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Assassinato de Helder Proenca*
Guineenses e amigos, Hélder acreditou e sucumbiu porque António N'djai fala com ele regularmente e deu-lhe garantias, após receber da parte do antigo ministro informações que apontavam Zamora Induta e Carlos Gomes como os verdadeiros mandantes do duplo assassinato de 1 e 2 de Março. Quando atravessou a fronteira, na noite da quinta-feira, ele foi recebido por um grupo de militares “ditos descontes” que deviam conduzi-lo a um encontro com António N'djai. Trouxeram-no até à casa e depois à base aérea em Bissalanca, onde, para a sua surpresa foi apresentado a Zamora Induta . Eram 23H30. Nesse instante apercebeu-se da cilada, mas já era tarde. Foi humilhado, espancado pelo chefe militar que depois ordena o seu assassinato, o que viria a acontecer, uma hora mais tarde, em Braia, ponta de Augusto Dama, entre Joao Landim e Bula. Hélder chegou de Ziguinchor sozinho e desarmado , conduzido por Lamine, um motorista senegalês. A travessia da fronteira num momento em que esta estava fechada foi facilitada pelos serviços secretos guineenses, através dos chamados soldados revoltados fiéis a António N'djai. As duas pessoas que com ele foram abatidas eram o seu condutor pessoal, que o foi buscar em Nepaque e um amigo com quem se encontrava numa confraternização, num dos bairros da capital e que quis acompanha-lo.
Assassinato selectivo ou limpeza política Conclui-se então que esta operação dos militares visava tão apenas assassinar algumas personalidades que inquietavam, tanto mais que pouparam a vida a Faustino Imbali, gesto por muitos comentado como expressão do pacto de Nhinte. O assassinato de Hélder Proença tinha sido concebido, inicialmente como uma operação de gangster: começa com um rapto, seguido de homicídio, com balas alvejando certeiramente o coração dos três homens no flanco esquerdo, o que desacredita a tese de resistência e troca de tiros. Depois, o corpo das vítimas são abandonados na estrada, sendo isso testemunha de amadorismo, crueldade e de falta de respeito à dignidade humana, mas sobretudo, expressão que ninguém teria de prestar contas pelo ocorrido. Alguns minutos depois, o corpo é recuperado pelos malfeitores que o foram deitar num contentor de lixo, no Hospital Central de Bissau. Como se pode conceber uma actuação destas por parte de uma instituição do Estado, de uma organização responsável? Como é que o Governo pode endossar a responsabilidade não só do assassinato mas também do vexame a que foram submetidos os restos mortais destes cidadãos? Como disseram alguns círculos diplomáticos, as forças armadas guineenses tornaram num perigoso bando de malfeitores: gangsters. Os militares e o Governo enfrentam dificuldades para justificar os acontecimentos da semana passada. Falam de uma gravação, mas não se apressam a difundi-la através dos órgãos de comunicação. Quiseram o apoio dos serviços do Ministério do Interior, alegando que foram estes que solicitaram a intervenção dos militares, mas o DG da segurança recusa esta tese e recusa a assinar o comunicado preparado pelos militares, razão pela qual se encontra detido, desde a sexta-feira passada. Mesmo admitindo a tese de Golpe de Estado, muitas dúvidas ficam por esclarecer: qual era o grau de preparação? O perigo era assim eminente? Que forças estavam envolvidas (militares, bem entendido)? E porque é que nenhum militar foi preso? Porque é que as pessoas foram abatidas se já estavam detidas? Todas estas questões conduzem à conclusão de que não houve tentativa de golpe e nem foi essa a razão dos assassinatos. Houve sim um ajuste de contas e uma operação de limpeza política. O assassinato dos dois ex-ministros e eminentes personalidades políticas suscitou tristeza mas muita indignação, senão mesmo revolta na sociedade guineense. Mortes injustificadas, dizem alguns e limpeza política, dizem outros. Uma multidão inesperada acorreu à pequena morgue da capital para prestar homenagem a vítimas daquilo a que eles agora chamam de “esquadrão da morte”. Quer Proença quer Bassiro Dabó eram personalidades de proa e muito populares, não só como políticos mas também como destacadas figuras do mundo cultural, poeta e músico, respectivamente. Quando muitos guineenses julgavam que as matanças haviam terminado com o desaparecimento de Nino Vieira, os factos infelizmente confirmam a violência política faz parte da idiossincrasia guineense, lembrando o assassinato de Amílcar Cabral, Honório Sanchez Vaz, Cesário Carvalho de Alvarenga, Paulo Dias, Momo Turé, José Francisco, Osvaldo Vieira, Paulo Correia, Viriato Pam, Ansumane Mané, Veríssimo Seabra e tantos outros actores importantes da vida política nacional. Há porém uma constante: o papel dos homens em farda, que se transformaram em verdadeiros assassinos em série. Impotentes perante esta situação, cresce a legião de guineenses reclamam a vinda de uma força internacional como aconteceu em Timor Leste, evitando o completo afundamento do Estado guineense. *ORIGEM anónima |