Cateforia dos Arquivos: Entrevistas

PM de transição pede aos guineenses reconciliação e trabalho

Rui Duarte de Barros, Primeiro-Ministro de Transição da Guiné-Bissau

Rui Duarte de Barros, Primeiro-Ministro de Transição da Guiné-Bissau

Bissau – O primeiro-ministro de transição da Guiné-Bissau, Rui Duarte de Barros, apelou hoje aos guineenses para que se reconciliem e trabalhem no sentido de levar o país para frente que, disse, “é de todos”.

“A minha mensagem é de reconciliação e trabalho, porque o país é de todos nós”, afirmou Rui de Barros, momentos após a cerimónia de posse conferida aos novos ministros pelo Presidente de transição, Serifo Nhamadjo.

“Apelo aos funcionários públicos para que, a partir de segunda-feira, todos se dirijam para os seus locais de trabalho”, disse Rui de Barros, em alusão ao facto de os funcionários públicos estarem em greve geral convocada pelos sindicatos um dia a seguir ao golpe de Estado (12 de abril).

O primeiro-ministro de transição garantiu que o mais tardar até quinta-feira haverá a transferência de poderes entre os ministros do Governo cessante com os recém-nomeados para que na segunda-feira se possa iniciar o trabalho na administração pública.

Rui de Barros afirmou estar confiante na sua equipa “por ter pessoas de diversas proveniências e com experiências diferentes”, e disse acreditar que vai liderar um Governo “de gente integra”.

“Este Governo não pode ter incompetentes, não pode ter governantes negociantes. Dentro de uma semana todos os membros vão ter que declarar os seus bens na Procuradoria-Geral da Republica e na saída também vamos ter que declarar os nossos bens”, frisou Rui de Barros.

Em relação ao futuro, destacou que o seu Governo vai respeitar todos os acordos que o país assinou, mas deixa em aberto a possibilidade de rever os que devem ser revistos.

Fonte: Lusa

 

Comando Militar considera inoportuna a intenção da FRENAGOLPE de apelar à desobediência civil

…E desafia Iancuba Djolá Indjai para um debate televisivo em cadeia com as radios nacionais

Iancuba Djola Indjai, Secretário executivo da FRENAGOLPE

Iancuba Djola Indjai, Secretário executivo da FRENAGOLPE

Bissau – O Comando Militar considerou terça-feira como “inoportuna” a intenção da FRENAGOLPE de apelar à desobediência civil contra o golpe de estado.

No encontro de imprensa que permitiu anunciar o seu regresso para as casernas, o porta-voz do Comando militar, tenente-coronel Daba Na Walna, teceu duras críticas ao líder da Frente Nacional Anti-Golpe (FRENAGOLPE), Iancuba Djolá Indjai.

“Eu vou me referir ao caso da FRENAGOLPE, a qual durante todo esse tempo não tem feito outra coisa senão instigar as pessoas para saírem à rua, instigar as pessoas para a desobediência civil, instigar as pessoas para criar o pânico, para criar a confusão entre o povo”.

“Mas, eu vou dizer às pessoas que a CEDEAO resolveu o problema. Ela nos mostrou o campo aonde as pessoas têm que sentar para discutir. Espaço existe aonde as pessoas sentar-se para discutirmos nós todos como irmãos até chegarmos a entendimento”, adiantou.

“A Guiné conheceu sempre momentos de sobressaltos, mas ela sempre soube resolver seus problemas. Este não é o fim de mundo, sentemo-nos para conversarmos. Agora, aqueles que instistem na lógica de conflito e de confrontação pedindo a que as pessoas saiam à rua poderão vir a ser considerados como desordem”, advertiu.

“Ora, falando concretamente de Dr. Iancuba Indjai, que está na FRENAGOLPE, ele nos causa alguma estranheza ter homem como Iancuba, que as vezes toca as palmas ao golpe de estado e outras vezes ele é o maior adversário do golpe de estado. Eu não sei aonde é que ele aprendeu a democracia que as pessoas não aprenderam”, criticou mais.

“O Iancuba Indjai foi vice-presidente do Conselho nacional de transição, que surgiu na sequência do golpe contra o Kumba Ialá”, lembrou Na Walna.

Este porta-voz do Comando Militar esclareceu ainda factos sobre a candidatura de Carlos Gomes Jr a presidência da república.

“Existem mortes ocorridas no país; o Nino morreu, o Tagme morreu e até hoje nenhum julgamento foi feito. Essa Resolução do Conselho de Segurança 1949 o que é que diz? Nós acabamos de fazer esta coisa, fomos para Bruxelas, o que é foi dito lá? Uma das exigências que Bruxelas colocou é que o julgamento terá de ser feito. No roteiro da cimeira de Abuja o que é que consta dele? A garantia de que o julgamento terá de ser feito e constou o calendário. Ora, em vez de o julgamento de ser feito, assistimos à uma corrida desenfreada da parte do Primeiro-ministro, que era objeto de acusação ao cargo de presidente da república. Por que é que ele queria ser presidente? Para ele poder gozar da imunidade presidencial. A nossa leitura é essa, o primeiro-ministro não tem imunidade nenhuma. Por isso ele quis ser presidente da república para não ser aborrecido na certeza de ser levado a julgamento. Isso ninguém conseguiria”, destacou.

Sobre as acusações do ministro português dos NE, Paulo Portas, de os militares guineenses serem traficantes da droga, Na Walna questiona de quem é o responsável da empresa que controla as entradas e saidas da droga no país.

“Com relação ao Paulo Portas em Portugal, que nos chama como traficantes da droga, nós o questionamos de quem é a pessoa que tem a empresa no aeroporto de Bissau, que controla todas as bagagens em trânsito? É bem ele o responsável pela segurança das bagagens. Ora, se a droga transitar através do aeroporto é porque ela foi posta na bagagem”, vincou.

A terminar, Daba Na Walna desafiou Iancuba Indjai para um debate da situação na TGB em cadeia com as rádios nacionais.

Fonte: RDN

 

Serifo Nhamadjo Quer um Governo de Base Alargada que Priorize Tecnicidade e Inclusão

Manuel Serifo Nhamadjo, Presidente da Transição da Guiné-Bissau

Manuel Serifo Nhamadjo, Presidente da Transição da Guiné-Bissau

Bissau – O Presidente da Transição da Guiné-Bissau Serifo Nhamadjo disse quinta-feira que quer um governo de base alargada, que priorize a tecnicidade e a inclusão para fazer face aos desafios de transição.

Serifo Nhamadjo apelou à participação de todos na construção da paz, combate à injustiça, ao crime organizado tráfico da droga.

Por outro lado, Nhamadjo disse ser urgente agir para salvar o ano lectivo e a campanha castanha de caju e que os salários dos funcionários públicos sejam pagos o mais rapidamente possível.

“Os desafios eu já os enumerei várias vezes, são muitos. Eu conto com a vossa colaboração. Eu sei que todos quanto guineenses forem contactados para fazerem parte da equipa de transição terão que encarnar o objectivo que temos pela frente”, avançou.

“Muitos estarão a pôr em causa a brilhante carreira pondo em causa alguns valores pessoais para poderem elevar o sentido patriótico. Porque, afinal, a nação é mais importante. O importante hoje é os guineenses se reencontrarem e ultrapassarem as divergências. Todos nós nós somos especialistas em apontar problemas, mas a virtude será aquela que conseguir apontar a solução para o benefício de todos. Vamos todos trabalhar de mãos dadas para ultrapassarmos mais esta crise”, desejou Nhamadjo, que apelou à uma ‘auditoria internacional independente sobre a governação do país e, sobretudo, das últimas eleições presidenciais antecipadas’.

O novo Primeiro-ministro pediu a que sejam criadas condições de segurança aos funcionários para a retoma normal do seu trabalho.

“O meu agradecimento especial aos nossos parceiros, sobretudo, a CEDEAO pelo empenho que tem dedicado à resolução deste problema interno da Guiné-Bissau, que deve ser resolvido pelos guineenses. Mais uma vez, o seu empenho para que encontremos solução é por que estamos aqui por forma a podermos avançar com este país”, disse Rui Duarte Barros.

“Em breve, nós desenhamos um roteiro que nos dê o nosso objectivo, que é afinal a preparação das eleições dentro de um ano em concertação com todas as partes, para vermos aquilo que é possível fazer e como vamos trabalhá-lo para alcançarmos esse período”, adiantou.

Cerca de uma hora antes, o PRT conferia posse a cinco conselheiros seus, bem a chefe da casa civil da Presidência da república e ao seu secretário-geral.

Fonte: RDN

 

 

Ouédraogo: Não há Antagonismos entre a CEDEAO e a Angola

Kadré Désiré Ouédraogo, Presidente da Comissão da CEDEAO

Kadré Désiré Ouédraogo, Presidente da Comissão da CEDEAO

(GBissau.com) Abuja – Kadré Désiré Ouédraogo, numa entrevista ao Serviço de Francês da Voz de América, disse que “não há antagonismos entre as forças da CEDEAO e as de Angola,” até porque, nas palavras do comissário da CEDEAO, as tropas vão ajudar em parte “a evacuação das tropas angolanas da Guiné-Bissau”.

A resposta de Kadré Désiré Ouédraogo quando o jornalista sugeriu a resistência angolana e dos países lusófonos quanto à retirada das tropas estacionadas no país no âmbito da MISSANG. Para Ouédraogo, “Angola teria mesmo sugerido a retirada das suas tropas da Guiné-Bissau, mesmo antes do golpe. Aliás foi a CEDEAO que pediu à Angola no sentido de esperar pela chegada das nossas forças, antes da sua retirada”.

Mas, devido à gravidade da situação depois do golpe, “a CEDEAO reavaliou a situação e ficou a saber da extrema tensão existente entre as tropas da Guiné-Bissau e as forças angolanas presentes no seu território, e o Presidente da Costa de Marfim Alassane Ouattara pediu ao seu homólogo angolano para acelerar a partida das suas tropas,” acrescentou Ouédraogo.

E para que isto aconteça, será necessário esperar pelas tropas da CEDEAO que irão, de acordo com Ouédraogo “garantir a segurança às tropas angolanas durante a sua retirada e evitar uma tensão inútil no país. Portanto, as duas operações vão ocorrer de uma forma coordenada”. E nisso, “não há quaisquer antagonismos,” concluiu.

Quando o jornalista lhe perguntou sobre a chegada iminente das tropas nigerianas na Guiné-Bissau, Kadré Désiré Ouédraogo retorquiu, dizendo “não devemos falar das tropas nigerianas. Esta é uma força da intervenção da CEDEAO. Claro, os soldados virão da Nigéria, mas virão também doutros países como o Burkina Faso, como o Senegal, entre outros países. Portanto, para nós, ela é a força da CEDEAO que será enviada para a Guiné-Bissau” de acordo com as resolucões das cimeiras de Abidjan e de Dacar.

Todavia, a Nigéria é o país com maior peso na África Ocidental, não só em termos militares, mas também em termos económicos e financeiros. E coincidentemente, Nigéria está a liderar o grupo ministerial destes países, cujos trabalhos vão contribuir para para o retorno à normalidade “de acordo com a constituição da Guiné-Bissau e de acordo com a vontade do povo guineense”, segundo Ouédraogo.

O diplomata de Burkina Faso e antigo primeiro-ministro daquele país disse também que todos os acordos até aqui alcançados no quadro da transição na Guiné-Bissau foram apoiados pelo “Grupo de Contacto” da CEDEAO composto por sete países da sub-região.

As declarações de Kadré Désiré Ouédraogo surgem numa altura em que a CEDEAO anuncia mais um encontro para debater a questão da crise política guineense. Carregue no link para ouvir a entrevista de Kadré Désiré Ouédraogo, Presidente da Comissão da CEDEAO, em françês.

Uma sessão extra-ordinária dos ministros e da Comissão da Mediação e Conselho de Segurança da CEDEAO (MSC) terá lugar no sábado, 19 de Maio, na cidade de Abidjan para analisar a situação da segurança na Guiné-Bissau e no Mali.

Na reunião o Presidente da Comissão da CEDEAO, Kadré Désiré Ouédraogo, irá actualizar – através da apresentação de um relatório — os ministros das relações exteriores e da defesa sobre a situação política e de segurança na Guiné-Bissau e no Mali.

Nigéria foi nomeada para chefiar o “Grupo de Contacto” regional de acompanhamento da resposta da região à crise guineense, após a cimeira extraordinária de 26 de Abril que juntou os líderes da CEDEAO em Abidjan.

Daba Naualna: “Temos a cultura de nos Calarmos”

E “sinto-me tranquilo porque não matei ninguém”

Daba Naualna, porta-voz do Comando Militar

O porta-voz do Comando Militar, Daba Naualna reagiu às sanções anunciadas pela União Europeia, dizendo que “compreendo a decisão da união europeia, mas ela não me afecta” porque sei que “não matei ninguém”.

Quanto a Carlos Gomes Júnior, reiterou a posição anterior, na qual teria afirmado que “enquanto não houver um tribunal a condenar Carlos Gomes Júnior de um crime que o impeça de se candidatar às próximas eleições presidenciais, ele terá o direito de se candidatar… só que não pode fazer parte de um governo de transição conforme o acordado com a CEDEAO”.

Eis os principais pontos da conferência da imprensa do Sábado, 5 de Maio, nas palavras do porta-voz do Comando Militar:

  • Já estamos a chegar ao fim desta crise;
  • Tudo o que se passou não nos orgulha e lamentamos o acontecido;
  • Neste país ninguém diz a verdade porque se houvesse gente dentro do PAIGC com a coragem de contrariar Carlos Gomes Júnior, não teríamos chegado a este ponto. Nós temos a cultura de nos calarmos;
  • Na Guiné-Bissau, não estamos a viver num mundo real – estamos a transformar isto num país virtual;
  • Há pessoas que estão a instigar as populações para um conflito interno para depois justificar a intervenção externa;
  • Quanto à escolha das futuras pastas ministeriais para o governo de transição é uma questão interna;
  • Eu compreendo a decisão da União Europeia quanto às sanções impostas, mas sinto-me tranquilo porque não matei ninguém
  • O período de transição de 12 meses será o tempo suficiente para relançar as bases do país.

Oiça o som desta conferência de Imprensa. Conferência de Imprensa do porta-voz do Comando Militar, Daba Naualna – 5 de Maio de 2012

 

Daba Naualna Tenta Desanuviar Tensões Depois das Sanções Anunciadas pela CEDEAO

o porta-voz do Comando Militar, Daba Naualna | Foto: UNIOGBIS

o porta-voz do Comando Militar, Daba Naualna | Foto: UNIOGBIS

Durante mais uma aparência pública na terça-feira, no primeiro dia do mês de Maio, o porta-voz do Comando Militar, Daba Naualna, explicou aos jornalistas o seu ponto de vista sobre as negociações de Banjul.

Apesar das tensões que se vivem na Guiné-Bissau, o Tenente-Coronel Naualna mostrou-se optimista, garantindo de que “a CEDEAO não vai aplicar sanções” porque, “a Guiné-Bissau está a cumprir com todos os pontos apresentados” por esta organização regional.

Durante a mesma conferência de Imprensa, o porta-voz confirmou a notícia inicialmente publicada pela GBissau.com sobre o ponto de divergência que levou ao falhanço das negociações de Banjul — ou seja, a rejeição de Raimundo Pereira como futuro Presidente interino.

Mas, o mais importante parece ter sido alguns sinais de um bom entendimento que se estão a verificar. Em Bissau, “há um esforço de aproximação das partes,” referiu Daba Naualna.

Outro sinal do progresso na aplicação das decisões saídas da Cimeira Extraordinária de Abidjan do passado 26 de Abril, tem a ver com o envio das tropas da CEDEAO para a Guiné-Bissau. Neste aspecto, Naualna anunciou de que “…dentro em breve a força da CEDEAO chega aqui para supervisionar a saída das tropas angolanas e acompanhar-nos durante esta fase de transição.”

E, por fim, o porta-voz do Comando Militar pediu “ponderação à CEDEAO” e incentiva as forcas políticas da Guiné-Bissau a encontrar vias para resolver o aspecto político do levantamento de 12 de Abril.

Aqui vai a transcrição das palavras proferidas por Daba Naualna na abertura da conferência de imprensa, uma cortesia do Departamento da Informação de UNIOGBIS em Bissau.

==========================================================

“Bom dia, senhores da imprensa.

Começaria por desejar a todos um bom 1º de Maio. Um bom 1º de Maio nessas condições em que estamos. Convocamos esta conferência de imprensa para desanuviar a tensão que paira sobre a cidade de Bissau devido as declarações ouvidas ontem ou a decisão saída de Banjul. Nós estivemos presentes na reunião e devo garantir aos senhores que a CEDEAO não vai aplicar sanções. Não aplica porque a Guiné-Bissau está a cumprir com todos os pontos apresentados pela CEDEAO cujo incumprimento poderia desencadear um processo de sancionamento.

Já disse isso numa conferência de imprensa, a saber a primeira condição colocada é a libertação imediata e incondicional de todas as pessoas detidas. É do conhecimento de toda a gente que isso é uma realidade. A segunda condição: envio das forças da CEDEAO para vir presenciar a retirada das tropas angolanas. Já está sendo uma realidade porque temos aqui uma equipa de militares da CEDEAO que em conjunto está a discutir com as autoridades militares da Guiné-Bissau a melhor fórmula possível para a concretização deste mandato, ou seja já se está a escolher unidades onde esta força se instalará. E a terceira e última condição colocada pela CEDEAO é a devolução poder aos civis. Como devem calcular, ainda que não tivesse uma cerimónia solene, formal para que isso aconteça, o facto de termos convidados os políticos para tomarem parte nas conversações, na procura de solução para esta crise já por sis ó significa materialmente que este pedido já está a ser cumprido. Nós estamos a cumprir de uma forma exemplar com a CEDEAO.

O ponto de divergência nesta reunião na Gâmbia teve a ver com a questão do retorno do Raimundo Pereira ao cargo de Presidente da República. Pedimos ponderação à CEDEAO, pedimos a discussão à volta desta questão. Os demais pontos que foram apresentados foram aceites. Não recusamos nenhuma proposta da CEDEAO. Pedimos apenas a ponderação sobre este ponto, convém discutir muito bem para ver se é melhor ou se é pior solução uma vez que temos muitas saídas constitucionais possíveis para contornar a saída do Presidente Raimundo Pereira. A CEDEAO propõe que o Raimundo retorne e ocupe a sua função. Mas se o Raimundo voltar será Comandante em Chefe das Forças Armadas, um Comandante em Chefe das Forças Armadas deve ser efectivamente isso. Ora com o que se passou – o Raimundo foi preso e depois exilou-se na Costa de Marfim – se voltar para ser presidente, não terá condições materiais e morais para efectivamente exercer esta função. Um Comandante em Chefe tem que ser comandante mesmo.

Ora um comandante que tem medo do soldado que o prendeu não seria um comandante. Ou volta com um espírito revanchista e isso poderá desencadear mais um outro processo de conflito. Para evitar que isso aconteça, porque queremos uma paz efectiva e duradoura, pedimos a CEDEAO que ponderasse melhor e que encontrasse outra saída possível através da Constituição ou recorrendo a uma solução extra constitucional mas que seja consensual.

O único ponto dos sete que foi apresentado que não foi aceite e que pedimos a ponderação e discussão foi este e é bom que fique bem claro que o encontro que tivemos em Banjul não é um encontro ao nível dos Chefes de Estado e do Governo. Foi um encontro com um grupo de contacto criado para arranjar soluções para a saída da crise. A CEDEAO é medianeira e foi neste âmbito que tivemos a reunião na Gâmbia à procura de mais uma saída. A reunião ali não foi conclusiva porque alguns pontos ficaram em abertos e estamos esperançados que o encontro que terá lugar depois de amanhã em Dakar venha a ser decisivo para a saída desta crise.

Cá internamente há um esforço de aproximação das partes como ouviram as declarações do secretário nacional do PAIGC, Dr. Augusto Olivais aquando da nossa chegada ontem ao aeroporto. Disse reconhecer que é preciso encontrar soluções e é bom que se diga que o Comando Militar nunca fechou a porta a ninguém. Entendemos que com um diálogo franco, inclusivo em que toda a gente toma parte poderemos sair desta crise. Vamos ter um encontro hoje com o PAIGC e mais outros partidos. O encontro foi marcado para às 11 da manhã e terá lugar na Cúria. Vamos ali procurar aproximação de pontos de vista para que interinamente se consiga uma solução endógena que nos permita sair facilmente desta crise. Portanto é tudo o que estamos a fazer neste momento. CARREGUE AQUI PARA VER AS FOTOS DESSE ENCONTRO

Relativamente as ameaças que estão a ouvir, volto a dizer, a CEDEAO nunca atacará a Guiné-Bissau porque da resolução saída de Abidjan não consta em nenhum parágrafo cujo incumprimento da nossa parte levaria a CEDEAO, nessa primeira fase, a atacar a Guiné militarmente. Uma intervenção militar da CEDEAO só se justifica num país que esteja em conflito, em que haja beligerantes. Ora como se vê estamos aqui em paz, as discotecas funcionam plenamente, quem for hoje à praia de Suru ou Varela verá que as pessoas estão lá, embora com alguma dificuldade e a vida voltou à normalidade, portanto não há conflito aqui. A CEDEAO só sanciona se não estivermos a cumprir. Dentro em breve a força da CEDEAO chega aqui para supervisionar a saída das tropas angolanas e acompanhar-nos durante esta fase de transição, para garantir segurança as testemunhas que serão chamadas a depor durante julgamento dos processos de assassinato político que passaram aqui. Portanto há que ficar muito calmo, que não haja este pânico.

A CEDEAO é uma organização sub-regional cuja missão é garantir a paz na região e só intervém militarmente quando vê mesmo que o único remédio é a intervenção militar. Estamos a viver em paz, com problemas de rotura com a Constituição da Republica mas com o diálogo franco os caminhos nos chegamos lá. Por siso volto a dizer as pessoas que nós ainda não estamos a ser alvos de ataque da CEDEAO nem isso deverá a acontecer num futuro próximo a não ser que da nossa parte venha a ter um conflito interno aqui. Acredito que o bom senso governará e este país viverá em paz para sempre.

Muito obrigado”.

GBissau | UNIOGBIS

P.S: O chefe de Estado Maior da Forças Armadas, General António Indjai foi visto na Fortaleza da Amura ao mesmo tempo que decorria a conferência de Imprensa de Daba Naualna.

António Indjai, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas visto na Fortaleza de Amura

António Indjai, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas visto na Fortaleza de Amura | Foto: UNIOGBIS

 

Situação Tensa na Guiné-Bissau Depois do Falhanço das Negociações de Banjul

As negociações que tiverem lugar durante o passado fim-de-semana na cidade de Banjul em Gâmbia resultaram num fracasso, admitem alguns elementos que compuseram as delegações da Guiné-Bissau.

Pelo Editor, GBissau.com

Fernando "Nando" Vaz, porta-voz do fórum dos partidos políticos guineenses

Fernando "Nando" Vaz, porta-voz do fórum dos partidos políticos guineenses

Nas palavras do porta-voz do fórum dos partidos políticos guineenses, Fernando “Nando” Vaz, as razões dos falhanços devem-se não só à falta do consenso quanto à recondução de Raimundo Pereira ao cargo do presidente Interino, mas sobretudo à atitude de “imposição, confrontação e de insultos” por parte do Presidente gambiano, Yahya Abdul-Azziz Jemus Junkung Jammeh.

Numa entrevista telefónica a partir de Bissau, Fernando Vaz diz que o presidente gambiano “tratou-nos de crianças, utilizando técnicas infantis” durante os encontros separados com o Comando Militar, a delegação do PAIGC (ala de Carlos Gomes Jr.) e com o Fórum dos partidos políticos.
Em cada encontro separado mantido, “Yahya Jammeh começa por dizer que as outras partes já concordaram com todas as propostas”, numa clara deturpação da realidade, indica o porta-voz. Pior ainda: Yahya Jammeh terá afirmado durante um desses encontros de que “se os políticos guineenses e os militares não se entendessem, a Guiné-Bissau seria confrontada com uma guerra com consequências imprevisíveis.” Os representantes, na sua maioria, admitem ter sido apanhados de surpresa pelas declarações bombásticas de Sr. Jammeh.

Presidente gambiano, Yahya Abdul-Azziz Jemus Junkung Jammeh.

Presidente gambiano, Yahya Abdul-Azziz Jemus Junkung Jammeh.

Mesmo assim, muitas conversações tiveram lugar nas quais foram apresentadas sete propostas pelo Grupo de Contacto da CEDEAO:

  1. Restituição da Ordem Constitucional
  2. Recondução do Presidente Interino Raimundo Pereira
  3. Escolha de um primeiro-ministro de consenso
  4. Formação de um governo (Comando Militar indigitaria elementos para ocupar as pastas da Defesa e do Ministro do Interior)
  5. Tanto o Presidente Interino com o primeiro-ministro não poderiam ser candidatos nas próximas eleições
  6. Constituição da ANP que manteria as suas características anteriores ao Golpe de Estado, mas com a condição do seu mandato acabar em Novembro deste ano para depois ser prorrogado até às próximas eleições
  7. Estacionamento das forças da CEDEAO

Dentre estas propostas, houve acordos em todos os pontos com a excepção do ponto número dois da agenda, ou seja, a recondução do Presidente Interino Raimundo Pereira.

A razão do impasse tem a ver com os diferendos entre as alas de Carlos Gomes Jr. e de Serifo Nhamadjo, apontou o porta-voz do fórum dos partidos políticos guineenses. Aparentemente, “para que Carlos Gomes Jr. avance a sua candidatura à presidência da República dentro de um ano, a ala dele não defende uma outra posição senão a recondução de Raimundo Pereira ao cargo do Presidente Interino,” esclareceu Fernando Vaz.

Entretanto, nos bastidores políticos da Guiné-Bissau, aumentam as especulações sobre o braço-de-ferro no seio do partido PAIGC. No ponto de vista de um membro do PAIGC que nos falou em condição de anonimato, “há um esquema que se montou para afastar Serifo Nhamadjo da Presidência, um esquema que agora conta com os esforços de Cabo Verde e de Angola”.

Aparentemente, muitos representantes políticos não gostaram da posição cabo-verdiana na reunião de Banjul. Isto numa altura em que se fala do estacionamento de aviões e de um navio de Guerra angolano no território de Cabo Verde, cujos objectivos era de transportar as tropas angolanas de volta para o seu país. Mas, “Angola está a tentar ganhar tempo, sem se aperceber das suas intenções reais,” frisou a mesma fonte. Dita doutra forma, a MISSANG continua estacionada na Guiné-Bissau.

E para tornar o ambiente mais tenso, existem neste momento grandes movimentações militares a sul da Guiné-Bissau. Os militares guineenses estão num estado de alerta porque dizem “houver fortes indícios de uma tentativa de infiltração a partir do território da Guiné-Conacri.”

CEDEAO

CEDEAO

Paralelamente, a CEDEAO vai tentando fechar o círculo ao Comando Militar, tendo anunciado sanções contra as chefias militares guineenses. Mas, no ponto de vista de Fernando Vaz, O Grupo de Contacto Regional que esteve reunido em Banjul “não tinha competências para tal e, havendo sanções, elas terão que ser aprovadas pela presidência da CEDEAO”.

Recorde-se de que o Grupo de Contacto Regional e de Acompanhamento é presidido pela Nigéria e com as participações de Benim, Cabo Verde, Gâmbia, Guiné-Conacri, Senegal e de Togo. Este grupo é encarregue de coordenar e acompanhar a implementação das decisões saídas da Cimeira de Abidjan.

DOM JOSÉ CÂMNATÉ NA BISSIGN, Bispo da Diocese de Bissau

DOM JOSÉ CÂMNATÉ NA BISSIGN, Bispo da Diocese de Bissau

Entretanto, hoje, terça-feira, decorrem vários encontros em Bissau entre as partes envolvidas sob à mediação de Bispo de Bissau, Dom José Camnaté Na Bissign, assim como de representantes da religião muçulmana. Apesar de um aparente “Pânico político-militar”, um certo optimismo paira no ar, na medida em que os “políticos guineenses reconhecem a dimensão real das consequências de uma eventual invasão de uma força estrangeira,” adverte Fernando Vaz.

Há uma expectativa de se encontrar um denominador comum antes da reunião de Senegal, marcada para a próxima quinta-feira, dia 3 de Maio. “O presidente gambiano insiste que a mesma decorra no seu país, mas os guineenses parecem terem perdido a paciência com Yahya Jammeh”, conclui o porta-voz do Fórum dos partidos políticos. Há fortes indicações de um possível boicote por parte de muitos representantes políticos e militares caso a próxima reunião tenha lugar em Gâmbia.

A desconfiança em relação a Yahya Jammeh é alimentada no facto do Presidente gambiano ter visitado recentemente a República de Angola, onde terá assinado vários acordos de cooperação.

Agora, “cada país da nossa sub-região quer tirar o proveito da situação guineense e dai que seja necessário uma chamada de atenção aos políticos guineenses para que resolvam as suas diferenças antes que seja tarde demais”, aconselhou um observador politico atento à crise politica guineense.

GBissau.com

 

Acusação: “Paris está por detrás da confusão que se regista na Guiné-Bissau…”

…Segundo o Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Angola, Eng. Isaac Monteiro

Por Jorge Eurico*

“Paris está por detrás da confusão que se regista na Guiné-Bissau”

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

O ainda cônsul-geral em Luanda, o bissau-guineense Isaac Monteiro, em entrevista ao SA, depois de alguma hesitação, acabaria por acusar a França de estar por detrás da confusão que se instalou no seu país, algo que visaria a eliminação da influência que Angola estaria a cimentar numa zona (África Ocidental) em que Paris sempre se habituou a mandar. Contudo, parece que o petróleo prestes a ser explorado por lá estará na base da «competição», se não for a «conversa» do narcotrá­fico a motivar a grande agitação que se regista por lá nestes últimos dias…

O Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda é um homem com o coração dividido entre a sua terra na­tal e Angola, onde vive desde 1969. Em face da situa­ção de grande agitação que se vive na Guiné-Bissau desde há duas semanas, o SA decidiu entabular uma longa conversa a propósito, entre outros assuntos jul­gados interessantes. Durante a fala, Isaac Monteiro, embora com toda a cautela que a diplomacia obriga, não deixou de tecer críticas ao seu governo, por, na sua óptica, ter permitido que determinados sectores da sociedade bissau-guineense se atirassem contra a Missang, em particular, e até contra quadros civis angolanos que lá têm ajudado a desenvolver o país a vários níveis. Porém, mais inaudito ainda seria a sua afirmação, feita depois de muita hesitação e por in­dução, de que a França estará por detrás do Golpe de Estado perpetrado pelo dito «Comando Militar».

Embora não o tivesse dito explicitamente, deixaria escapar que a intromissão de Paris nos assuntos de Bissau teria a ver com o crescendo da influência que Luanda vinha tendo no país, onde detinha uma missão militar que lá estava para ajudar a reorgani­zar as forças armadas locais, no quadro de um acordo bilateral entre os governos de Angola e da Guiné-Bis­sau, país situado numa zona (África Ocidental) onde a França sempre se habituou a «mandar» a solo.

Mais adiante, disse que, ao contrário do que é já propalado, o seu país não é «narco-estado» algum. Segundo ele, sucede apenas que não dispõe de meios para vigiar as 80 ilhas aonde os traficantes chegam de avione­tas com as suas drogas. Ou seja, a Guiné-Bissau, por enquanto, vê-se impossibilitada de evitar que o país continue a ser uma placa giratória para o tráfico de drogas pesadas.

Semanário Angolense (SA) Asterix, uma figura de banda de­senhada criada em França, em 1959,por Albert Uderzo e René Goscinny, dizia: «Estes romanos são todos loucos». Esta afirma­ção também serve para os gui­neenses?

Isaac Monteiro (IM) Para falar com propriedade, precisava de ter uma ideia do que se passa na cabe­ça dos golpistas. E eu confesso que não tenho. Por isso, posso errar ao dar uma opinião sobre isso, posso ser mal compreendido. É preciso ter cuidado. Hoje estou aqui, amanhã poderei estar lá, como é desejo de todos os guineenses. Sou empre­endedor. Tenho investimentos em Angola e na Guiné-Bissau. Hoje es­tou aqui, amanhã poderei estar na Guiné (Bissau) e não saber o que me espera.

SA – Receia, neste momento, ir à Guiné-Bissau?

IM – Os políticos não têm medo de morrer ou perder a pá­tria e a família. Estou pronto a ir ao meu país a qualquer momento.

SA O que é que se passou, concretamente, numa altura em que se preparava a segunda vol­ta das eleições presidenciais?

IM – Foi um mal-entendido entre os militares e os governan­tes do país. Houve uma invenção falsa que correu nas ruas da Gui­né-Bissau e que os militares não gostaram. Ficaram indignados, diria mesmo revoltado com a tal invenção. Por isso levantaram-se para mostrar que não estão aí para serem postos de parte. Tomaram esta posição para ne­gociar a sua situação social, eco­nómica e reivindicar o direito de melhorar a governação do país. Eles (os militares) estão em con­dições de dizer o que pretendem. Esta é a leitura que faço. Há por trás uma agitação.

SA – Agitação da parte de quem?

IM – Da parte de alguns diri­gentes que falaram sem respon­sabilidade, e isso terá chegado aos ouvidos dos militares. Esta é uma das coisas que levantou o proble­ma que se está a viver na Guiné- Bissau.

SA – Qual era o conteúdo da dita «invenção»?

IM – O que chegou aos ouvidos dos militares é que haveriam de ser substituídos. Um combaten­te que foi para mata aos dezassete anos e hoje, com quarenta, cin­quenta anos como militar, sem possuir aposentação condigna, e ouve este tipo de invenção, fica revoltado, sai à rua para reivin­dicar o que pretende. Todo mun­do condena a Guiné-Bissau, mas ainda não vi um passo concreto com vista a garantir a reforma condigna para os militares. As Nações Unidas, a União Europeia e a CPLP falam, mas não vimos dinheiro nenhum. Prometem dar, mas não o fazem. O único país que tem ajudado a Guiné-Bissau é Angola, sem contar com o apoio da CPLP.

«Angola é o único país que nos tem estado a ajudar de verdade»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – Como explica a existência de sectores políticos e militares que se tenham mostrado contrá­rios à Missang?

IM – Não acredito que os gui­neenses não queiram a Missang. A Guiné-Bissau e Angola são pa­íses irmãos desde há muito. Nós, guineenses, trouxemos armas e militares para aqui no sentido de ajudar a luta dos angolanos contra o colonialismo português. Temos um passado comum. Gostei muito do discurso de Sua Excelência en­genheiro Presidente José Eduardo dos Santos quando disse: «Vamos tirar a missão militar de lá (Guiné- Bissau), mas vamos continuar com a nossa irmandade». Isso é discur­so de um grande líder, palavra de um homem de Nação e do mundo. Isto valeu muito e abriu muitas portas. Mas há quem queira fazer qualquer coisa contra isso. E há agitadores.

SA – Estes agitadores estão identificados?

IM – Alguns já deverão estar identificados pelos revoltosos. Os guineenses precisam de outras condições.

SA – Que tipo de condições?

IM – De todo tipo. A Guiné-Bis­sau é um país pequeno e rico, mas não tem um serviço correcto para dar rendimento. A Guiné-Bissau tem hipótese de pagar qualquer investimento com os recursos na­turais que possui e não o faz. É um país com tantos recursos hídricos, mas sem uma barragem hidroeléc­trica. Em que pé estamos? Depois de tantos anos de independência, não há dirigente nenhum com ca­pacidade e visão para desenvolver o país? Isto é revoltante. Os intelec­tuais na diáspora são a salvação da Guiné-Bissau.

SA – O que é que estes inte­lectuais fazem, a partir de fora, para a Guiné-Bissau?

IM – Não têm hipóteses de fazer nada por ela, por enquanto. Têm que aguardar. Quando tentam fa­zer, esbarram sempre em determi­nados impedimentos.

SA – As notícias que nos vão chegando sobre o que se está a passar na Guiné-Bissau cor­respondem à verdade ou há um certo exagero da Comunicação Social?

IM – Se há coisas que respeito muito, a Comunicação Social é uma delas: nunca mente! É preci­so ter respeito e consideração pela Comunicação Social, embora exis­tam sempre jornalistas sensacio­nalistas que exagerem no calor da emoção de querer estar do outro lado da cortina e fazem a infor­mação para desmoralizar um dos lados.

SA – Definitivamente, pode-se dizer que os problemas que vão tendo lugar na Guiné-Bissau re­sidem na ausência da acomoda­ção dos antigos combatentes e que passados tantos anos ainda estão no activo?

IM – Estes homens ainda não são devidamente tratados. São ho­mens que passaram muitos anos a comer mal, a vestir mal, a dormir mal e continuam a não ter o de­vido tratamento por parte do Go­verno.

SA – Os militares na Guiné-Bis­ sau têm uma certa aversão em sujeitar-se ao Poder Político?

IM – Pelo contrário, eles até respeitam-no muito. É preciso entendê-los. É preciso entender o que os golpistas querem. É preciso conversar com eles.

SA – Como explica a morte de Nino Vieira, Baciro Dabó…?

IM – Citou um nome (Nino Viera), cuja morte doeu-me mui­to. Quase fiquei doente. Na altura disse à Comunicação Social que a morte deste dirigente tinha sido uma barbaridade, mas numa re­volução tudo pode acontecer. Num país que, de facto, quer desen­volver, mas que encontra sempre obstáculos, há momentos em que é preciso tomar uma posição, que é isto o que está a acontecer neste momento. A solução do problema da Guiné-Bissau será encontrada pelos guineenses. Não são pala­vras ameaçadoras vindas de fora que vão trazer a solução para os problemas da Guiné-Bissau. Isso não se faz no país dos outros. De­vem procurar saber o que é que os guineenses precisam. Prometeram fundos para a reforma, mas nunca deram…

SA – Angola também prometeu e não o fez?

IM – O único país que tem apoiado positivamente a Guiné- Bissau, como irmão, é Angola.

SA – A ajuda de Angola não foi vista com bons olhos por parte de alguns países?

IM – Sim, muita gente não se sente bem por Angola estar a apoiar a Guiné-Bissau no desen­volvimento de infra-estruturas. Angola está a ajudar a construir um porto de águas profundas, estradas e caminhos-de-ferro que vão permitir a transacção dos re­cursos naturais existentes na Gui­né-Bissau para outros países. É por isso que Angola é invejada.

SA – Quem é que não vè com bons olhos o apoio de Angola à Guiné-Bissau?

IM – Não quero citar a Nação. Mas se os observadores e analis­tas políticos tiverem a cabeça fria, hão-de lá chegar, hão-de desco­brir aonde estão os agitadores e o mal. Há uma potência que apoia Angola, mas há uma que não está satisfeita porque fazia parte deste processo indirectamente.

SA – Estamos a falar de uma Nação que fala português?

IM – Nem por isso. Não vou citar este país. Deixo para os ob­servadores e analistas políticos mais entendidos.

SA – Como encara a saída da Missang do seu país?

IM – Com muita tristeza e apreensão. A Missang estava a fazer um trabalho excelen­te. Mas os angolanos podem integrar um contingente mili­tar mais heterogéneo. Isto para não criar especulações junto do povo. Nós estimamos e acari­nhamos muito os angolanos; ali­ás, qualquer estrangeiro é bem acarinhado na Guiné-Bissau. A prova disso é que nunca nenhum estrangeiro foi, até ao momento, atingido durante os tumultos, nem com palavras nem com pe­dras.

SA – É verdade que o Primei­ro-Ministro Carlos Gomes Jú­nior quis usar a Missang como sua guarda pretoriana?

IM – Isto não tem fundamen­to. Penso que Carlos Gomes Jú­nior nunca pensou nisso. Todas as instituições, incluindo as em­baixadas de Angola, Portugal e outras, estão a ser protegidas pelas forças militares guineenses.

SA – Disse que os militares guineenses respeitam a Cons­tituição. Como explica a deten­ção do Presidente da República interino e do Primeiro-Minis­tro?

IM – Numa revolução tudo é possível. Isso acontece em todas as partes do mundo, até na Euro­pa. A solução dos problemas da Guiné-Bissau está nos próprios guineenses.

SA – Mas parece que os gui­neenses são um problema para a solução dos problemas que afligem a própria Guiné- Bissau. Ou não será assim?

IM – Há muitos agitadores. A Guiné-Bissau tem muitas tribos. Não se fez o trabalho de unida­de nacional, isto desde a luta de libertação armada para que pu­déssemos estar unidos.

Trinta e oito anos depois da sua independência «Somos um Estado fragilizado»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – A Guiné-Bissau começou mal ou é um Estado falhado?

IM – A Guiné-Bissau é um Estado fra­gilizado e começou mal por causa da trai­ção. Amílcar Cabral foi morto por traição e continua-se a matar os dirigentes por trai­ção. Não foi feito um trabalho para unir os guineenses. Vejamos: Angola é quinze vezes maior que a Guiné-Bissau, mas está a fazer um trabalho de unidade e reconciliação na­cional. Não há diferença entre bailundos e quimbundos. Há harmonia. São todos an­golanos a lutar pelo mesmo fim. Isto é um valor importante. Isto é capacidade de um bom Chefe de Estado.

SA – Há crise de liderança na Guiné- Bissau?

IM – O que está a acontecer na Guiné- Bissau responde à sua pergunta.

SA – A morte de Amílcar Cabral deixou uma peçonha na Guiné-Bissau?

IM – A morte de Amílcar Cabral deixou a nação bissau-guineense dividida, violen­ta e com as tribos cheia de rancor. O traba­lho de sensibilização «Nó djunta mom, no pintcha», que estava a ser feito em 1974/5, não foi terminado.

SA – E isso tem reflexos hoje?

IM – Exactamente! A política de unida­de «Nó djunta mom, no pintcha» falhou. Tentou-se introduzir em todo território gui­neense a língua crioulo para que as tribos pudessem comunicar-se melhor. Acredita que há regiões na Guiné-Bissau em que as pessoas que não sabem comunicar-se em português nem em crioulo. Este trabalho precisa de ser feito por pessoas que não queiram lucros imediatos.

SA – Os problemas da Guiné-Bissau começaram depois da morte de Amílcar Cabral ou começaram na Colina de Boé, ao tempo da guerrilha?

IM – Precisamente, desde logo porque o PAIGC tinha bases na Guiné-Conacry. Sekou Touré deu-nos grandes apoios, mas os problemas, as traições começaram depois de terem prendido Augusto Rafael Barbo­sa, morto Zambuja e desviado a canoa com armamento para um outro porto. Sempre houve traição entre eles. Mas era uma guer­ra conjunta de guineenses e cabo-verdianos para a libertação dos dois países. A Guiné- Bissau sofre desde a luta de libertação.

SA – Por isso é que, depois do «Movi­mento de Rectificação», os cabo-verdia­nos se retiraram da Guiné-Bissau?

IM – Não, nada disso. Os cabo-verdianos não se retiraram da Guiné-Bissau. Cabo Verde tornou-se independente e achou-se que cada país deveria ser governado pelos seus filhos.

SA – Durante a guerrilha, quem mais traía, o cabo-verdia­no ou o guineense?

IM – Não, a traição era ape­nas entre as tribos guineenses. Houve tentativas de tomada de poder por parte de Luís Cabral e de outros cabo-verdianos. Por isso é que Nino Vieira fez a reposição do Estado, afastando Luís Ca­bral do poder. Quem não sabe diz que aquilo foi um golpe de Esta­do. Não, não foi golpe de Estado. Qualquer país deve ser governado pelos seus filhos. Isto acontece em toda parte do mundo. Não pode­mos permitir que os congoleses ve­nham governar Angola. Não po­demos permitir que os angolanos saiam daqui para governar outro país. A Convenção de Genebra é clara sobre isso.

SA – Os cabo-verdianos esta­vam intelectual e politicamente melhor preparados, daí terem usado os guineenses no decurso da guerra de libertação e depois da independência?

IM – Não é bem assim. Cabo Verde foi uma das colónias portu­guesas que teve liceu muito cedo. Os meus pais fizeram o liceu em Cabo Verde. A Guiné-Bissau teve o liceu «Honório Barreto» antes da independência. É verdade que os cabo-verdianos tiveram acesso ao ensino primeiro que os guineenses.

SA – Não respondeu directa­mente à pergunta…

IM – Os cabo verdianos não usaram os guineenses. Aconte­ce que, durante a luta, o gran­de guia imortal Amílcar Cabral enaltecia a tribo balanta por esta ter entregado o maior nú­mero de filhos para a guerrilha. A tribo balanta entregou-se de corpo e alma à luta de liber­tação da Guiné-Bissau. E eles sempre pensaram por isso que mandavam na luta e ainda hoje pensam assim. Amílcar Cabral era guineense, não era cabo-verdiano que foi para Guiné- Bissau, não. Ele é filho de uma guineense. Este era um trabalho que já deveria ter sido feito jun­to da juventude guineense para saber o que se passou, o que se está a passar e o que se poderá passar no futuro.

SA – Mesmo assim não admi­te que a Guiné-Bissau tenha começado mal, enquanto Es­tado?

IM – Eu disse que desde a luta armada que começaram a matar-se entre eles devido à traição. Por isso admito que começou mal. A independência não foi dirigida pelos guineenses. Foi preciso fazer uma reposição à força para que a independência pudesse ser dirigi­da pelos guineenses.

SA – Porque é que, depois da independência, a Guiné-Bissau não não foi dirigida por guineen­ses?

IM – Achou-se, na altura, que se deveria honrar a memória de Amílcar Cabral. Por isso foi-se buscar Luís Cabral, o irmão de Amílcar Cabral, para dirigir o país. Mas como a governação estava ser malfeita, então teve que se afastar Luís Cabral.

SA – Então não é correcto di­zer que Nino Vieira liderou um golpe de Estado contra Luís Cabral?

IM – Não, não é correcto, Nino Vieira fez a reposição do Estado.

SA – Não era possível, na al­tura, recorrer a eleições?

IM – Era tempo de partido único e na Guiné-Bissau reina­va, na altura, a «Lei do Gati­lho». Não havia democracia em África.

SA – A «Lei do Gatilho» conti­nua na Guiné-Bissau…

IM – Mas não só na Guiné- Bissau. A «Lei do Gatilho» está presente em quase todo o conti­nente africano. Acompanhei e acompanho a política africana, por isso sei do que estou a falar.

SA – Podemos dizer que a Guiné-Bissau é, no contexto da CPLP, como um «filho» maior de idade que não consegue an­dar com os seus próprios pés?

IM – Disse bem! A Guiné-Bis­sau não consegue andar com o vejo e acompanho aqui em Ango­la. A Guiné-Bissau é um país rico. Não compreendo. Há guineenses com a mão estendida a toda hora! Isto está ultrapassado. Como é que países estrangeiros entram na Guiné-Bissau tiram recursos, matérias-primas sem pagar taxas alfandegárias? Esta não é uma forma de perder a soberania? Isto é um abuso de confiança!

SA – Estamos a falar de que

IM – Guiné-Conacry, Senegal…

SA – Há muitos interesses na Guiné-Bissau por parte dos paí­ses vizinhos?

IM – Pode crer! Há um país, não o vou citar,que está por de­trás disso tudo. Deixo para os analistas políticos para identi­ficarem onde está o mal e desta forma puderem negociar com ele. Este país deve deixar de incitar a guerra na Guiné-Bissau.

SA – Estamos a falar de países da CEDEAO?

IM – E não só!

SA – Repito: Há muitos interes­ses em jogo na Guiné-Bissau por parte de países estrangeiros?

IM – Há um país que está, como disse não o vou citar, por detrás do que se passa na Guiné- Bissau. É bom que os amigos que se dizem nossos amigos parem de incitar a guerra na Guiné- Bissau.

SA – Estamos a falar de paí­ses africanos?

IM – Estou a falar de países europeus. Tenho acompanhado declarações ameaçadoras contra a Guiné-Bissau. Não queremos ameaças de fora. A Guiné-Bissau é um país soberano como são os ou­tros. Podemos esperar conselhos.

SA – O nome de Angola terá sido usado indevidamente para que o mal-estar que se está a vi­ver agora tivesse lugar?

IM – Pelo contrário. Todos os guineenses querem lá os ango­lanos. Os angolanos são nossos irmãos. E digo isso com proprie­dade, pois sou o presidente da co­munidade guineense em Angola.

SA – Refiro-me à informação que fez os militares se levanta­rem.

IM – Quem veiculou essa in­formação falsa foram os guine­enses. Os angolanos são bem-vindos na Guiné-Bissau.

«É preciso afastar os (mais) velhos dos cargos públicos»

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

Cônsul-geral da Guiné-Bissau em Luanda, Isaac Monteiro

SA – A Guiné-Bissau está a preci­sar de uma nova geração de milita­res?

IM – Não há dúvidas! Os militares precisam das suas reformas condig­nas. Todos os ministérios da Guiné- Bissau deveriam afastar os velhos, dando lugar para os jovens formados, que não têm emprego.

SA – Mas o que é que faz a diáspo­ra guineense para o seu país?

IM – A diáspora representa a sal­vação da Guiné-Bissau, mas ela é tratada como inimiga. Os melhores quadros guineenses estão espalhados pelo mundo inteiro. Mas não têm oportunidade na Guiné-Bissau. Têm uma ideia de evolução, estão acostu­mados a trabalhar, estão acostuma­dos a viver da meritocracia, mas não têm oportunidade na Guiné-Bissau. Isso dói não só a mim mas a muitos guineenses na diáspora!

SA – A classe política da Guiné- Bissau pode ser comparada à estó­ria do «Velho do Restelo»?

IM – Acho que sim. A classe política quer ter mulheres à sua volta, ganhar o seu dinheiro no final do mês sem trabalhar para o desenvolvimento do país. Ainda não vi a Guiné-Bissau a dar um passo para o desenvolvimen­to, tirando o bom trabalho de inves­timento que Angola tem estado lá a fazer.

SA – As instituições do Estado na Guiné-Bissau estão fragilizadas e não há vontade de fortifica-las?

IM – Vontade há, mas não há en­tendimento entre eles (os políticos). Quando o Presidente e o Primeiro- Ministro não estão em sintonia, as coisas não funcionam.

SA – É o caso presente?

IM – Nem por isso, mas já hou­ve casos do género com presidentes (Nino Vieira e Malam Bacai Sanhá) que já morreram. Trabalhavam com o Primeiro-Ministro de costas viradas. Imagine o seguinte cenário: Há um Presidente com a sua equipa, o seu ga­binete que usurpa as competências do Primeiro-Ministro e este quer cumprir a sua agenda. Pronto, o senhor é um bom entendedor e vai concluir o que é que se passa na Guiné-Bissau. Já disse tudo.

Por falta de embaixada e consulado em Luanda … «Espero que o Governo ganhe juízo»

SA – Não se respeita a Constituição na Guiné-Bissau?

IM – Dificilmente. Repare: fui nomeado como cônsul-geral da Guiné-Bissau há oito anos, mas nunca recebi tostão nenhum do Governo. Gastei o dinheiro da minha empresa que poderia ter investido mais em Angola. E eles lá gastam o dinheiro, a ganhar fama junto de mulheres, ao invés de criarem uma boa imagem e harmonia entre os dois países, Angola e a Guiné-Bissau. É isto que está acon­tecer. Espero que o Governo bissau-guineense ganhe juízo, que se reconcilie e respeite os Direitos Humanos.

SA – Quanto é que o Governo guineense lhe deve?

IM – Boa pergunta! Dois milhões, trezentos e tal mil dó­lares desde Dezembro de 2003 até Janeiro de 2012. Então você trabalha e não recebe? A escravatura já lá foi!

SA – Porquê que mandaram encerrar inopinadamente as portas do Consulado geral da Guiné-Bissau em Lu­anda?

IM – Isto é uma grande vergonha para o Governo guine­ense. Mas fê-lo porque o ministro dos Negócios Estrangei­ros e Comunidade Internacional não tem a sensibilidade de cuidar dos seus compatriotas no estrangeiro. Por isso mandou encerrar as portas do Consulado em Janeiro.

SA – Os bissau-guineenses em Angola estão, neste momento, entregues à sua própria sorte?

IM – Sem dúvida, mas criada pelo ministro dosNe­gócios Estrangeiros e Comunidade Internacional. Ele enviou uma nota ao Ministério das Relações Exteriores a dar conta da cessação das funções do cônsul-geral em Angola. Sei que em Dezembro foi acreditado um embai­xador, Manuel Monteiro dos Santos.

SA – Um cabo-verdiano…

IM – Exactamente, que neste momento não está na Guiné-Bissau, mas sim em São Vicente. Foi nomeado em Dezembro. Esteve durante umas semanas num hotel, mas, entretanto, não há dinheiro para pagar aquilo que o cônsul-geral Isaac Monteiro está a fazer em Angola em prol dos guineenses. Os guineenses em Angola estão revoltados por causa disso.

SA – Neste momento a Guiné-Bissau não tem Em­baixada nem Consulado em Angola?

IM – É verdade. O Consulado-Geral está encerrado e o embaixador nomeado não para aqui.

SA – Podemos dizer que técnica e diplomaticamen­te o relacionamento oficial entre o Executivo ango­lano e o Governo guineense está cortado?

IM – Não, não está cortado. O Mirex, na pessoa do senhor ministro Georgy Chicoty, saberá responder onde está a Embaixada e o embaixador da Guiné- Bissau em Angola.

SA – A Guiné-Bissau é ou um narco-Estado?

IM – Não, não é. Os falsos amigos do continente são quem fazem passar esta ideia para enterrarem a ima­gem da Guiné-Bissau. Eles criam problemas de todaa ordem. E porquê? Porque a Guiné-Bissau tem petróleo que vai começar a ser explorado. Foram descobertos trinta e seis poços de petróleo, dos quais dez já estão prontos a serem explorados. E está confirmado que é do bom petróleo comercial. E agora? Quem vai explo­rar? Aqueles que nos estão ajudar, que nos estão aju­dar a fazer estradas, portos, caminhos-de-ferro, etc.

SA – Está a falar dos angolanos?

IM – Perfeitamente! Quem é que nos está ajudar? É Angola e os angolanos. E há países vizinhos que, man­dados por outros, não gostam disso.

SA – Estamos a falar de países francófonos que são manipulados por França?

IM – Está a ver como o ilustre jornalista conseguiu ser um bom analista e chegou à questão?! Esta é a res­posta!

SA – Mas a questão da droga é um falso problema na Guiné-Bissau?

IM – É o seguinte: a Guiné-Bissau tem cerca de oi­tenta arquipélagos e não temos capacidade para con­trolá-los. Os traficantes de droga desembarcam nestas ilhas com avionetas. Por isso a Guiné-Bissau é sim­plesmente uma plataforma para o tráfico de drogas. A Guiné-Bissau não fabrica droga. Não há barcos que possam patrulhar estas ilhas. Uma vez falei com o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, António Indjai, e ele manifestou-se revoltado. Disse que preci­sava de meios para controlar as nossas ilhas e acabar com o tráfico de drogas. Ele desabafou comigo. E eu disse-lhe: «Mas disseram que deram uma fragata». Ele respondeu: «Não, Portugal deu-nos um barco velho que está aí parado».

SA – Confia em António Indjai?

IM – Confio em todos os homens desde que prati­quem boas acções e abram o seu coração a dizer o que é que pretendem fazer de bom.

Bilhete de Identidade

À pala de um concurso público José Isaac Monteiro Silva, formado em Engenharia Civil, trocou, em 1969, Lisboa por Luanda para dirigir o departamento de medição e orçamento da SICAL. Em função dos resultados, as Construções Nogueira (CONOL) interessaram-se pelo seu trabalho e contratam-no para trabalhar no seu gabinete técnico.

Em 1975, foi convidado por um dirigente angolano para trabalhar no Labora­tório de Engenharia de Angola (LEA). O seu trabalho, a par dos seus colegas, era o de entrar nos bairros para reparar as escolas que reclamavam de obras de res­tauro. Trabalhou sob orientação directa do primeiro Presidente angolano, An­tónio Agostinho Neto, a quem dirigia os seus relatórios técnicos referentes aos trabalhos que desempenhou desde a Ilha de Luanda a Caxito. Foi um dos funda­dores da EMPROE e da ENCIB, tendo trabalhado nesta última empresa até 1979, altura em que, fruto de uma desavença laboral, bateu com a porta, tendo, depois disso, criado a sua própria construtora, com a qual sempre esteve ao serviço de instituições como o BNA e o BPC sobretudo no interior do país.

 

*Publicado no Semanário Angolense, Edição de 21 de Abril de 2012

 

 

 

 

 

Comando Militar Diz que Presidente e primeiro-ministro podem integrar um governo de transição…

Se o PAIGC apresenta-los para um governo de transição … não baseado no governo anteriormente eleito

O porta-voz dos militares, tenente-coronel Daba Naualna | Foto: AFP

O porta-voz dos militares, tenente-coronel Daba Naualna | Foto: AFP

O porta-voz do Comando Militar, que tomou o poder no dia 12 de Abril na Guiné-Bissau, admitiu que o primeiro-ministro e o Presidente interino libertados na tarde desta sexta-feira, 27, podem integrar um governo de transição.

Se Raimundo Pereira for Presidente será Presidente de um governo de transição, se Carlos Gomes Júnior for Primeiro-ministro será de um governo de transição, “não será Primeiro-ministro no resultado das eleições anteriores”, disse Daba Naualna em conferência de imprensa.

Se o PAIGC (maior partido, no poder até dia 12) “apresentar Carlos Gomes Júnior para o governo de transição será uma proposta boa para estudar”, disse o porta-voz em resposta aos jornalistas, acrescentando que “tudo está em aberto” e que o Governo eleito foi afastado.

Na conferência de imprensa, Daba Naualna afirmou que a força da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) que pode chegar ao país até domingo, irá para assistir à retirada da missão angolana (Missang) e para garantir a segurança de pessoas vulneráveis, como antigos membros “do governo que caiu”.

Vem também, disse, para garantir a segurança de pessoas que futuramente serão chamadas a depor nos julgamentos relativos aos assassínios políticos no passado recente no país. “Fizemos questão de dizer à CEDEAO que há um problema de impunidade crónica que tem de ser resolvido, ou através da Justiça ou de uma Comissão de Verdade e Reconciliação”.

De acordo com o porta-voz, o período de transição será de um ano, uma imposição da CEDEAO, já que o Comando queria dois anos, e uma equipa técnica da comunidade da África Ocidental vai discutir a modalidade de “arranjos constitucionais”, e “garantir a formação de um novo governo o mais rápido possível”.

Daba Naualna informou que a Assembleia Nacional Popular vai continuar como órgão, porque não foi dissolvida, ao contrário do Governo eleito que deixou de estar em funções.

“A CEDEAO disse que vai accionar mecanismos para combater o tráfico de droga. Temos a percepção de que os barões da droga estão a tomar conta da política neste país”, prosseguiu.

A missão da CEDEAO irá também, acrescentou, apoiar a Guiné-Bissau na realização de um recenseamento e de eleições dentro de um ano, provavelmente legislativas e presidenciais.

Fonte: Lusa

 

 

Entrevista — Daba Naualna: Eventual envio de força será decidido pelo governo a formar

Tenente Coronel Daba Naualna, Porta-voz do Comando Militar da Guiné-Bissau

Tenente Coronel Daba Naualna, Porta-voz do Comando Militar da Guiné-Bissau

[Há] uma onda de contestação a Carlos Gomes Júnior, ele terá morto muita gente, politicamente encomendou alguns assassinatos. Não sou eu quem o diz, é a ala do PAIGC [Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, do Governo afastado pelos militares] que entrou em confrontação com a ala apoiante dele. Se libertarmos agora Carlos Gomes Júnior, imagine que [alguém] aproveitava a oportunidade para o matar.

Daba Naualna, porta-voz dos militares que tomaram o poder na Guiné-Bissau nega ligação ao candidato Kumba Ialá. E justifica prisão do primeiro-ministro, Gomes Júnior, como forma de evitar que seja morto

Tenente-coronel, mas também jurista, doutorando na Faculdade de Direito de Lisboa, Daba Naualna, 46 anos, é o rosto do denominado Comando Militar que fez o golpe de 12 de Abril em Bissau. Numa entrevista telefónica, quarta-feira à tarde [antes da resolução da CEDEAO sobre o envoi de uma força de intervenção à Guiné-Bissau], disse que os militares nada têm a ver com o futuro político do primeiro-ministro e candidato presidencial, Carlos Gomes Júnior. “O que dissemos é que não nos crie complicações, que não nos mande forças estrangeiras secretamente.” Questionado sobre o papel de António Indjai, chefe de Estado-Maior, na acção golpista, afirma: “Que eu saiba não é membro do Comando”.

PÚBLICO: Qual o resultado dos contactos que o comando militar manteve nos últimos dias com a comissão da CEDEAO (Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental) que esteve em Bissau?
Daba Naualna: Era uma comissão técnica, veio discutir questões relativas à retirada das tropas angolanas, modalidades dessa retirada. Não chegámos a consenso sobre alguns aspectos, nomeadamente o envio de uma força da CEDEAO composta por 600 homens para supervisionar a retirada das tropas angolanas. Entendemos que decidir sobre o envio de forças ultrapassa a nossa competência como militares. Assim que um Governo for formado, poderá tomar decisões. [Indicámos] o Parlamento, para falarem com o presidente da Assembleia, a única entidade ainda a funcionar. Disseram-nos que não tinham mandato para falar com políticos, que careciam de autorização. Estamos a aguardar.

Como é que vão sair desta situação? Há um isolamento internacional.
Por via negocial. Há uma janela que foi aberta pela CEDEAO. E que eu saiba o Conselho de Segurança [da ONU] remeteu o processo de negociações para a CEDEAO. Vamos esperar. Seguramente vão mandar uma equipa técnica para discutir connosco e com a classe política modalidades de saída para a crise.

Que passaria pelo envio de uma força liderada pela CEDEAO. Isso seria aceitável para vocês?
Nós não nos opusemos à vinda de tropas que viessem supervisionar a retirada das tropas angolanas. Nem dissemos que sim. Dizemos tão só que não temos competência para decidir sobre essa matéria. Um eventual envio de força será decidido pelo governo a formar a partir da solução encontrada conjuntamente com a CEDEAO.

Há dias disse que uma força internacional seria entendida como invasora. Há uma mudança de posição.
Estamos a dizer que depois de formado Governo, se se chegar à conclusão que se adequa o envio de uma força e o Parlamento aprovar, se as instituições da República aceitarem, quem somos nós para negar? O que dissemos na altura foi que o envio unilateral que Angola tentava conseguir, sem ser decidido com as entidades políticas da Guiné, seria uma invasão. Nas palavras de George Chicoty [ministro das Relações Exteriores de Luanda] devia ser uma espécie de terapia para a Guiné. Se as entidades políticas chegarem à conclusão que devem aceitar, se o Parlamento concluir que deve aceitar está bem. O que dissemos a Carlos Gomes Júnior, relativamente ao pedido que formulou [para o envio de uma força internacional – VER A ALEGADA CARTA DE CARLOS GOMES JR.] foi que devia ter discutido isso no Parlamento e em Conselho de Ministros. Em Portugal, Cavaco Silva ou Passos Coelho não podem mandar ir forças sem que isso seja discutido em Conselho de Ministros nem aprovado no Parlamento. Foi só o que dissemos.

Mas devido ao golpe, as instituições, designadamente o Governo, não estão em funções. Qual é justificação, afinal, para o golpe?
Já disse, e voltei a repetir agora, que foi a carta secreta que foi escrita a mandar vir forças estrangeiras para dar uma terapia adequada às Forças Armadas da Guiné. O senho no meu lugar aceitaria isso? Tentaria actuar em legítima defesa.

Acredita mesmo que existia um acordo entre os governos da Guiné e de Angola para “aniquilar” as Forças Armadas guineenses?
Eu não disse que acredito que há. Eu disse que há uma carta escrita. Esta carta, está confirmado [sic], existe.

O golpe interrompeu o processo eleitoral para as presidenciais. Houve articulação com candidatos? Há alusões a uma articulação com Kumba Ialá [segundo mais votado na primeira volta, atrás de Gomes Júnior].
Isso são especulações. Que eu saiba, não há nenhuma ligação ao dr. Kumba Ialá, nem há razão para haver. Não actuamos por encomenda.

Não lhe parece que a melhor solução seria o retomar do processo eleitoral e os militares regressarem às casernas?
Não tenho nada contra. [Sobre isso] não dissemos nada. Dissemos é que somos contra o envio das forças para aqui. Quanto ao processo eleitoral caberá aos políticos decidirem o que acharem correcto.

O comando militar não se opõe à continuidade do processo eleitoral?
É um assunto político, não compete aos militares.

Relativamente ao primeiro-ministro, há uma intransigência, uma rejeição.
R – Rejeição em que sentido?

Gomes Júnior foi detido. Há oposição a que volte a exercer funções.
Ninguém diz isso. Não temos nada a ver com o futuro político de Gomes Júnior. Como empresário, se quiser continuar a sua vida empresarial [que continue]. Como político que o faça, dentro do PAIGC. O que dissemos, é que não [queremos que] nos crie complicações, que não nos mande forças estrangeiras secretamente. Se tiver que fazer isso que o faça obedecendo à Constituição e às demais leis da República.

Não há oposição a que retome a actividade política?
Isso é uma questão política que será discutida. Não connosco. Com Gomes Júnior, com o seu partido, com os políticos da oposição, não com os militares. Não temos nada a ver com a sua vida política. É um cidadão e tem liberdade de fazer política.

Não há oposição à sua acção como primeiro-ministro? Está detido por alguma razão.
Está detido porque senão levaria avante o seu projecto de vinda das tropas.

Por que não é agora libertado?
Não temos condições para o libertar. Não há governo com capacidade para garantir segurança. Logo que seja criado, e haja um ministro do Interior, nós o faremos. O senhor não está cá não sabe. [Há] uma onda de contestação a Carlos Gomes Júnior, ele terá morto muita gente, politicamente encomendou alguns assassinatos. Não sou eu quem o diz, é a ala do PAIGC [Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde, do Governo afastado pelos militares] que entrou em confrontação com a ala apoiante dele. Se libertarmos agora Carlos Gomes Júnior, imagine que [alguém] aproveitava a oportunidade para o matar. Quem é que seria responsável? Não seríamos nós? Está sob nossa custódia, mas assim que for formado Governo será imediatamente libertado.

Qual é a situação dos detidos, do primeiro-ministro e do Presidente interino, Raimundo Pereira? Houve informações de que Gomes Júnior foi torturado.
É mentira. A Cruz Vermelha já disse que não há tortura, mas a imprensa gosta de mentiras.

Estão a ser-lhe fornecidos medicamentos?
Estão. A Cruz Vermelha já foi visitar Gomes Júnior três ou quatro vezes. Ninguém tortura ninguém. Ouvimos dizer na imprensa que foi visto aqui a sangrar. Foi dito que esteve connosco na negociação com a CEDEAO. Este país é um país de intrigas e a imprensa vem apanhar as mentiras que circulam por aí. É falso.

Quantas pessoas estão detidas?
Apenas três [o Presidente interino, o primeiro-ministro e o secretário de Estado dos Antigos Combatentes, Fodé Cassamá]. Ouço falar em centenas ou dezenas de pessoas detidas, perseguidas, intimidadas. Aqui em Bissau as pessoas organizam manifestações, a imprensa fala abertamente contra o golpe, a imprensa fala mal dos militares. Limitamo-nos a ouvir e a calar. Isto não é nenhum estado de repressão. Tentamos manter o mais amplo possível leque de liberdades fundamentais. O que fizemos foi uma legítima defesa.

Foi anunciado um conselho de transição. Chegou a ser avançado um nome para Presidente de transição, Serifo Nhamadjo. Tanto quanto se sabe não foram nomeados. Houve mudança de planos?

São especulações, são cogitações hipotéticas.

As nomeações, os nomes, são cogitações?

Não houve nomeação coisíssima nenhuma. Nós temos um compromisso com a CEDEAO. Estamos à espera para poder apresentar a nossa proposta, a proposta a que os partidos aqui chegaram. Mas a CEDEAO poderá também apresentar uma proposta para ser discutida, para se encontrar consensualmente uma saída airosa para esta crise. Não há nada decidido sobre a formação de Governo nem…

Os nomes referidos para Presidente e para o conselho de transição como é que apareceram? Que não foram nomeados é público. Não houve sequer convites?
Isso corre por conta de quem lançou boatos. Quando um jornalista lhe perguntou se fala na qualidade de Presidente de transição ou como presidente interino da Assembleia, Serifo Nhamadjo disse que não foi empossado nem ninguém o convidou para esse cargo.

Não é verdade que esses nomes foram ponderados?
Não. Pode ser uma das hipóteses por aí levantadas, mas em definitivo, como disse, nós estamos à espera da CEDEAO. Como poderíamos avançar com propostas e nomes se a CEDEAO não está aqui? Nesta altura quem assume o dossier Guiné-Bissau é a CEDEAO, não há nada decidido.

O senhor tem dado a voz, dado a cara. É o rosto do golpe. É também o líder?
Eu sou porta-voz.

Quem é o líder?
O líder é o Comando.

O Comando Militar. Que é também o Estado Maior das Forças Armadas, correcto?
Tem a liberdade de fazer a interpretação [que quiser]. Eu disse o Comando, agora o senhor quer expandir para chegar ao Estado-Maior.

Estou a pedir-lhe que clarifique.
Estado-Maior é uma coisa, Comando é outra. Não há confusão. Já disse que é o Comando.

Qual é o papel do tenente-general António Indjai?
Aonde, ao nível do Comando?

Sim, sim.
Que eu saiba, não é membro do Comando.

O senhor saberá.
Ele é chefe do Estado-Maior. Esse é o papel dele.

E está em funções? Chegou a ser dito que estava sob detenção.
Até agora não foi nomeado novo chefe do Estado-Maior. É ele o chefe de Estado-Maior.