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Ano IV - Fundado 14.Mar.2005
Nº 385 o 09.Jun.2009
Editor: Xavier de Figueiredo
Guiné-Bissau
Governo reitera versão de tentativa de golpe de Estado
Pesquisa e análise
1 .
As autoridades guineenses apresentam hoje, ao corpo diplomático, provas consideradas concludentes de que
Hélder Proença
estava,
de facto
, implicado numa tentativa de golpe de Estado:
abatido involuntariamente quando se preparava para assumir o comando da sedição, em cuja preparação participara e julgava iminente
.
As referidas provas são no seu grosso constituídas por registos magnéticos (gravações) de conversas directas ou telefónicas consideradas
demonstrativas
da intenção de desencadear um golpe de Estado; de preparativos práticos feitos com tal fim; do acerto de pormenores tais como individualidades a neutralizar.
Na origem remota do plano apareceram especialmente envolvidos
Faustino Imbali
e
Roberto Cacheu
- ambos presos. Só numa fase posterior foi referenciada a alegada implicação de H Proença. Todos tinham em comum afinidades com
Nino Vieira
e eram geralmente apontados como adversários do actual PM,
Carlos Gomes Jr.
H Proença, era o mais carismático e popular, sendo-lhe também reconhecidas ambições políticas, entre as quais a de liderar o PAIGC. As suas conotações com N Vieira só em parte tinham cabimento: procurava afirmar-se por si próprio, o que dava azo a sentimentos de desconfiança do ex-PR.
2 .
A decisão das autoridades de exibir provas da tentativa golpista é vista como reflexo da pressão exercida sobre elas pelo clima de dúvidas/reservas que se criou quanto à versão oficial dos acontecimentos. Sobretudo depois de ter começado a circular uma teoria segundo a qual tudo se resumiu a uma
“maquinação”
do PM e/ou da sua ala interna para eliminar adversários.
C Gomes Jr encontra-se em
Lisboa
desde
23.Mai
, por razões de saúde. A circunstância tem sido explorada com o intuito inferido de dar consistência/coerência a especulações segundo as quais se ausentou do país em obediência a uma táctica de descomprometimento com a
“maquinação”
e para garantir a sua segurança em caso de emergência.
Entre as gravações de conversas dos implicados que as autoridades pretendem divulgar há passagens em relação a C Gomes Jr tais como as seguintes:
·
A convicção de que ele já não regressaria ao país ao ser surpreendido fora (em Lisboa) pelo movimento.
·
A sugestão de apresentar publicamente o
putsch
, quando o mesmo triunfasse, como reacção a
manobras
do PM e do CEMGFA,
CMG Zamora Induta
, visando liquidar fisicamente os seus autores.
3 .
Com base nas gravações e noutros elementos de prova apontados como convincentes as autoridades fazem a seguinte reconstituição cronológica de etapas cruciais dos preparativos do golpe:
-
Faustino Imbali
e
Roberto Cacheu
procuram aproximar-se do
Cor António Indjai
, adjunto do CEMGFA; por forma a favorecer o intento e a gerar confiança recorrem a amigos próximos e familiares daquele, que cativam com ofertas de dinheiro.
- Num encontro na zona de
Quinhamel
,
Ponta Zé
, F Imbali revela a A Indjai, respondendo a perguntas ostensivas do mesmo, que o
chefe
do golpe é H Proença e que a acção também conta com apoios substanciais nas FA e na classe política.
- F Imbali comunica telefonicamente a H Proença, então a residir no
Senegal
, que A Indjai aderiu ao movimento; A Indjai, a quem F Imbali faculta o telefone de H Proença, confirma a sua adesão; são acertados pormenores quanto à entrada de H Proença na Guiné-Bissau, por via terrestre.
O Cor A Indjai (um balanta educado em meio mandinga, de onde provém o apelido), é geralmente descrito como o chefe militar sob cujo comando directo se encontram as unidades com mais apurados padrões operacionais das FA:
Comando Central de Mansoa; Batalhão de Protecção do EMG
(este com c
500
efectivos, bem armados).
Antes do encontro de Quinhamel, considerado crucial, A Indjai pôs o CEMGFA, Z Induta, ao corrente do que se estava a passar. Entre ambos foi concertada uma conduta fictícia de A Indjai que consistiu em alimentar a ilusão da sua adesão como forma de obter informações acerca dos planos (intenções, implicações etc.).
São conhecidos a A Indjai anteriores gestos de lealdade pessoal e institucional ajustáveis à atitude que agora assumiu face ao CEMGFA - que aparentemente seria eliminado. Era leal ao ex-CEMGFA,
Gen Tagme Na Waié
e continuou a cultivar tal sentimento no transe que se seguiu ao atentado que o vitimou.
4 .
A versão segundo a qual não existiu tentativa de golpe de Estado é promovida pelo
Senegal
- autoridades e comunicação social. A evidência é atribuída a duas razões em especial: C Gomes Jr não goza de simpatias no país; embaraço decorrente de H Proença ter entrado do país procedente do Senegal.
Uma delegação do MPLA, constituída por
Paulo Jorge
e
João Martins
, encontrava-se numa missão partidária em
Bissau
quando se registaram os acontecimentos, de que tiveram relato
in loco
. A informação que transmitiram no regresso a
Luanda
não realça a teoria de
“inventona”
aplicada aos aconmtecimentos.
Malam Bacai Sanhá
, candidato do PAIGC às eleições presidenciais, ao qual foi prestado um
briefing
no EMGFA sobre os acontecimentos, terá ficado persuadido da tese da preparação de um golpe. R Cacheu (AM 378) fazia parte da direcção da sua candidatura.
5.
A morte de
Baciro Dabó
, ocorrida na mesma altura, não aparenta estar directamente relacionada com o caso da preparação do golpe de Estado. Há indicações de que poderia ter-se tratado de um ajuste de contas ocorrido numa de duas circunstâncias ou ambas:
- Narcotráfico, actividade em que era dado como envolvido.
- Alegada participação no assassinato de Tagme Na Waié (rumores de que a bomba usada teria sido montada em sua casa).