A vingança de Yuri Popov
Foram realizadas as eleições presidenciais antecipadas na República da Guiné-Bissau.
A
CNE
anunciou os resultados provisórios das eleiçõespresidenciais, que me foram enviadas através do site
http://www.twitter.com/
GuineaBissau
. Malam Bacai Sanhá - 133.786 votos (39,59%), Kumba Ialá - 94.428 votos (29,42%) e
Henrique Rosa
- 81.751 votos (24,19%). Houve uma abstenção de cerca de 40% e muitos votos em branco. Assim, o candidato do PAIGC,
Malam Bacai Sanhá
vai defrontar o candidato do PRS,
Kumba Ialá
, na segunda volta a ter lugar no dia 2 de Agosto.
Voto sanção na Guiné-Bissau
Estepequeno e agitado país da costa ocidental africana que, segundohistoriadores (Rene Pelissier, Peter Mendy), desde o século XVIInão para de ser notícia pela violência dosacontecimentos que nele se registam. O país acede àindependência pela via da luta armada contra o colonialismoportuguês, em 1974, mas em vez de se estabilizar, a suahistória recente é também marcada de golpes deestado, guerra civil, assassinatos políticos,execuções sumárias e valas comuns. A retumbantevitória eleitoral do partido histórico nas legislativasde 2008 e a morte de Nino Vieira criaram uma ilusóriaesperança no fim de ciclo de estabilidade. Infelizmente, osassassinatos não pararam e, em cada cruzamento desta longaestrada, o destino contínua impor escolhas fatais e a adiar aprosperidade, paz e progresso prometidos por Amilcar Cabral.
Votou-seno domingo passado. Três constatações fortes: foium escrutínio que não entusiasmou o povo. Os observadoresinternacionais e locais informam que estas foram aseleições que menos entusiasmo suscitaram na sociedade,sem movimento de multidões, sem mega-meetings. Henrique Rosa,candidato da ruptura e representante de uma certa modernidade, foipreterido. Na 2ª volta a opção se limita a escolherentre o mau e o vilão, dizem os observadores, inclusive no seiodo PAIGC. Como entender os resultados destas eleições?Falando com muitas pessoas e de todos os quadrantes chega-se àconclusão de que os guineenses quiseram exprimir um clarorepúdio aos últimos acontecimentos, à derivaautocrática do Primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior e aoseu envolvimento extremo com militares.
Voto de “indignação”
Paraa maioria dos guineenses, parece que não era altura de seorganizar estas eleições. O povo não se associouaquilo que muitos consideram de um péssimo teatro organizadopelo Governo, em associação com a classe políticae a comunidade internacional, sem respeito pelo contexto de dor e deluto, após os ignóbeis assassinatos. E aseleições redundaram na vitória daindignação, traduzida pelo nívelelevadíssimo de abstenção (mais de 50% em Cacheu,cerca de 45% em Bijagos e em Biombo e 40% em Bissau, Bafatá eTombali). Sendo a “abstenção” o candidato mais votado,seguido do candidato do Governo, com menos de 40 % do sufrágio,temos de concluir dizendo que com esta votação, o povoapresenta um inequívoco protesto contra umagovernação granjeada de assassinatos e deviolações de direitos humanos.
Diantedos resultados, o Governo e o partido no poder precipita-se a imputarà chuva a responsabilidade pelo nível deabstenção.
Noentanto, a causa da abstenção não pode serbuscada/atribuída nem à lassitude daspopulações, nem ao desencanto diante do desgoverno, nemtampouco no descontentamento por cauda da má campanha de caju.Trata-se de uma clara e retumbante manifestação deindignação diante de assassinatos impunes. O nívelde abstenção record é uma espécie deprotesto a mudo da sociedade contra o regime de cangalheiros que sepretende legitimar, através desta precipitadaconvocação às urnas. É também umaresposta à hipocrisia da comunidade internacional, muitopreocupado com aspectos mais dogmáticos e litúrgicos dademocracia (entenda-se: eleições), porém incapazde assumir uma atitude firme e consequente face a Governo comtendências assassinas.
Osinterlocutores entrevistados anotam que em 6 meses de governoassistiu-se a 6 assassinatos e cada dia o casting deviolações é mais longo: na semana passada,Rogério Dias e Francisco Djata foram batidos à morte e asrespectivas residências vandalizadas. Foi contra tudo isso que sevotou no passado dia 28 de Junho.
Voto contra a impunidade
Oque mais indignação causa nos cidadãos é ofacto de os novos mestres de Bissau agirem em total impunidade e aindabeneficiam de congratulação pública da chefia doGoverno, nos crimes que vão cometendo, embora todos os actoscoligidos, desde degolar um presidente da República, deitar ocadáver de Hélder Proença no lixo, abater BassiroDabó na sua própria cama, à frente da esposa, ealegar tentativa de Golpe de Estado, denotem comportamentostípicos de delinquentes, disfarçados em militares. O quemuitos se iludem em considerar de forças armadashistóricas, não passam de bandidos e escumalharecrutados, sem critérios, na sequência da guerra civil de7 de Junho de 1998. A mãe do condutor de HélderProença confiou a colegas no terreno que o filho tinha sidomorto a punhalada: “Partiram-lhe as costelas e o braço.Uma faca foi encontrada no interior do seu ventre. Só depoisé que atiraram sobre ele.” Até hoje, nãosó não houve uma auditoria a essa operaçãomacabra, como também o Governo ainda não devolveuàs famílias os efeitos pessoais das pessoas assassinadas(bilhete de identidade, passaporte, dinheiro, carteiras, a viatura deHélder Proença, chaveiros, etc), porque os assassinosapropriam-se-nos como troféu de guerra. Vieram buscar o carro deHélder Proença em casa e ficaram com ela.
Voto sanção ao Primeiro-ministro pelas suas assarapantadas
OPrimeiro-ministro, seja pelos discursos mal preparados, seja pela suaactuação política nos últimos tempos,demonstra estar enrodilhado em contradições. Eletramou-se a si próprio. Quando foi da morte do Presidente Nino,não acorreu ao local do assassinato, não apresentoucondolências à família enlutada, nem proferiu umdiscurso de Estado à nação, ávida deexplicações e de aconchego naquele momento de profundador. O mesmo aconteceu agora, com o assassinato de dos doisex-ministros, deputados da nação e colegas dadirecção do partido. Diante de uma grave conjuntura, eledecide adiar o regresso de uma viagem privada, para não assistiràs obsequias dos colegas. Não conseguiu a solidariedadenem do Governo, nem do partido nessa deriva hedionda. O presidente daRepública interino, seguido de vários ministros,assistiram às cerimónias fúnebres de HélderProença e Bassiro Dabó. Vários membros do Governoe toda a direcção do PAIGC condenaram aquilo que desdepronto foi considerado de bárbaro assassinato por toda asociedade guineense. O ministro do Interior apresentou a suademissão e à imagem do seu Director Geral daSegurança recusa endossar aquilo que ele considera ter sido umamacabra e vil operação de limpeza política.
Faleicom um americano, especialista de ditaduras na América do Sul eentendido em psicologia política, ele me explicou que,“matando, uma, duas vezes, o ditador adquire o sindroma deassassino. Teme até à sombra. Mata por medo e estamecânica transforma-se numa lógica da sobrevivência.Matar, torna-se a única forma de lidar com adversáriospolíticos. Não se contenta em apenas ganhar, propende amarginalizar e silenciar o outro, inclusive a elimina-lo fisicamente(erradicar). Todavia, o drama é que ele próprio deixa deser mestre da lógica que engendrou, pois sendo sempreefémero o estado de tranquilidade procurado através de umassassinato, o assassino vê-se forçado a inventar novosinimigos para sobre eles exercer a violência sádica einsaciável. Passa a comportar-se como uma máquinaavariada. Por isso, não surpreende que a breve trecho aGuiné venha conhecer novos surtos de matança, produtodesta sanha doentia, se medidas correctivas não forem tomadas. Efoi também contra esta perigosa deriva que o povo protestou a 28de Junho.
Voto contra o neo-salazarismo africano
Académicosguineenses e analistas estrangeiros indiciam uma viragem notóriano sistema de Governo em vigor na Guiné-Bissau. Quando acedeuà independência, no prolongamento da filosofia perfilhadapelo movimento de libertação nacional, aGuiné-Bissau adoptou o regime da democracia nacionalrevolucionária, consubstanciada na existência de umpartido único, progressista, com o essencial dos poderesconsubstanciado num Conselho de Estado, com poderes para modificardecisões do Governo, da Assembleia e dos tribunais. Com aascensão de Nino Vieira ao poder, depois de 14 de Novembro, eleapropriou-se os poderes que eram conferidos ao Conselho de Estado,configurando um regime marcado pelo culto de personalidade e umaditadura férrea (Estalinismo). Era o regime do presidente, dolíder máximo, do grande timoneiro, do chefe. Com osúltimos acontecimentos, surgiu uma nova figura política,cujos contornos o aproximam de um regime do tipo salazarista, em que oprimeiro-ministro passa a ser o elemento mais importante na estruturado poder. Ele é o centro impulsionador e estruturador nãosó da acção governativa, mas também da vidapolítica, com poderes administrativos, políticos ejudiciais centralizados e exorbitantes. Ele mina a democracia internado partido, proíbe criticismo no seio do Governo, paralisa asinstituições, em especial os tribunais, amordaça aimprensa e arregimenta a sociedade. É o salazarismo guineense.Além dos predicados acima convocados, são tambémsinais dessa nova configuração a direito que oPrimeiro-Ministro se arroga em ser ele a escolher o Presidente daRepública (primeiro foi Raimundo Lopes, depois tentou colocarHenrique Rosa e, finalmente, foi obrigado a aceitar BacaiSanhá), os ministros, os dirigentes daadministração pública e decidir dos investimentospúblicos. A actuação e os discursos de CarlosGomes durante a campanha presidencial são reveladores. Aoproferir ameaças públicas a governantes e a membros dadirecção do seu partido e exercer chantagens do tipo“vou demitir-me se …”, CADOGO falseia e embaralha anatureza das eleições, ofusca e suplanta o candidato,tornando-se actor principal do tabuleiro, mas confirma o tipo de regimeque inaugura com a morte do Nino e a instalação de umregime de cangalheiros. O povo não quer este regime.
Voto contra o modelo de Gâmbia
Osmilitares e os governantes de Bissau parecem fascinados com o modelo deGâmbia. Não nos compete julgar o que acontece naquelepaís, mas surpreende a propensão ao alinhamento parabaixo. Porquê referir-se a Gâmbia ou Conakry, paísesdeficitários em termos de direitos humanos, de estado de direitodemocrático? Porque não se inspira no exemplo do Senegal,de Cabo Verde, reputados países frequentáveis?Surpreendente é a incapacidade dos guineenses actuais daGuiné em lidar com os nobres princípios ensinados porAmílcar Cabral que recomendava aos militantes o seguinte:“partir da nossa realidade e ser realista”. Pois bem, comoem Gâmbia, batem à morte os opositores, os jornalistas,cidadãos críticos. Como em Gâmbia e GuinéConakry, os militares patrulham a cidade, demonstrando claramente quese resvala para a militarização da vida social. Como emGâmbia e Birmânia, os militares não se coíbemde fazer incursões em esferas civis, usurpandopoderes/missão de polícia: repressão decidadãos, seja por usarem trajes parecidos com uniformesmilitares, seja por qualquer tipo de denúncia oualterações envolvendo elementos das forças armadas.
Oproblema é que nem copiar sabem estes governantes, desabafou umcolega guineense, argumentado que se de facto Gâmbia é umaditadura, é dirigido por um líder preocupado com obem-estar das populações, atento ao desenvolvimentovisível das infra-estruturas, do ensino, com empresasflorescentes, centros hospitalares que funcionam e atendem apopulações, e, com um Estado verdadeiramente presente. NaGuiné a ditadura é oca, consistindo apenas no uso daviolência gratuita, coleccionando assassinatos hediondos, edesmandos contra cidadãos que pretendem amordaçar. Oregime não tem ideologia, nem ambições. Oúnico tópico estruturante que arvora é anecessidade de haver ordem. Ordem, ordem, ordem lembra-nos o fascismo eculmina no único balanço tangível que apresentam:assassinatos e repressão.
Conclusão: Malam Bacai ofuscado por Cadogo regista péssimos resultados
Só umacorrecta leitura dos dados saídos das eleiçõeshaverá de permitir à directoria da campanha doscandidatos Malam Bacai Sanhá e Koumba Ialá tirar asmelhores ilações para enfrentarem com êxito asegunda volta das eleições. Como pode Malam Bacaienfrentar correctamente este pleito se a sua direcção decampanha foi completamente decapitada por Cadogo? Como pensam mobilizaros Bijagós sem Conduto e Daniel Gomes, os manjacos, sem MarcianoBarbeiro e Roberto Cacheu, os cristão de Bissau, depois doassassinato de Nino, Bassiro e de Helder Proença, os balantas,depois do assassinato de Tagmé Na Wai?
Quemganhará? Não sabemos. O certo é que o destinonão para de colocar os guineenses diante de dilemas que nuncadesembocam em escolhas acertadas. O fantasma de Yuri Popov ensombra apraça dos heróis nacionais.
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