria. Só nós, só nós mesmos os filhos da terra é que podemos fazer evoluir aquela nobre terra, evoluir em todos os sentidos. Ninguém e nem nada, nem nenhuma organização sub-regional, continental ou global vai fazê-lo para nós.

Para você que não sabe como funciona o sistema internacional, sistema esse permeado pelas lutas incessantes para sobrevivência, autoajuda, interesse e egoísmo dos Estados Nacionais, aproveito essa ocasião para dizer-lhe que essas organizações nunca vão resolver os nossos problemas internos, nunca! Isso porque cada um dos membros das referidas organizações está preocupado com o seu bem-estar, seus problemas internos, que nunca faltam e, sobretudo, com a manutenção das vantagens que as mesmas têm para o proporcionar.

Se não nos conscientizarmos e deixarmos de lado as nossas zonas de conforto ficaremos sempre nas situações semelhantes, nada de progresso.   É imperativo deixarmos de bajular a nossa “jovem” democracia, já que é o regime que adotamos para nosso Estado, de deixarmos de incitar ódio e intriga entre nós próprios. Porque não podemos viver na harmonia, como irmãos/as que somos, na fraternidade, na paz, porquê?

Ora, para mim, um projeto de nacional-desenvolvimentismo seria importante adotar e extremamente útil para sairmos duma vez por todas desse ciclo de subdesenvolvimento. Porém, existem, claro, outras formas de levar a cabo o desenvolvimento que também podem ser válidos, mas é apenas uma sugestão/opinião.  Podemos seguir exemplo doutros países que trilharam o mesmo caminho e conseguiram um resultado satisfatório; Singapura, Dubai (Emirado Árabes Unidos), Qatar são apenas alguns desses exemplos. Quem não lembra de Singapura nos inicios dos anos sessenta (60), ver Serra (1996), um país na altura em ruinas, mas que agora atingiu um nível de desenvolvimento como poucos.

Não estou propondo o fechamento das nossas fronteiras, não. Muito pelo contrário, até porque hoje em dia, diante do sistema capitalista, a ultra globalização e a transnacionalização das tecnologias, as exacerbadas ideologias isolacionistas e localistas já não têm mais lugar, Brandão (2004). É preciso cooperar? Sim é, o que não podemos é continuar a alimentar o que Visentine e Danilevicz (2008) concebem como [mentalidade assistencialista e vitimizada, fortemente dependente de apoios e deliberações externas].

Em suma, o desenvolvimento, no meu ponto de vista, ainda continua uma miragem/utopia, mas não uma impossibilidade. Continuamos a depender exclusivamente de nós mesmos para chegar aonde quisermos, para convertemos o nosso país em uma referência, não só uma referência a nível da nossa sub-região, mas quiçá para a África empezo, senão uma referência global. Podemos ser um modelo a seguir, a nossa população, por sua vez, a mais feliz e próspera do planeta terra.

Que Deus abençoe a Guiné-Bissau e a todos os guineenses! Que os dias vindouros sejam os melhores possíveis e que os homens do Estado, os que estão no “volante,” coloquem a cabeça no lugar! Mantenhas!!!

Autor: Deuinalom Fernando Cambanco, mestrando em Relações Internacionais, Universidade Federal da Bahia, Brasil. Salvador, 20/06/2017         

 

 

 

 

 

 

 

 

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